Revista Rua

2021-01-26T09:14:49+00:00 Cultura, Música

Callaz: “Foi em Londres que percebi a importância que a música tinha para mim”

Na transição para o lançamento do novo disco, Callaz escreveu a música “Queima Essa Ideia” – canção auto-biográfica com ambições de explorar musicalmente com samples e beats.
©Marta Costa
Nuno Sampaio26 Janeiro, 2021
Callaz: “Foi em Londres que percebi a importância que a música tinha para mim”
Na transição para o lançamento do novo disco, Callaz escreveu a música “Queima Essa Ideia” – canção auto-biográfica com ambições de explorar musicalmente com samples e beats.

Maria Soromenho é Callaz, pseudónimo com o qual assina o seu percurso artístico desde 2017. Aprendeu a misturar sons sozinha, dando à sua linguagem musical o barulho de fundo próprio da autonomia, uma preferência por um processo de trabalho guiado pela filosofia DIY.

Foste Styling Assistant em projectos como Alicia Keys e Peaches. Começaste a tua própria marca Maria Soromenho, um projeto de criação de roupa e lenços de seda, muito ligado e inspirado pelo universo musical. Mas foi em 2017, em Los Angeles, que decidiste enveredar pela música. O que te levou a tomar essa decisão?

Estava em Los Angeles quando um amigo me pediu para cantar em português numa música dele. Fomos para o estúdio (Lollipop Records), criámos e gravámos a música. Houve um género de shift em mim nesse dia. Até aí a minha ligação com a música já existia e era forte mas não me tinha ocorrido que pudesse ter um projeto musical. Voltei para Lisboa em 2017, peguei num Casio que tinha comprado quando tinha 10 anos (o Casio que também o meu irmão utilizou para começar Vaiapraia bastantes anos antes), imprimi uma folha com os acordes e comecei a experimentar enquanto escrevia letras.

Estiveste em Londres e depois em Los Angeles. Estes dois universos ajudaram-te na tua decisão pelo mundo da música?

Sim, sem dúvida. Em ambos os sítios estava rodeada de música e músicos. Foi em Londres que percebi a importância que a música tinha para mim. Fui assistente da Pam Hogg, designer e música que, desde os anos 80,  tão bem personifica, tal como a Vivienne Westwood, por exemplo, a ligação que existe entre a moda e música. Em Los Angeles  morava numa casa com muitos instrumentos e ia a concertos quase todas as noites.

Desde o teu primeiro EP “Beer, Dog Shit & Chanel N°5” até ao teu último trabalho Callaz, passaste por universos do mundo pop, indie underground, indie rock até chegares às mãos de um pop eletrónico. Estas nuances fazem parte do teu processo de evolução?

Espero que sim. Tento não pensar muito nas labels ou no género de música que estou a fazer, porque essa consciência pode acabar por me limitar. Penso que a vertente indie e underground estará sempre presente na essência de Callaz como filosofia. Em termos de sonoridade gostava de experimentar muito mais.

©Marta Costa

Após o lançamento de Gaslight, tocaste pela primeira vez fora de Portugal, em Los Angeles. Depois percorreste países europeus como Suécia, Islândia, Alemanha e Espanha. Gravaste o disco em Lisboa e logo de seguida partiste numa digressão em Nova Iorque dando concertos em prestigiadas salas como The Bowery Electric e Rockwood Music Hall. É importante esta representação da música portuguesa lá fora?

Sim, penso que qualquer tipo de intercâmbio cultural seja importante. Funciona para os dois lados. A representação da música portuguesa lá fora é importante e a minha música também ganhou bastante com essas experiências.

Por cá como tem sido a receção ao teu trabalho?

A receção ao meu trabalho tem sido lenta, mas muito positiva.

Dead Flowers & Cat Piss, será editado dia 19 de Fevereiro de 2021. O que podemos esperar deste álbum? Que surpresas nos reservas?

Este álbum acaba por ser um pouco mais artesanal do que o trabalho anterior. Voltei a introduzir cordas (guitarra, baixo), algo que não fazia desde “Beer, Dog Shit & Chanel N°5” e experimentei um pouco mais com a voz. A produção do disco ficou a cargo de Helena Fagundes (produtora e pós-produtora de aúdio com um longo percurso como baterista) e foi feito apenas pelas duas sem qualquer outra intervenção, em estúdios caseiros e com poucos recursos. A estrutura das demos foi muito respeitada. Acho que este é um passo importante no meu percurso e estou muito entusiasmada para o que vem a seguir.

Devido à pandemia todos concertos voltam a se cancelados. As salas de espetáculo voltam a estar vazias. Como é que este estado te afetou/afeta?

2019 foi o primeiro ano de vários concertos para mim; estava mesmo a começar. Esta situação afetou-me muito no sentido em que atrasou os meus planos de desenvolvimentos ao vivo. Mas existe também a oportunidade de utilizar este tempo para pensar/repensar a performance e a atuação ao vivo de outras maneiras.

Todo este confinamento alterou o teu processo criativo, a tua forma de ver e sentir a música?

Não alterou o processo criativo, mas talvez tenha alterado a minha forma de ver e sentir a música no sentido em que lhe dou ainda mais valor. Refiro-me muito à musica ao vivo, mas também ao conforto que os discos me têm dado nesta altura em que está tudo tão confuso e incerto.

O futuro é sempre incerto e as incertezas ainda são mais profundas devido a um vírus que tomou conta do mundo. Como é que vês o futuro da música?

O meu primeiro impulso é sentir-me nostálgica e querer que volte tudo ao “normal” com muitos concertos ao vivo! Mas tudo é efémero e quero acreditar que a mudança possa ser boa. A música e os concertos vão sempre existir mesmo que tomem outras formas ou se organizem de maneira diferente. Acho que agora será mais importante do que nunca a colaboração e a luta da parte dos artistas.

Da tua parte esperas continuar pela música e fazer dela um hino ainda maior?

Sim.

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