Revista Rua

2019-07-26T16:57:14+01:00 Opinião

Caras com história

Viagens
João Rebelo Martins
26 Julho, 2019
Caras com história

O seu rosto era vincado por rugas fundas, envoltas num lenço que ora ajudava a proteger o pescoço do frio, ora servia para proteger o pouco cabelo do contacto com o capacete. 50 anos ou mais, pensávamos nós; muito embora fosse enérgico ao saltar da moto, ao fazer serviços mecânicos e outras necessidades típicas de uma viagem de vários dias pelos Andes.

Conheci o Juan porque percebemos que contratar um guia era mais barato do que um GPS. E um GPS é um ser inanimado enquanto que o guia fala, comunica, dá dicas, regateia o que for necessário. E foi com ele e outro amigo que atravessei parte do Peru.

No primeiro dia de viagem, de Cusco até Águas Calientes, certamente devido à chuva, ao frio, às diferenças de altitude – a 3200 metros de altitude, com o motor frio, foi com dificuldade que começamos a progredir pelo empedrado cusquenho até fora da cidade. Pelo meio de um tráfego constante de velhos camiões, autocarros e carrinhas com turistas fomos pela estrada asfaltada até Maras e, depois, pela terra até Pachar, com as montanhas cobertas de neve ao fundo. De Ollantayambo a Malaga foram quilómetros infindáveis por uma estrada de montanha, ora tocando o céu ora ficando entre autênticas paredes verdejantes. Malaga fica a 4315 metros de altitude, ao lado do monte Veronica, a 5682 metros. Mas a nossa vista apenas chegava para ver, e mal, a luzinha vermelha da moto do Juan. Na subida, o motor 650 foi perdendo potência e, por isso, foi com agrado que começámos a descer. Primeiro devagar, com a estrada encharcada para, depois, andarmos a empurrar o Juan quando já havia visibilidade. Chegados a Santa Maria, no meio da estrada ao jeito de controlador de tráfego, um homem indicava uma estrada a descer pelo lado esquerdo. Não era uma estrada, era um sonho de terra estreita, entre uma parede por vezes escavada e um precipício que dava para um rio. Parafraseando um conhecido piloto de ralis: “dá fome antes de se chegar lá abaixo”.
Pela terra, com calor, com uma boa velocidade, alcançámos Santa Maria e, posteriormente por uma estrada onde não nos era permitido circular, uma hidroelétrica que tinha uma estação de caminho de ferro – o Juan pouco comunicou.

Os laços foram estreitando, observámos e divertimo-nos com a beleza da estrada que acompanha a montanha desde o topo até ao sopé, enquadrada com a paisagem, parecendo um rio, paralelo ao rio. O pico dos montes em nosso redor, a mais de 5000 metros, cobertos de neve, as alpacas a pastarem. Depois, descendo em direcção à Amazónia, a paisagem, outrora árida, passou a um verde denso, povoada de ruídos tropicais, de aves e insectos, flores de cores garridas e sinais de animais selvagens.

Um dia ao jantar, o homem de 50 e tal anos disse-nos, depois de contar a história dele e da filha, “chicos, tengo tu edad”.  Velho, de rugas vincadas de sofrimento. Um novo que viaja com e nas histórias de aventureiros, e que nunca saiu da imensidão dos Andes.

Outivio preparou-nos um peixe assado com molho de coentros, num paraíso de areia branca e água transparente no meio do Atlântico. Descendo de uma roça de cacau, de típica construção colonial, pelo meio do verde, lá estava a praia onde umas crianças brincavam, nus, e onde nos iria ser servido o petisco.

“Quantas cervejas vão ser? É que não tenho frigorífico aqui e tenho que ir buscar”. O resto da conversa foi a de um empreendedor São Tomense, que queria expandir o negócio na praia e, para isso, precisava de dinheiro para comprar um plástico para proteger o tecto de um barraco, e um gerador para ter electricidade para o frigorífico.

No meio de tanta burocracia, o Outivio vai ter o seu tecto novo. O peixe estava óptimo, os mergulhos também. As crianças diziam que vínhamos de “onde faz fresco”; e eu concordo.

Ao longe desde o início da pista, um Toyota seguia-nos à distância e sempre perguntando se estava tudo bem. Oferecia ajuda e dava conselhos. Nas primeiras aparições de areia, a moto tremia como varas verdes, mas saindo do trilho e percorrendo a areia com pequenas pedras pretas, a tracção era outra e rolava-se bem. Com terra dura, numa lomba, pensei que estava com o buggy do CNTT e saltei: a moto aterrou de frente e a suspensão deveria ter ficado logo ali. Por sorte consegui dominar a coisa e foi daqueles sustos valentes, ao estilo das imagens aéreas da mítica prova africana. Pouco depois a areia começou a ganhar na percentagem com a terra e as opções de traçado sucedem-se, tal como as quedas. Umas melhores e outras piores.

Zaid, com Z como Zeus, foi quem nos salvou dali, no seu Toyota cheio de melancias. Por mais interesseiro que fosse o seu auxílio, foi ele que arranjou transporte para bagagem que pesava nas motos e nos levou até ao Erg Uzina para descansarmos até ao dia seguinte.

No Panafrica Rally, voltei a encontrá-lo. Tinha liderado a etapa, mas um atolanço fez-me perder muito tempo. Pouco depois o motor queixou-se e, quando parei, de uma caravana de 4×4 de matrícula francesa, saltou o Zaid. Não foi um bom presságio.

Uma coisa hollywoodesca! Bandas a actuarem, a Miss Egipto a fazer a apresentação, um ministro presente, vários canais de televisão, estradas fechadas para nós passarmos. Fomos tratados como autênticas estrelas rock. As pessoas acotovelavam-se para tirarem fotos connosco e pedir autógrafos. Dei três ou quatro entrevistas para a TV e um jornal. Fantástico, os egípcios adoram aventura e festa e mostram-se muitos hospitaleiros.

No dia anterior, na chegada ao aeroporto do Cairo, um casal americano aproximou-se e perguntou-me o meu nome. “Também sou português”, disse Drew. “O meu bisavô era açoriano”.

No Cross Egypt Challenge de 2014, tal era amizade (que ainda hoje se mantém) que eu, o Drew e o David éramos os Três Mosqueteiros.

São olhos, bocas, feições. Pensamentos. Pequenas marcas que ficam e que fazem ter saudades das viagens, saudades dos locais e, sobretudo, das pessoas. O Juan no Peru, o Outivio em S.Tomé, o Zaid em Marrocos, o Drew, a Chel e o David no Egipto e tantos outros.

As caras das viagens são mais uma das razões para viajar.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor:
Consultor de marketing e comunicação, piloto de automóveis, aventureiro, rendido à vida. Pode encontrar-me no mundo, ou no rebelomartinsaventura.blogspot.com ou ainda em instagram.com/rebelomartins. Seja bem-vindo!

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