Revista Rua

2020-02-18T09:56:07+00:00 Personalidades

Capicua: “Quando tudo é adverso, eu faço o inverso para que equilibre”

A rapper tem novo álbum chamado Madrepérola.
Fotografia ©Nuno Sampaio | Agradecimento especial ao Café Guarany, no Porto
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira10 Fevereiro, 2020
Capicua: “Quando tudo é adverso, eu faço o inverso para que equilibre”
A rapper tem novo álbum chamado Madrepérola.

Agarramos num verso de Capicua para darmos título a uma entrevista que traz toda a energia da reconhecida rapper portuguesa. Com novo álbum, chamado Madrepérola, a Capicua chega aos palcos este mês com uma atitude renovada, “mais luminosa e mais alegre”, fruto de uma nova fase da sua vida, em que Ana Matos Fernandes veste o papel de mãe. No dia 14 de fevereiro, sobe ao Theatro Circo, em Braga.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Antes de falarmos do novo trabalho, gostaríamos de conhecer a Capicua e, por isso, nada melhor do que uma pesquisa na Internet: “Capicua, nome artístico de Ana Matos Fernandes, nasceu no Porto, fez a licenciatura em Sociologia no ISCTE e o doutoramento em Geografia Humana em Barcelona, mas o que sempre quis fazer foi música. Cresceu a gostar de rimas e de palavras ditas ao contrário. Com apenas 15 anos descobre o Hip Hop, primeiro pelos desenhos nas paredes, depois pelas rimas em cassetes, até chegar aos microfones. Em 2012, a sua música alcançou um público mais alargado, sendo falada em todos os meios de comunicação portugueses”. Está certo? O que acrescentavas a esta biografia?

(risos) Sim, eu sempre gostei de fazer música, mas nunca pensei que fosse viver da música algum dia. Isso foi uma surpresa, na verdade. Até porque, na minha geração, as pessoas que viviam do rap eram uma pequena minoria, só o Boss AC, os Mind da Gap e pouco mais. Portanto, eu nunca pensei que pudesse fazer música profissionalmente. Sempre quis fazer música, mas não como uma profissão.

E se conseguisses colocar isto em palavras, como é que descreverias essa experiência? Porque apesar de achares que nunca irias ter uma oportunidade nesta área, a verdade é que tens mantido uma carreira de sucesso…

Penso positivo, mas também me tem dado muito trabalho. Quando comecei a fazer música e a trabalhar para mim própria comecei a dedicar não só oito horas por dia, mas muito mais do que isso, então tem sido algo que é possível, mas que também exige muita dedicação e muita persistência. E também contrariando as estatísticas, porque apesar de muitas mulheres terem começado a fazer rap em Portugal, nenhuma tinha ainda conseguido fazer uma carreira e eu acabei por fazer um percurso que nem sabia se seria possível. Portanto, foi um atrevimento! De qualquer forma, a música foi ganhando lugar e fui tendo cada vez mais trabalho com música e menos com Sociologia, por isso não foi propriamente uma decisão que eu tomei, mas foi uma coisa que foi acontecendo. Fui-me agarrando com “unhas e dentes”, no sentido em que trabalhei e dediquei-me muito. Têm sido uns anos muito intensos, com muitos lançamentos. De 2012 a 2017, lancei mais ou menos um disco novo por ano ou uma mixtape, um disco de misturas ou um disco para crianças. Tenho feito álbuns para o meu público, tenho colaborado com outras pessoas e também tenho tido trabalho paralelo à música, como projetos sociais.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Também te interessa muito essa parte?

Sim, por exemplo, agora tenho feito crónicas para a revista Visão ou letras para outras pessoas, portanto vou fazendo outras coisas paralelas. Interessa-me a formação, os projetos sociais, escrever outras coisas e para outras pessoas, porque acho que todas essas experiências acabam por me ensinar truques novos que eu acabo por trazer para a música. Acho que a música é maior do que isto de fazer canções. O rap acaba por ser uma forma de inspirar outras gerações, de transmissão de mensagens positivas, ser um megafone para as minhas causas e ser uma ferramenta para mudar o mundo e, nesse sentido, todas essas outras coisas acabam por complementar a missão. Acabam por ser um acrescento importante àquilo ao qual eu me propus a fazer: associar a música, não só como um objeto estético, mas um veículo para um discurso.

Já apelidaram o teu hip hop como “um hip hop culto ancorado na palavra, na inteligência”. Se descrevesses o teu trabalho, era assim?

Ancorado na palavra, qualquer rap é. Eu digo que sou rapper militante, no sentido de compromisso e missão com as minhas causas e uso a música como um veículo de mensagem. Se é culto, se é bom ou se é mau… os adjetivos são sempre melhores para os outros, porque nós somos maus juízes de nós próprios. Mas tento fazer um rap interessante, do ponto de vista literário, e bem escrito, porque foi a escrita que me permitiu fazer música. Eu gosto de escrever desde pequena e a escrita deu-me esta oportunidade de fazer música, que é uma coisa inesperada para mim e o mais importante é mesmo a escrita ou o momento em que estou a escrever.

Nas tuas letras dizes sempre aquilo que pensas, ou seja, cantas aquilo que pensas e essas mensagens feministas estão de certa forma presentes neste novo álbum. Esta ideia de escreveres o que pensas é importante para ti?

Sim, claro. Eu tento ser frontal e espontânea, porque a liberdade pratica-se e também não é uma coisa muito estimulada na socialização das mulheres. Sermos espontâneas não é uma coisa propriamente que nos estimula. Até a forma como nos sentamos, como falamos, como agimos, os palavrões que não podemos dizer… é tudo de certa forma condicionado e eu tento ser o mais livre possível. De facto, as minhas causas têm um espaço importante no conteúdo do meu trabalho, porque acredito que a música é poesia e temas mais emocionais, mas também é falar sobre aquilo que me incomoda no mundo e que eu quero transformar, nem que não seja a inspirar os outros a questionarem sobre a realidade. Acabo por fazer da minha música um megafone e tento fazer músicas com profundidade, que façam pensar.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Foi isso que tentaste fazer com este novo álbum?

Tenho tentado fazer em todos, mas neste novo álbum, em particular, tentei fazer de uma forma mais luminosa, mais alegre, porque senti que já dominava os temas mais sérios e precisava de treinar essas abordagens mais dançáveis, o que é difícil. E tentei fazer, do ponto de vista criativo, esse exercício de fazer música mais alegre, porque acho que os tempos são sombrios. Tenho até uma rima que diz “quando tudo é adverso, eu faço o inverso para que equilibre”, numa proposta de trazer esperança, mas não de uma forma passiva ou alienada, mas para mostrar que é possível fazer diferente, se lutarmos com força. O conceito deste disco, até pelo nome, representa a ideia de que as ostras só fazem pérolas quando têm um grão de areia a incomodar e acabam por cobrir esse grão com uma baba que acaba por se transformar numa pérola. Isto é super poético e eficaz para o próprio exercício do disco. Eu tentei pegar nos grãos de areia e nas coisas que me preocupam e transformá-los em música mais alegre, mas dançável e luminosa. E as músicas, de uma forma ou de outra, vão parar aí, ou pelo amor ou pela ironia, vou sempre fazendo esse exercício de otimismo.

Isso são sempre temas que te interessam a ti enquanto pessoa e enquanto socióloga também, porque a sociedade em que nós vivemos está um tanto caótica?

A Sociologia aumentou-me o espírito crítico, de pensar nas causas menos aparentes para as coisas, pegar nos temas pelas várias perspetivas. Mas esse olhar Mafaldinha eu já o tinha antes e acabou por fazer parte de mim própria. A Sociologia será mais uma pedra nessa construção de uma pessoa engajada com a realidade e com o espírito crítico. Este disco fala de muitas coisas, fala da minha vida, de amor, de coisas que têm a ver com maternidade, mas depois também fala sobre o mundo e sobre coisas que me chateiam. Fala do Porto, da gentrificação, de ecologia, de feminismo, das redes sociais, da indústria musical… vai falando de vários temas que me incomodam em cada momento.

Tens já três concertos de apresentação agendados. Qual é o feedback que tu esperas do público?

Já tive um primeiro concerto de antestreia, antes do disco sair, em dezembro, e foi um exercício de tocar o disco na íntegra para pessoas que ainda não o tinham ouvido, o que foi muito especial. Foi arriscado, mas correu bem e eu consegui ver a reação das pessoas ao ouvirem as músicas pela primeira vez, a reagirem à escrita, a emocionarem-se e a dançarem. Estes três concertos que se avizinham serão um pouco do que aconteceu no Teatro da Trindade, em Lisboa, mas agora as pessoas já conhecem o disco. Vamos tocá-lo na íntegra, da primeira à última canção – que é uma coisa que eu nunca tinha feito – como se fosse uma visita guiada, como quem mostra uma casa nova, de divisão em divisão. Será um espetáculo para apresentar a nova formação da banda que me acompanha, o novo cenário (porque eu costumava ter ilustração ao vivo e não um cenário) e terá mais luz e brilho… será mais madrepérola! Como este disco tem muitas vozes cantadas, eu tinha de arranjar cantoras, porque eu não canto, falo rápido, para fazer as vezes dos inúmeros convidados e então tenho a Joana Raquel e a Inês Pereira que também se juntam à banda.

Nestes concertos, para além de apresentares todas as músicas do novo disco, haverá tempo para revisitar temas antigos?

Claro que sim. Quando as pessoas normalmente nos chamam de novo ao palco para um encore, há sempre espaço para revisitar alguns temas, mas a ideia é fazer um concerto centrado neste novo disco. Mas claro que há uns clássicos que acabam por voltar e são inevitáveis. Depois destes três concertos de apresentação, quando voltarmos ao circuito habitual, nos concertos ao ar livre, acaba por haver sempre mais mistura dos discos todos num repertório mais apropriado para festivais. A ideia destes concertos é ser uma sala de estar, mais intimista, em que vamos ouvindo o disco ao vivo e conhecendo as histórias por detrás das canções. É como se estivéssemos todos na minha sala a ouvir o disco em conjunto, como uma listening party. Quero que as pessoas se levantem e dancem, porque este disco é uma festa!

Um dos três concertos de apresentação do novo disco será no Theatro Circo, em Braga, no dia 14 de fevereiro. Queres aproveitar para deixar um convite para te irem ver à sala de espetáculos mais bonita do país?

Vai ser no dia dos namorados e, ainda, por cima, é o dia em que sai o vinil, mesmo a tempo “daquela prenda”. É nesse dia que começamos a apresentação do disco e será na terra do meu pai, em Braga. A sala é lindíssima. Já tive oportunidade de tocar no Theatro Circo, enquanto Capicua, no auditório pequeno e, depois, com o meu projeto para crianças na sala grande. Mas como Capicua na sala grande é a primeira vez e então estou muito entusiasmada, porque é linda (a sala) e acho que o cenário, as luzes, o ambiente… será tudo perfeito. E também porque o Theatro tem uma programação muito interessante e para mim é um orgulho poder fazer parte.

A entrevista completa a Capicua fará parte da próxima edição em papel da Revista RUA.

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