Revista Rua

2019-12-09T11:49:21+00:00 Personalidades

Carlos Coutinho Vilhena, quando o humor pode ser só o início…

Há uns meses, cruzámo-nos com Carlos Coutinho Vilhena. A entrevista está aqui!
Fotografia ©Nuno Sampaio
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira6 Dezembro, 2019
Carlos Coutinho Vilhena, quando o humor pode ser só o início…
Há uns meses, cruzámo-nos com Carlos Coutinho Vilhena. A entrevista está aqui!

É um dos rostos jovens do humor em Portugal, um humor que nasce e prolifera nos canais digitais graças ao maravilhoso mundo novo da internet. Carlos Coutinho Vilhena tem 25 anos, um canal de Youtube com mais de 1060 mil subscritores, vídeos com milhares de visualizações e um público que o empurrou para os palcos, quase que pedindo uma nova fase para o stand up comedy. Cruzamo-nos com Carlos Coutinho Vilhena numa visita do seu espetáculo Meta ao Theatro Circo, em Braga, e numa conversa breve percebemos que nem só de risos vive este homem.

 

Esta entrevista faz parte da Revista RUA #32, que pode ser consultada aqui.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Quem é Carlos Coutinho Vilhena? É um humorista em ascensão?

Depende… podes ser novo talento até que idade? (risos) Com 25 anos posso ser novo talento? Se sim, então acho que sou. Até aos 30 posso ser novo talento? Para poder falhar, para ser imaturo…? (risos). Eu acho que sou um humorista que começou muito cedo nisto, ou seja, tive a sorte de perceber cedo, antes até de acabar o curso, que queria fazer isto. Tive a sorte também de começar com pessoas da minha geração, com um grupo chamado Bumerangue, em que fomos muito cedo para a SIC Radical. Acho que faço parte da primeira geração de humoristas, tirando o Bruno Nogueira, que começou assim tão cedo – e logo a fazer palco. Sobretudo, sou um humorista da internet. Acho que assim me defino bem. Sou um humorista das novas redes porque não apareci assim em nenhum meio institucional mais clássico. Fui parar à televisão e agora estou também na rádio, mas o foco principal do meu trabalho são os projetos online.

Neste momento, tens mais de 160 mil subscritores no Youtube. Qual é a tua relação com a internet? Consideras que tem impulsionado uma nova fase do humor em Portugal?

Eu não sei como seria se não existisse internet. Se calhar apareceríamos, mas demoraríamos muito mais tempo e não seríamos tão fiéis àquilo que queremos fazer. Porque quando estamos numa televisão ou numa rádio temos de fazer concessões. Nós tivemos o luxo de fazer o que queríamos por causa da internet – o que não aconteceu com um Ricardo Araújo Pereira ou com um Bruno Nogueira, que só depois de conquistarem o público é que tiveram o luxo de dizer ao canal o que queriam fazer e como o queriam fazer. A internet fez-nos estar mais perto das pessoas.

Consideras que esta nova geração está a romper com alguma lógica humorística?

Talvez. Claro que nós seguimos os grandes exemplos. Temos coisas piores e coisas melhores. Mas acho que a grande vitória é a liberdade. Ou seja, nunca nos aconteceu alguém dizer “tu não podes fazer essa piada” porque somos nós que publicamos, muitas vezes somos nós que editamos, que realizamos ou co-realizamos. As piadas também somos nós que as escrevemos. Isso faz com que tenhamos muita mais liberdade. Mas, pontos negativos: vai ser muito difícil um de nós ser o próximo Herman José, ser um fenómeno mainstream dos sete aos 78! (risos) Porque como o público é muito mais de nichos e nós não temos um programa às 21h30, não há o público mainstream. Mas temos um público mais fiel, muito mais verdadeiro. Não é um público que me vê no Alta Definição e diz “aquele artista ali deve ter graça, deixa-me ir procurar”. Não! As pessoas que me veem conhecem a maior parte das coisas que eu faço.

Fotografia ©Nuno Sampaio

A tua formação é exatamente qual?

Eu tirei um curso chamado Estudos Gerais, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. À semelhança da América, eu podia escolher todas as cadeiras que eu quisesse dentro da universidade. Então, tirei cadeiras de escrita, cadeiras de textos fundamentais… Eu já sabia o que queria ser, mas tinha que ter ali dois ou três anos para tentar viver da comédia sem que os meus pais me chateassem muito (risos). E isto era uma desculpa: “estou a estudar, estou a tirar cadeiras que alimentam a minha cultura!”. Vendia isto e resultava! (risos)

Mas quando é que se dá esta decisão de “eu quero é fazer humor e não ter de pedir dinheiro aos meus pais”?

Eu sempre fui muito groupie, ou seja, aquele fã que via tudo do Bruno Nogueira, do Salvador Martinha, do Ricardo Araújo Pereira. Depois, aos 19 anos, tirei um workshop de escrita de humor, conheci outras pessoas, formei um grupo – na altura coincide com o aparecimento de uma rede social que entretanto acabou, que era o Vine, onde se partilhavam vídeos de poucos segundos. Uma das pessoas com quem eu mais me identificava no Vine tirou o curso comigo, o Manuel Cardoso. Juntamo-nos quatro humoristas e, quando demos por nós, já estávamos na SIC Radical. Claro que trabalhamos muito para isso! Mas tive a sorte de ter ao meu lado três pessoas e, assim, é mais fácil falhar porque não há tanta pressão. Depois, a partir daí, as coisas começaram a acontecer. Eu aos 15 anos já sabia que queria ser comediante, só não sabia era como (risos). Acho que tive a sorte de ter nascido nesta altura em que me aparecem as redes sociais e eu posso construir um público a partir daí.

Neste momento, assistimos a uma espécie de regresso ao stand-up comedy. Até o formato Levanta-te e Ri ressurgiu. Consideras que estamos numa fase de reviravolta?

Acho que nós normalmente seguimos as tendências que vêm de fora. Que antes, sem internet, demoravam cerca de oito ou nove anos a chegar cá. Em 2003, por exemplo, o humor de Fernando Rocha resultava muito bem porque era um humor de contar anedotas. Não era bem stand up, mas ele tinha muito jeito para isso. O Bruno Nogueira, que é um dos maiores talentos em Portugal, também surge por volta desse ano. Eu acho que não havia público de stand up, havia, sim, público daquelas pessoas! O que acontece agora? Tal como nos EUA, em Espanha, em Londres, em que há imensos comedy clubs, nós estamos a evoluir. Começa a existir público para ver stand up comedy tal como existe público para ouvir Fado ou hip hop. Sinto que isto está no início só. Na América, isto surge nos anos 70 e só agora é que o stand up é moda lá. Ou seja, os miúdos em vez de trocarem discos dos Nirvana ou bandas mais fuck the system, agora trocam especiais de stand up e consomem aquilo muito rápido. Acho que é isso que está a acontecer e é por isso é que há muito público.

O facto de isto ser tudo muito rápido faz com que a tua piada tenha que estar em constante evolução?

Claro, isso é a minha guerra (risos). O que é que nós queremos todos? Queremos fazer parte do humor, queremos ser considerados humoristas, queremos agradar aos pares. Penso que isto é o caminho de um escritor ou de um músico também. Queremos agradar a quem nós admiramos, para fazermos parte do núcleo. Não queremos ser olhados de lado ou como um artista menor. Depois disso, queremos fazer projetos que sejam intemporais. Qual o problema? Estamos na altura em que nada é intemporal, tudo é plástico! Mesmo nós! Se eu parar um ano – que por acaso parei porque estou a gravar outro projeto -, se eu não lançar nada durante um ano, é muito complicado eu encher salas. Nós temos de dar motivos às pessoas, online, para dizer: “Olha, ele tem graça, ele ainda existe!”. Assim, depois, eu posso dizer: “Venham ver-me aqui, à vossa cidade!”. Houve uma altura em que eu lançava vídeos todos os dias. Agora não o faço porque segmento mais por projetos, mas tenho de lançar um ou dois projetos por ano.

Fotografia ©Nuno Sampaio

O que é que te faz rir? E o que é que usas para fazer rir? Há limites?

Eu tenho a sorte de aquilo que me faz rir não ser nada de muito cáustico, ou seja, não causa muita polémica. Também ainda não cheguei a essa parte porque ainda não me interessa. Sou puto, tenho 25 anos e ainda não cheguei aos temas fraturantes de política, por exemplo. Acima de tudo porque acho que ainda não tenho bagagem para falar sobre isso – e as pessoas também não querem: “Tens 25 anos, o que estás a dizer da esquerda ou da direita? O que é que tu sabes ou que problemas é que tu tens?”. Eu quero namorar, quero ver se arrendo casa… e são esses os meus problemas de agora! (risos) Acho que quanto mais verdadeiros formos, mais o público se identifica. Também não falo de futebol, tenho essa sorte (risos). Mas não me censuro em nada. Acho que há outros comediantes que sofrem mais com isso, mas eu, como comediante que sou, acho que o humor não tem limites. Mesmo quem faz piadas e nós achamos que aquilo foi só para chocar, tem esse direito. Eu posso gostar ou não dessa piada, mas tem esse direito. Eu parto muito do princípio de que às vezes não gosto de músicas, mas não me chateio e parto para outra. Por isso, os limites do humor é uma questão que, na minha geração, já não se coloca. 

No teu caso específico, o teu humor é o “humor sem sentido, absurdo até”, como já anunciaste?

Eu, num registo de stand up, conto muitas histórias, fases por que estou a passar. Nos sketchs já fui mais “humor sem sentido”. Ainda o estou a fazer, mas estou numa fase em que me apetece fazer mais séries e documentários. Acho que o caminho é esse.

E qual será a tua próxima fase?

Não sei, não sei… Quem me dera saber, assim não sofria por antecipação (risos)

Vives a 100% do humor que fazes. Mas que outras paixões tens?

Gosto muito de realização, de cinema e vejo-me até, como comecei tão cedo e tenho de estar sempre a dar a cara, a ligar-me mais à realização e a fazer os meus projetos. Não sei até que ponto é que quero andar por cidades… depois terei filhos e não sei se a minha prioridade não vai ser outra: construir família – ou não sei se vou continuar sem coração e ser egocêntrico ao ponto de só querer receber risos! (risos) Mas vejo-me muito a mudar o caminho para a realização ou para o guião – mas acho que ser guionista em Portugal é impossível, não tenho bem noção, mas parece-me impossível (risos).

Que planos tens na agenda?

Gravei agora um documentário sobre um ator que já foi muito conhecido [João André, o personagem Kiko da série Morangos com Açúcar]. Entretanto, passaram dez anos, ele faz teatro mais contemporâneo, já não faz televisão, teve de voltar para casa dos pais… Gravei um documentário chamado O resto da tua vida onde tento mostrar que a gestão de carreira é mais importante do que o talento, em qualquer área. O meu objetivo é tentar fazer com que ele volte a ter trabalho e que saia da casa dos pais. E isto é tudo real!

Queres deixar uma temática para os nossos leitores pensarem? Qual é o tema que, neste momento, merece a maior das atenções?

Acho que é uma questão intemporal: até que ponto é que vale a pena ter família? Se a felicidade está ali ou em sermos completamente independentes, não termos que sofrer por antecipação por uma asneira que o nosso filho faça? Ou por manter um casamento durante anos com medo que os filhos sofram depois? Onde está a felicidade? Fui muito sério, não fui? (risos)

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