Revista Rua

2020-10-12T11:29:20+00:00 Cultura, Personalidades, Teatro

Carlos Areia: “O pior para um ator é estar parado”

O ator português celebra 50 anos de palco. Nesta entrevista, Carlos Areia recorda o passado e fala-nos do presente da cultura em Portugal.
Carlos Areia, fotografado no Theatro Gil Vicente, em Barcelos. Fotografia ©Nuno Sampaio
Maria Inês Neto
Maria Inês Neto8 Outubro, 2020
Carlos Areia: “O pior para um ator é estar parado”
O ator português celebra 50 anos de palco. Nesta entrevista, Carlos Areia recorda o passado e fala-nos do presente da cultura em Portugal.

Aos 76 anos, Carlos Areia mostra-se ávido de aprender e expressar aquilo que melhor sabe fazer: a arte de representar. Ainda que não dê muita importância a celebrações de carreira, a verdade é que viveu os últimos 50 anos no palco, a presentear-nos com um humor inteligente que lhe é tão característico.

Quero ir Prá Ilha! é um espetáculo original, inspirado na célebre frase do ator em Maré Alta, a icónica série televisiva da SIC, estreada em 2004, na qual dava vida a um náufrago que era resgatado por um navio, mas ao ver o estado do seu país preferia voltar para a ilha deserta. Em jeito de homenagem a um papel que lhe é, ainda hoje, tão querido, Carlos Areia está em digressão com um espetáculo construído à base da Revista à Portuguesa, onde não faltará boa disposição e até um “pézinho” de dança.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Em 76 anos de vida, 50 são dedicados ao palco. O Carlos procurou assinalar esta data da melhor forma: em cima do palco, com um humor inteligente que nos faz rir e pensar. Começamos por perguntar: como está a ser esta fase de comemoração de uma data tão especial, principalmente num ano tão atípico?

Não é apenas esta fase de celebração, mas tudo o que se passa ao nível do espetáculo. Já temos este espetáculo há quase três anos. Foi uma ideia muito interessante, ainda que eu não seja muito de comemorações, mas, de certa maneira, era uma componente que servia o próprio espetáculo, daí eu ter aceitado esta ideia. No início, torci o nariz, mas lá aceitei. O espetáculo nasceu de raiz. Um aspeto curioso: este espetáculo foi montado com intervalo, ou seja, teria dois atos, e quando é um espetáculo deste tipo temos de arranjar um final para o primeiro ato e um final para o segundo. A pandemia veio mexer com o espetáculo, porque agora não pode existir intervalo. Então, tivemos de inventar uma fórmula, para que o espetáculo não seja interrompido.

Para quem não teve ainda oportunidade de assistir ao espetáculo, o que é que procurou trazer para cima do palco? Há alguma curiosidade por detrás da escolha do nome?

Trata-se de um teatro ligeiro, montado na linha da revista, não sendo a revista tradicional, até pela sua montagem que não permite andar de terra em terra, mas toda a sua linguagem e expressão cénica é na linha da revista. Tentei trazer um espetáculo em que as pessoas aceitam logo, à partida, como sendo um espetáculo de revista, no qual estão predispostas a assistir. O nosso pretexto passa por deixar as pessoas bem-dispostas, que passem um bom tempo a rir e que saiam daqui felizes. Primeiro, montei o espetáculo e faltava-me uma abertura e um título. Tenho colegas que começam pelo título, mas eu começo por criar o espetáculo, embora, desta vez, andamos aflitos para arranjar um título. Já tínhamos feito um espetáculo baseado numa frase do Rei de Espanha, “¿Por qué no te callas?” e, então, eu fiz o “Porque não te ris?”. De repente, lembrei-me do que eu fazia em televisão e que poderia ser “Quero ir prá ilha!”. A partir daí, só tive de arranjar algo alusivo a esse projeto. Consegui arranjar um boneco parecido com a minha personagem na altura e a abertura deste espetáculo começa mesmo assim, com a frase “quero ir prá ilha”.

“Temos uma Ministra com um discurso que, com a minha idade, apetecia-me bater-lhe. Não estou a dizer que ela não tenha razão, simplesmente não é assim que se reage num momento tão sensível.”

Se falamos de um momento de comemoração, era inevitável não fazer referência a uma das falas mais icónicas do Carlos e, também, relembrar uma série que certamente marcou uma geração. Que memórias guarda desses tempos?

As melhores! O teatro tem-me sempre preenchido, mais umas coisas do que outras, como é óbvio. Há coisas que me marcaram muito. Aliás, há uma coisa que eu já fiz há muitos anos em televisão, talvez uma das mais parvas que já fiz, mas que ainda hoje me falam nisso. Chamava-se Nós os Ricos, eu entrava com o Fernando Mendes, fazia de um “rico parvo” e ele de um empregado ainda mais parvo. Guardo saudades e sou muito saudosista das coisas boas. Guardo-as na memória e tiro lições daí, o que resultou e o que falhou. É uma aprendizagem.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Se olharmos para a sinopse de Maré Alta, da SIC, relembra-nos a história de um náufrago que, ao ser resgatado para um barco, se apercebe do estado do seu país e decide que prefere voltar para a ilha. Num ano tão atípico como está a ser este 2020, o Carlos sentiu em algum momento vontade de fugir para esta “ilha”?

Hoje, mais do que nunca, quando me reconhecem na rua dizem-me sempre “Eu quero ir para a ilha. Lá é que se está bem”. Naquela altura, a crítica funcionava. Falava-se, de um modo geral, do estado do país e justificava-se esse grito popular. Mas hoje ainda se justifica muito mais. O que se está a passar a nível de cultura em Portugal é dramático. Acho que todos os setores estão a sentir isso, à sua maneira.

Numa fase particularmente difícil para a cultura, considera que a pandemia veio trazer mais visibilidade às várias fragilidades que o setor das artes já vinha a sentir há alguns anos?

Sem dúvida. Havia muita gente que pensava que os atores eram todos ricos e, então, veio-se a perceber, assim que as coisas pararam por completo, que uma série de atores ficaram perdidos, porque as coisas já não estavam assim tão bem… aliás, nunca estiveram. A pandemia veio “pôr a nu” muitas debilidades, muitas verdades ocultas e a chamada “miséria escondida” veio ao de cima. Mas também trouxe coisas boas. Pessoas que nunca paravam, passaram a encontrar-se mais tempo em casa, juntou mais a família e criaram-se hábitos de higiene que deveríamos manter sempre. Por exemplo, nunca me descalçava para entrar em casa e hoje não entro sem tirar os sapatos. São pequenos pormenores que se devem manter daqui para a frente.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Que medidas são necessárias repensar neste momento para que seja possível continuar a criar bens culturais em Portugal?

Eu acho que estamos num bom caminho, mas – se é para falar em apoio – não há apoio nenhum. Temos uma Ministra com um discurso que, com a minha idade, apetecia-me bater-lhe. Não estou a dizer que ela não tenha razão, simplesmente não é assim que se reage num momento tão sensível. Uma Ministra da Cultura tem de ser uma pessoa sensível e ela não o é. É politicamente correta, mas incorreta com as pessoas. Não há qualquer sensibilidade.

“Às vezes dizem que a velha guarda de atores faz falta, mas eu acho que foi aquela “malta” nova que pegou na Nazaré aos ombros. Há ali pessoas com muito talento. Estaremos muito bem servidos no que toca ao futuro da televisão portuguesa.”

O Carlos integrou recentemente um projeto televisivo, Nazaré, no qual teve oportunidade de contracenar com nomes da velha guarda, como Rui de Carvalho, e ao mesmo tempo com jovens, como Carolina Loureiro. Este cruzar de gerações é interessante para si? De que forma é que o Carlos olha para os novos “jovens atores”?

Eu já trabalhei em bons projetos televisivos, mas este foi um dos melhores, em termos de elenco, que neste caso era genuinamente fantástico. Era verdadeiro, amigo, alegre e sem pequenas “guerras” de egos. Às vezes dizem que a velha guarda de atores faz falta, mas eu acho que foi aquela “malta” nova que pegou na Nazaré aos ombros. Há ali pessoas com muito talento. Estaremos muito bem servidos no que toca ao futuro da televisão portuguesa.

Com tantos anos de carreira, este projeto (Nazaré) ainda o desafiou?

Qualquer coisa nova que apareça eu agarro como se fosse a melhor coisa do mundo. Eu passo a vida a aprender e costumo dizer: “Ainda não sei nada!”. E não estou a dizer isto para ficar bem, não sei mesmo. Estamos sempre a aprender e nunca vamos poder dizer que sabemos tudo.

Em entrevista, o Carlos assumiu que lhe assusta o facto de “não fazer nada”. Esta necessidade constante de se manter profissionalmente ativo torna-o num ator mais multifacetado? Considera que o teatro tem, de facto, esta particularidade de permitir que se reinvente constantemente?

Isso é uma característica de qualquer ator. O pior para um ator é estar parado. Eu acho que é muito mau. Noutra profissão até é possível, mas, para um ator, que é um pensador e um sonhador, quando fica em casa a olhar para as paredes… é mau. Durante o confinamento eu tive de inventar coisas para fazer. Tocava viola, cantava, lia ou pintava, embora não me tenha custado assim tanto, uma vez que nos últimos dez anos tenho sido muito caseiro. Nesse aspeto, o confinamento não me fez muita diferença, porque gosto muito de estar em casa.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Na perspetiva do Carlos, considera que é mais fácil, hoje em dia, ingressar na área das artes?

Sempre foi difícil, na verdade. No meu tempo, era porque tínhamos os “velhos” agarrados aos cargos, os autores que não davam a mão a ninguém… mas hoje está tudo na mesma. Por acaso, entristece-me, porque anda por aí “malta” nova – de idade e de profissão – que tem um comportamento que os velhos tinham na altura em que me estreei. E isso assusta-me, porque pensava que os jovens, que têm umas cabeças muito mais arejadas e janelas mais abertas, com acesso a tudo, estão com umas ideias retrógradas em relação à sua posição nesta profissão. Estão piores que os velhos de antigamente.

Ao longo da sua carreira como ator, quer no teatro quer na televisão, o Carlos acompanhou também o crescimento da produção artística em Portugal. No seu ponto de vista, o que é que mudou, essencialmente?

As mentalidades, o conhecimento, o aceitar que não sabíamos tudo – principalmente nesta área. Acho que pararam para pensar que era necessário aprender mais. Essa consciência nota-se muito na atualidade, porque há uma melhoria muito grande em todas as áreas: na luz, no som, na própria representação, direção de atores, realizadores e até no guarda-roupa. Houve uma enorme evolução, ainda que não estejamos “lá”, porque há muito para evoluir. Claro que há conteúdos melhores, outros piores, mas, no sentido geral, melhorou bastante.

“Há liberdade de expressão na cultura, mas ainda somos muito “saloios”. Temos medo de tocar em alguns assuntos, mas isso é fruto de muitos anos a sermos amordaçados, o que criou um certo medo. Ainda hoje, dou por mim a autocensurar-me, o que é mau.”

Considera que se faz boa cultura em Portugal?

Faz-se, sem dúvida! Por mais que digam que não, estamos bem representados. Durante o confinamento vi espetáculos com muita qualidade, colegas muito bons e isso deixa-me vaidoso. Há malta a fazer coisas, de facto, muito bem feitas.

Se destacarmos os highlights da carreira de Carlos, que momentos ou projetos não esquece?

São tantos e todos eles tiveram uma razão de ser. Por exemplo, Maré Alta, no seu todo, tinha coisas que eu não gostava, mas achava muito engraçado interpretar a minha personagem, que me marcou muito. Tanta “mossa” fez que, na altura, por parte de alguns responsáveis políticos, havia quem fizesse força para cortar aquilo e isso foi uma vitória para mim. Houve políticos que tentaram que não se fizesse aquele tipo de crítica.

Mas, atualmente, a cultura é livre de expressão?

Há liberdade de expressão na cultura, mas ainda somos muito “saloios”. Temos medo de tocar em alguns assuntos, mas isso é fruto de muitos anos a sermos amordaçados, o que criou um certo medo. Ainda hoje, dou por mim a autocensurar-me, o que é mau. Mas liberdade há. Tem é de haver bom senso naquilo que se escreve e se diz.

Se pudesse, agora, entrar numa máquina do tempo e voltasse 50 anos atrás, era este o futuro que imaginava para si? Foi uma viagem bonita?

A viagem foi bonita, mas eu pensei que chegaria a esta idade e estaria a gozar a vida. Não quer dizer que deixasse a profissão, porque não conseguiria sobreviver de outra maneira – intelectualmente e financeiramente. Preciso mesmo de trabalhar, até porque não me imaginava parado por muito tempo.  Teria de inventar qualquer coisa para fazer. “Quero ir prá ilha” e ficar de papo para o ar… isso não dá para mim.

Depois deste espetáculo, o que é que gostava de ainda vir a fazer? O que é que ainda falta?

É um lugar comum, mas é uma verdade: falta-me fazer tudo. Gostava de fazer cinema, mas que interviesse na escrita, além de protagonizar, mas gostava de aprender a escrever para cinema. Gostava de rever uma biografia que escrevi há dois anos, um pouco à pressa e com medo de não ter tempo, e melhorá-la, porque há ali muita vida e muita verdade. Ainda tenho muita coisa para fazer.

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