Revista Rua

2020-03-18T10:23:01+00:00 Opinião

Caminhar em reverso

Crónica
Francisco Santos Godinho
Francisco Santos Godinho
18 Março, 2020
Caminhar em reverso

Levantara-se cedo, sem dar caso ao que marcava o ponteiro pequeno e pôs a cafeteira ao lume, sacudindo um fósforo lento daqueles que se encontra nas prateleiras de cima dos armários, já esquecidos, uns retratos antigos de gente que não se lembra, um carrinho de bombeiros feito de lata, pertencera ao filho pequeno que já não vem há meses, há antes uma orquídea na beira da janela da sala, rega-a às quartas-feiras, dois vazios no sofá, o da esposa e o do filho, a cafeteira ao lume e experimenta um dos lugares: não se encaixa nele, afunda-se e fecha os olhos, de repente a sala cheia com os três e o filho com o carro dos bombeiros no chão, a esposa minuciosa de volta de um artigo numa revista vermelha que a dona da tabacaria afiançou ser a coisa do ano, não consegue conceber o que seja a coisa do ano, afunda-se mais no lugar em que não se encaixa, desiste do sofá e detém-se no espelho da consola da entrada

– Fui eu que cresci ou as coisas que encolheram?
pergunta-se e não se conhece, não encontra a fisga no bolso e não traz calções, por consequência não é mais um miúdo, toca na cara e não há maciez, há antes uma lixa que lhe arranha a mão, por consequência não é mais um miúdo, estica-se e toca na ponta do lustre que há muito tem uma lâmpada que ora acende ora não acende, por consequência não é mais um miúdo, alguém assobia na cozinha ou é a cafeteira e a questão não o atormenta, conclui que se andar em passinhos de bebé, em marcha-atrás, viverá no passado e será um miúdo, claro, quem lhe garante que a cada passo estará mais próximo do pai meter a chave na porta, que a cada passo estará mais próximo da avó que aos domingos lhe metia uns tostões no bolso

– Para um bolinho na pastelaria
o bolinho na pastelaria parece-lhe vir de mãos dadas com uma satisfação imensurável e ao pensar no bolinho as cartas das contas em atraso principiam a atirar-se pela janela entreaberta e, caindo no passeio, algum estranho de bondade franciscana certamente as pagará, se andarmos em marcha-atrás vivemos no passado, fecha os olhos e tacteia os móveis, minto, não tacteia os móveis, vive na casa que era dos pais, sem mudança alguma desde miúdo, fecha os olhos e caminha em reverso, as prateleiras de súbito mais altas, não alcança a enciclopédia, não alcança o lustre da entrada, tudo cada vez mais alto, as mãos mais pequenas encontram a taça das coisas pequenas, parafusos, chaves que não se sabe o que abrem, quinquilharias, o assobio mais perto e a cafeteira verte gotas que desaparecem ao escorrer, deixam um trilho escuro e dá-lhe ideia das contas por pagar se dissolvem uma a uma,

– Fui eu que cresci ou as coisas que encolheram?
alguém toca à campainha uma vez, duas vezes e acaba por desistir, descobre uns tostões no bolso e como não pode abrir a porta a estranhos, fica feliz por ter tirado o carro dos bombeiros da prateleira alta antes de ter voltado a miúdo, vai brincar a manhã toda e, depois do almoço, um bolinho na pastelaria parece-lhe bem.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor
Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Autor do livro Sentido dos dias e da página Francisco Santos Godinho. Escritor. Luto contra o tempo de caneta na mão.

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