Revista Rua

2018-11-02T14:29:50+00:00 Cultura, Outras Artes

Carlos Augusto Motta: do Brasil para Braga

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Helena Mendes Pereira3 Setembro, 2018
Carlos Augusto Motta: do Brasil para Braga
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Carlos Augusto Motta (n.1961) é natural do Rio de Janeiro e a sua ligação às Artes Plásticas é umbilical, ainda que tenha sido na Arquitetura de Interiores que consolidou uma carreira no Brasil. No final da década de 1990 adquire o edifício de uma antiga padaria, de 1938, e cria o seu primeiro atelier, que batizou como Padaria das Artes. Foi o êxito enquanto arquiteto de interiores que lhe permitiu, muito recentemente, atingir um nível de estabilidade que o levou a abandonar o Brasil e a adotar Braga como lugar de criação, não obstante o facto de ainda desenvolver alguns projetos de cenografia na sua terra natal. Foi em Braga que nos conhecemos e que me falou da “Phengaris Alcon” ou Borboleta Azul, que tem inspirado a sua mais recente produção plástica no domínio da pintura, espécie cuja preservação tem merecido atenção por parte de investigadores da UTAD (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro) e do município de Vila Real, de onde, curiosamente, sou natural. Tal como em qualquer ciclo de vida, nada acontece por acaso e é no intervalo entre os nossos estados racionais e emotivos que damos espaço para nos deixarmos envolver.

A Borboleta Azul, em extinção desde 1994, preserva-se no Parque Natural do Alvão, concretamente no lameiro de Dona Libânia, em Lamas de Olo, onde florescem milhares de novos seres que, em 2003, foram redescobertos pelo entomologista Ernestino Maravalhas, fundador do Tagis – Centro de Conservação de Borboletas de Portugal. O ciclo de vida da Borboleta Azul é de apenas 12 dias e inicia-se com o depósito de ovos que uma borboleta faz numa espécie concreta de flores, a “Genciana de Turfeira”. Algum tempo depois, esses ovos, já na forma de larvas, caem ao chão e são levadas por engano por uma única espécie de formigas até ao formigueiro. A “Murmica”, atraída por feromonas, confunde as larvas da borboleta com as da sua própria espécie. No formigueiro, as larvas da “Phengaris Alcon” passam de indefesas a predadoras e devoram os ovos das formigas, tornando-se cada vez mais fortes e corpulentas, atingindo a forma de pupa. No momento em que as formigas reconhecem a borboleta como um ser intruso, tentam atacá-la com as suas mandíbulas, mas sem sucesso. O ataque ajuda, inclusive, a que a borboleta rompa a pupa e alcance o voo da liberdade.

No momento em que começou a relacionar-se afetivamente com Portugal e a descobrir algumas da suas raízes, também em Vila Real, Carlos Augusto Motta – cujo trabalho artístico se alimenta bastante da natureza, nomeadamente dos processos biológicos de seres vivos como fungos e bactérias, prevalecendo o seu interesse pelas cores e formas, tanto reais como percecionadas – conhece a fantástica aventura da Borboleta Azul. É neste seguimento que desenvolve o projeto “Existência” que apresentou, pela primeira vez, na Escombros, uma prestigiada galeria carioca. A transdisciplinaridade da essência da ideia, que cruza pesquisa artística com científica, preocupações ambientais e, ainda, a procura das identidades cruzadas pela Língua Portuguesa, suscitou um imediato interesse no projeto que cresceu após o contacto pessoal com a extensa produção artística de Carlos Augusto Motta. A pintura do artista brasileiro é de uma enorme regularidade, coerência temática e com uma força expressiva que torna indefinível o exercício da abstração VS a figuração, ficando apenas claro que aquelas são imagens que nos puxam para dentro, visões do universo (microuniversos, neste caso) onde queremos submergir/emergir.

Sobre o autor:
chief curator da zet gallery

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