Revista Rua

2018-05-03T19:09:53+00:00 Opinião

Calcorreando calçadas

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João Lobo Monteiro
João Lobo Monteiro
2 Abril, 2018
Calcorreando calçadas

Pelo título, pareceria que ia contar aquela anedota em que um senhor vai a um restaurante e só diz palavras começadas por F, mas neste caso seria para começar tudo por C. Ou então, que me ia armar em Camões e pôr tudo a rimar em versos decassilábicos. Nada disto vai acontecer, por várias razões: a maior e mais frequente é que eu não tenho tanto vocabulário e, pelo 13.º mês consecutivo, não tenho grande coisa para dizer. Depois, a anedota não tem grande piada. Finalmente, eu não seria pessoa para nadar no mar a segurar um livro, muito menos me daria jeito que se me vazasse uma vista.

Como terão lido nesta excelente revista (ou ainda vão ler, continuo sem saber se leem de trás para a frente ou da frente para trás), a indústria do calçado minhoto está bastante forte. Infelizmente, não é por minha causa. Não que eu não compre calçado nacional e, mais exatamente, produzido na minha região. É que eu não compro calçado, ponto. Sempre quis dizer “ponto”, como os da Casa dos Segredos, para acabar as conversas. Mas escrever “ponto” e digitar um ponto logo a seguir é estranho.

Pronto, ia eu a dizer que não compro calçado. Ou melhor, não comprava. No último Natal, chegou um momento crítico em que, vivendo em Braga, cidade pouco chuvosa, e confrontado com a pergunta dos meus pais “o que é que a gente te há de dar?”, o João adulto respondeu “preciso de umas botas”. E é esta a história de como passei a ter dois pares de botas para o inverno.

Na verdade, no verão tenho um problema semelhante, porque também não tenho muito calçado fresco. O que mais tenho é calçado de meia-estação, que não sei se existe – tanto o conceito de calçado de meia-estação, quanto a própria meia-estação, porque ou chove e está frio, ou está sol e calor. Portanto, ao verbalizar isto, percebi que vou ter de tomar medidas pelos meus pés. Obrigado, RUA!

Um problema que tenho, desde pequeno, é com sapatos. Dantes, a dificuldade era que não davam jeito nenhum para jogar à bola na escola. Nos dias de hoje, a questão é que estou habituado a usar sapatilhas que me deixam em paz e não estou para aturar sapatos que, invariavelmente, me pressionam. O calçado é, no fundo, uma metáfora para a vida que passa e não volta, se repararmos bem.

Ainda no tópico dos sapatos, e dando razão à fama familiar que tenho de ‘ser do contra’, os únicos que, até hoje, me assentaram bem, foram os sapatos do traje académico. Sapatos do traje que, entretanto, já transformei em sapatos para ir a jantares de gala e sapatos para ir a casamentos. Sapatos que muita gente se queixa de serem desconfortáveis, mas não no meu caso. Pode ser uma cena que tenha a ver com todo o conjunto, que não usei muitas vezes.

E bom, para finalizar, cabe-me pedir desculpa por todas as solas de sapatilhas que gastei a jogar à bola, agradecer aos meus pais por sempre me terem apoiado nesses momentos e lembrar que está para chegar o bom tempo (esperemos) e eu só tenho dois pares de sapatilhas levezinhas. Calço o 42. Obrigado a quem quiser contribuir!

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