Revista Rua

Capicua, o rap como megafone de verdades

Capicua tem concerto agendado para dia 24 de outubro, no Teatro Municipal do Porto - Rivoli.
Fotografia ©Nuno Sampaio
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira20 Outubro, 2020
Capicua, o rap como megafone de verdades
Capicua tem concerto agendado para dia 24 de outubro, no Teatro Municipal do Porto - Rivoli.

Chama-se Ana Matos Fernandes, mas é com o nome Capicua que nos mostra o seu lado artístico, emocional, poético. Com um novo disco, o Madrepérola, Capicua sentou-se connosco num dos pontos mais icónicos da cidade do Porto, no Café Guarany, para nos falar da palavra como meio de ação, uma ação em rap, cheio de orgulho, alegria e entusiasmo. Das influências musicais às mensagens feministas, esta é uma conversa sobre transformação.

Agradecimento especial ao Café Guarany, no Porto

Fotografia ©Nuno Sampaio

Antes de falarmos do novo trabalho, gostaríamos de conhecer a Capicua e, por isso, nada melhor do que uma pesquisa na Internet: “Capicua, nome artístico de Ana Matos Fernandes, nasceu no Porto, fez a licenciatura em Sociologia no ISCTE e o doutoramento em Geografia Humana em Barcelona, mas o que sempre quis fazer foi música. Cresceu a gostar de rimas e de palavras ditas ao contrário. Com apenas 15 anos descobre o Hip Hop, primeiro pelos desenhos nas paredes, depois pelas rimas em cassetes, até chegar aos microfones. Em 2012, a sua música alcançou um público mais alargado, sendo falada em todos os meios de comunicação portugueses”. Está certo? O que acrescentava a esta biografia?

(risos) Sim, eu sempre gostei de fazer música, mas nunca pensei que fosse viver da música algum dia. Isso foi uma surpresa, na verdade. Até porque, na minha geração, as pessoas que viviam do rap eram uma pequena minoria, só o Boss AC, os Mind da Gap e pouco mais. Portanto, eu nunca pensei que pudesse fazer música profissionalmente. Sempre quis fazer música, mas não como uma profissão.

Como é que descreveria essa experiência? Porque apesar de achar que nunca iria ter uma oportunidade nesta área, a verdade é que tem mantido uma carreira de sucesso…

Penso positivo, mas também me tem dado muito trabalho. Quando comecei a fazer música e a trabalhar para mim própria, comecei a dedicar-me não só oito horas por dia. Era muito mais do que isso! Então tem sido algo que é possível, mas que também exige muita dedicação e muita persistência. E também contrariando as estatísticas, porque apesar de muitas mulheres terem começado a fazer rap em Portugal, nenhuma tinha ainda conseguido fazer uma carreira. Eu acabei por fazer um percurso que nem sabia se seria possível. Portanto, foi um atrevimento! De qualquer forma, a música foi ganhando lugar e fui tendo cada vez mais trabalho com música e menos com Sociologia, por isso não foi propriamente uma decisão que eu tomei, mas foi uma coisa que foi acontecendo. Fui-me agarrando com “unhas e dentes”, no sentido em que trabalhei e dediquei-me muito. Têm sido uns anos muito intensos, com muitos lançamentos. De 2012 a 2017, lancei mais ou menos um disco novo por ano ou uma mixtape, um disco de misturas ou um disco para crianças. Tenho feito álbuns para o meu público, tenho colaborado com outras pessoas e também tenho tido trabalho paralelo à música, como projetos sociais.

“Eu digo que sou rapper militante, no sentido de compromisso e missão com as minhas causas e uso a música como um veículo de mensagem”

Também lhe interessa muito essa parte social?

Sim, por exemplo, agora tenho feito crónicas para a Revista Visão ou letras para outras pessoas. Interessa-me a formação, os projetos sociais, escrever outras coisas e para outras pessoas, porque acho que todas essas experiências acabam por me ensinar truques novos que eu acabo por trazer para a música. Acho que a música é maior do que isto de fazer canções. O rap acaba por ser uma forma de inspirar outras gerações, de transmissão de mensagens positivas, ser um megafone para as minhas causas e ser uma ferramenta para mudar o mundo e, nesse sentido, todas essas outras coisas acabam por complementar a missão. Acabam por ser um acrescento importante àquilo ao qual eu me propus a fazer: associar a música, não só como um objeto estético, mas um veículo para um discurso.

Já apelidaram o seu hip hop como “um hip hop culto ancorado na palavra, na inteligência”. Se descrevesse o seu trabalho, era assim?

Ancorado na palavra, qualquer rap é. Eu digo que sou rapper militante, no sentido de compromisso e missão com as minhas causas e uso a música como um veículo de mensagem. Se é culto, se é bom ou se é mau… os adjetivos são sempre melhores para os outros, porque nós somos maus juízes de nós próprios! Mas tento fazer um rap interessante, do ponto de vista literário – e bem escrito, porque foi a escrita que me permitiu fazer música. Eu gosto de escrever desde pequena e a escrita deu-me esta oportunidade de fazer música, que é uma coisa inesperada para mim. Para mim, o mais importante é mesmo a escrita ou o momento em que estou a escrever.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Já referiu várias vezes, ao longo da sua carreira, que os poetas portugueses, em especial a poesia de Sophia de Mello Breyner, eram uma grande influência. Continua a ser?

Sim, a poesia de Sophia de Mello Breyner inspira-me muito porque foi a primeira que eu li, quando era criança. A minha primeira ligação à poesia foi através da Sophia e isso marcou-me para sempre, porque ela tem uma poesia muito concreta, mas que parte para a magia por trás das coisas. Ela fala sobre a pedra, o jardim, a praia, a fonte… sobre coisas que as crianças entendem e veem na realidade e a partir daí é que vai procurar o intangível. Isso tocou-me bastante, até porque ela falava muito do mar e eu sempre adorei o mar. Então, essa metodologia de Sophia acabou por se confundir com a minha.

Algumas das minhas grandes referências são também Zeca Afonso, Sérgio Godinho, José Mário Branco… são pessoas que também escrevem muito bem, que dão uma primazia à palavra e que fazem música, não só enquanto forma de arte, mas como forma de posicionamento, de ação política e de crítica social. Nesse sentido, inspiraram-me do ponto de vista da postura nesta profissão. Depois, quando descobri o hip hop, fez todo o sentido, porque era uma continuação. A música continuava a dar primazia às palavras, porque o rap é a palavra como veículo de mensagem, não só como objeto lúdico. Também me inspiraram os Dealema, que criaram a escola do rap no Porto, nomeadamente o Mundo Segundo, que foi a primeira pessoa que me gravou e que organizava os concertos. E, depois, como não havia grandes nomes femininos cá em Portugal, a Lauryn Hill e a Erykah Badu – rappers americanas – são referências femininas nisto que eu faço. Eu diria que entre a Sophia, as Cantadas de Abril de Zeca Afonso, os Dealema ou a Erykah Badu são as principais referências daquilo que eu faço. Claro que, ao longo do tempo, surgem inspirações diferentes, porque eu vou sempre lendo coisas, vou citando e fazendo referências.

Neste último disco, há inúmeras citações e excertos que podem ser uma pista daquilo que eu andei a ler e a ouvir antes de fazer este álbum. Mas já em muitas outras canções fui buscar, inclusive, um poema do José Gomes Ferreira para fazer um refrão na música “Lupa”, no álbum Sereia Louca. Isto acontece muitas vezes: ir aos livros ou à música de outras pessoas para procurar referências e inspirações para aquilo que eu faço. Sinto que também é bom para quem me ouve perceber de onde é que vêm as minhas referências e em que é que eu me inspiro.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Falando em influências, são várias as vezes que a identificam como “a artista que veio revolucionar o rap português”. Porque é que acha que tem este cunho de revolução? Será por ter essa atitude feminista e as pessoas não estarem habituadas a isso?

Não. Acho que tem mais a ver com a abertura a novos públicos. Há uns anos havia um preconceito em relação ao hip hop e o rap estava muito circunscrito à “tribo” ou ao pessoal da cultura hip hop. Depois, pelo meu contributo e também de outras pessoas, houve uma abertura do rap a um público mais generalizado. Ainda assim, eu acho que consegui chegar a um público de várias tribos e de várias gerações e isso não é assim tão comum. Há uma tendência para eu cativar um público mais juvenil, mas apesar disso também cativo mulheres com 40 anos, crianças e homens de 60. Nos meus concertos vê-se todo o tipo de pessoas e acho que isso ainda não tinha acontecido, o que faz com que muitas pessoas tenham ido ao primeiro concerto de rap porque eu fiz música ou porque ouviram as minhas canções. Houve uma espécie de transformação, não só no que diz respeito à ideia que as pessoas tinham do rap, mas também à ideia que o rap tinha em relação ao seu próprio público, porque, de repente, qualquer pessoa pode ser público de rap. Isso não foi uma coisa exclusivamente minha, há muitas pessoas que têm feito isso. Ainda assim, eu faço música alternativa e não faço propriamente hits de rádio, porque há quem faça rap muito mais comercial do que eu. A questão não é tanto o alcance ou os números, é mais o preconceito ou a ideia que existia de fechamento em relação ao rap e ao seu público, que foi um pouco desmistificada pelo facto de eu ter chegado a várias pessoas diferentes. Por isso, acho que não foi tanto uma revolução, mas uma abertura.

Beats imaginativos, flow com força, rimas precisas. É esse o objetivo em cada música? É essa a receita de sucesso das suas canções?

(risos) Não sei, porque o sucesso é sempre algo misterioso. Nos beats eu dependo sempre de com quem colaboro, porque não faço instrumentais. Mas acho que nessa questão da atitude e das rimas precisas acho que sim, porque acho que o rap vive desse registo afirmativo e orgulhoso, de quem não pede licença para existir, de quem não quer ser música de fundo. Acho que quando uma mulher o faz ainda se torna mais subversivo, porque não estamos habituados a que as mulheres estejam nesse lugar e que peguem no microfone para dizerem aquilo que pensam, com muita atitude, sem a preocupação de serem decorativas. Essa liberdade e força acaba por ser um statement por si só. Acrescentava as rimas precisas que tocam nos pontos certos e nas feridas, que falam de temas fraturantes e que ganham outro poder. Acho que as pessoas não estavam muito habituadas a ver mulheres no rap, mas passados cinco minutos as pessoas querem é saber se a música é boa e se tem conteúdo! Nesse sentido, de ter atitude e conteúdo, a minha música fez com houvesse um reconhecimento por parte do público. Acho que a atitude é importante e tento, quando estou em palco, emanar uma mensagem de força, de estar no palco orgulhosa – que é uma coisa que eu aprendi com o rap e é uma lição muito feminista – e transmitir essa mesma autoconfiança, que nas mulheres é um muito pouco cultivada. Acho que é muito difícil mantermos a autoestima nesta sociedade, é muito difícil não nos questionarmos ou sermos inseguras porque parece que temos que provar sempre três vezes mais, parece que estão sempre a questionar a nossa validade. Então, esta coisa de estar em palco a emanar força e autoconfiança da forma livre que eu gosto e com uma atitude muito forte, acho que é inspirador, não só para as mulheres, mas no geral.

“Acho que é muito difícil [nós mulheres] mantermos a autoestima nesta sociedade, é muito difícil não nos questionarmos ou sermos inseguras porque parece que temos que provar sempre três vezes mais, parece que estão sempre a questionar a nossa validade.”

Nas suas letras diz sempre aquilo que pensa, ou seja, canta aquilo que pensa e essas mensagens feministas estão de certa forma presentes neste novo álbum. Esta ideia de escrever o que pensa é importante para si?

Sim, claro. Eu tento ser frontal e espontânea, porque a liberdade pratica-se e também não é uma coisa muito estimulada na socialização das mulheres. Sermos espontâneas não é uma coisa propriamente que nos estimula. Até a forma como nos sentamos, como falamos, como agimos, os palavrões que não podemos dizer… é tudo de certa forma condicionado e eu tento ser o mais livre possível. De facto, as minhas causas têm um espaço importante no conteúdo do meu trabalho, porque acredito que a música é poesia, mas também é falar sobre aquilo que me incomoda no mundo e que eu quero transformar. Acabo por fazer da minha música um megafone e tento fazer músicas com profundidade, que façam pensar.

Foi isso que tentou fazer com este novo álbum?

Tenho tentado fazer em todos, mas neste novo álbum, em particular, tentei fazer de uma forma mais luminosa, mais alegre, porque senti que já dominava os temas mais sérios e precisava de treinar essas abordagens mais dançáveis, o que é difícil. E tentei fazer, do ponto de vista criativo, esse exercício de fazer música mais alegre, porque acho que os tempos são sombrios. Tenho até uma rima que diz “quando tudo é adverso eu faço o inverso para que equilibre”, numa proposta de trazer esperança, mas não de uma forma passiva ou alienada, mas para mostrar que é possível fazer diferente, se lutarmos com força. O conceito deste disco, até pelo nome, representa a ideia de que as ostras só fazem pérolas quando têm um grão de areia a incomodar e acabam por cobrir esse grão com uma baba que acaba por se transformar numa pérola. Isto é super poético e eficaz para o próprio exercício do disco. Eu tentei pegar nos grãos de areia e nas coisas que me preocupam e transformá-los em música mais alegre, mais dançável e luminosa. As músicas, de uma forma ou de outra, vão parar aí. Ou pelo amor ou pela ironia, vou sempre fazendo esse exercício de otimismo.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Isso são sempre temas que lhe interessam a si enquanto pessoa e enquanto socióloga também, porque a sociedade em que nós vivemos está um tanto caótica, certo?

A Sociologia aumentou-me o espírito crítico, de pensar nas causas menos aparentes para as coisas, pegar nos temas pelas várias perspetivas. Mas esse olhar Mafaldinha eu já o tinha antes e acabou por fazer parte de mim própria. A Sociologia será mais uma pedra nessa construção de uma pessoa engajada com a realidade e com o espírito crítico. Este disco fala de muitas coisas, fala da minha vida, de amor, de coisas que têm a ver com a maternidade, mas depois também fala sobre o mundo e sobre as coisas que me chateiam. Fala do Porto, da gentrificação, de ecologia, de feminismo, das redes sociais, da indústria musical… vai falando de vários temas que me incomodam em cada momento.

“Acabo por fazer da minha música um megafone e tento fazer músicas com profundidade, que façam pensar”

Passaram alguns anos desde o Sereia Louca. O que é que a experiência lhe ensinou nos últimos seis anos? A questão da maternidade mudou um bocado a sua forma de escrever e de ver o mundo?

Claro que sim, porque uma pessoa vai mudando e os discos são um retrato do momento em que andamos a construir as canções. Agora, analisando melhor, acho que existe uma ligação entre s dois trabalhos, o Sereia Louca e o Madrepérola. É como se fosse a mesma pessoa, mas no anterior era uma sereia mais introspetiva, mais voltada para o seu espaço íntimo, e a Madrepérola é a sereia que vai para a rua dançar com o mundo e que se abre para outras músicas e para outras alegrias. Acho que ambas [as sereias] fazem parte do mesmo espírito feminino, aquático e sensível.

Começamos esta entrevista por fazer uma espécie de biografia e gostávamos de terminar da mesma maneira. Se daqui a uns anos voltássemos a fazer uma biografia da Capicua, o que gostava que estivesse lá escrito?

(risos) Eu tive um bebé recentemente e acho que nos próximos dez anos vou estar muito atarefada com ele. Penso em ter outro filho e, por isso, vou estar mais focada na maternidade. Gostava de manter a minha ligação à música, se não for através de mais discos, pelo menos colaborando e escrevendo para outras pessoas. Tenho vontade de fazer outras coisas, que não sejam só música. Gostava de me tornar numa mulher do Renascimento, com vários ofícios, com mais um bebé e muitas letras. Acho que resumia assim! (risos)

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