Revista Rua

Carlos do Carmo e o tempo que passa demasiado depressa

O fadista Carlos do Carmo despediu-se dos palcos, mas diz que ainda há muito que pode fazer pelo Fado que tanto ama.
Fotografia ©Nuno Sampaio
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira27 Março, 2020
Carlos do Carmo e o tempo que passa demasiado depressa
O fadista Carlos do Carmo despediu-se dos palcos, mas diz que ainda há muito que pode fazer pelo Fado que tanto ama.

Horas antes de subir ao palco do Theatro Circo, em Braga, para um dos três concertos que o ajudavam a dizer adeus ao público, conversámos com Carlos do Carmo, ali bem no centro do palco, onde ele sempre gostou de estar. Com a plateia vazia, o fadista lisboeta falou-nos deste momento de despedida, sempre com a sensação de dever cumprido… e de motivação, porque a vida não acaba aqui. Há tantos planos que Carlos do Carmo quer realizar!

Esta entrevista faz parte da edição #34 da Revista RUA, de dezembro de 2019

Fotografia @Nuno Sampaio

Queríamos que esta entrevista fosse uma jornada pelas memórias de uma carreira que já vai longa. E começaríamos exatamente por uma memória que eu tenho: em 2016, tive oportunidade de o entrevistar no Museu do Fado, após ter sido agraciado com o Grammy Latino de Carreira. Nessa altura, escrevi: “Menino e moço, Carlos do Carmo tinha um plano: terminar o seu curso de Hotelaria e Línguas na Suíça e tornar-se um gestor, quiçá, de uma multinacional influente. Mas a vida, que lhe tirou o pai demasiado cedo, tinha outros planos para ele…”. Recordando esta passagem, pergunto: como teria sido a sua vida se se tivesse tornado um gestor/empresário de uma multinacional de sucesso?

Eu, quando vivi e estudei na Suíça, aprendi a profissão com muito rigor. Aprendi a dominar os idiomas, conheci a área da restauração e hotelaria por dentro. Com o feitio que tenho, com este lado de comunicar com as pessoas, creio que seria uma profissão que eu encararia com toda a naturalidade, contudo, eu contrariei o meu pai porque o que eu queria ser realmente era advogado e jurista. Eu acreditava piamente que o advogado é fundamental para a justiça, para ajudar as pessoas a serem defendidas, sobretudo, os que não podem. Mas isso também não aconteceu. A morte do meu pai alterou tudo e o artista surgiu um bocado contranatura. Sendo eu filho de uma das maiores figuras da história do Fado (a minha mãe), era delicado para mim começar a cantar o Fado. Até que houve um dia em que uns amigos meus pediram-me para cantar um fado e eu cantei. Quando terminei houve um deles, que hoje é um juiz jubilado, que me disse: “Tu não imitas a tua mãe!”, assegurando que eu tinha um talento próprio. Comecei a pensar na razão daquilo. Eu tenho sempre a cabeça cheia de música, desde a boa música americana, como o Sinatra, à boa música italiana ou espanhola. Portanto, pouco a pouco e delicadamente fui tentando o meu caminho. Lembro aqui que os primeiros anos foram cantados debaixo da censura, portanto eu era limitado. Até que chega a liberdade e faço um disco. Ao ganharmos a liberdade, eu pude passar a expressar-me de uma forma aberta, dando às pessoas o lado triste e o lado alegre da vida, tal como Ary dos Santos e outros poetas escreveram.

O Carlos teve oportunidade de ver a sua mãe cantar. Há alguma coisa que ela lhe ensinou que nunca mais esqueceu?

A minha mãe pertencia a uma geração que era muito fechada. O Alfredo Marceneiro já contava tudo e eu aprendi muito com ele. Também lembro outro homem, o Britinho [Frederico de Brito], que foi o autor de “Canoas do Tejo”. Homens sábios, que compunham coisas lindíssimas e gostavam de ensinar os mais novos. Os outros todos e todas que eu conheci fazem-me lembrar aqueles cozinheiros que têm um segredo e não o passam. Contudo, a minha mãe, no fundo, aconselhava-me. Como? Bastava ouvi-la cantar!

Fotografia @Nuno Sampaio

De alguma forma, o Carlos tentou sempre trazer algo só seu ao Fado. Hoje, é tido como um nome de referência no Fado português. Recordando esses primórdios e olhando para onde está hoje, sente que tudo passou demasiado depressa?

Caramba… se passou! Às vezes, vejo pessoas com muita pressa, a chamada pressa inútil. Não é a pressa quando a gente tem um compromisso – e atenção que eu acho que a pontualidade é um sinónimo de respeito pelos outros -, mas aquela pressa, por exemplo, na condução… a gente vai com pressa e no fundo sabe que vai para casa! Essa pressa confunde-me, porque isto é muito rápido. Eu nunca pensei chegar aos 80 anos, sinceramente. A minha mãe morreu aos 70 e poucos, a Amália morreu aos 70 e poucos e outros artistas que eu conheço morreram aos 40 ou 50 anos. Portanto, esta longevidade foi qualquer coisa que me ultrapassou. Contudo, tive sempre presente uma coisa que quero guardar até ao fim da minha vida, que é a noção de que a glória é vã. Embora eu tenha sido sempre muito bem tratado pelas pessoas em toda a parte. Eu percorri o mundo inteiro a cantar, há poucos países onde eu não cantei, e fui sempre muito bem-recebido e bem tratado. Na minha terra, nem se fala! Por exemplo, eu tenho estes três concertos de despedida, Theatro Circo, Coliseu do Porto e Coliseu de Lisboa. Só para terem uma ideia, o Coliseu de Lisboa esgotou em 24 horas! Isto é uma prova de grande afeto! Eu não estou todo vaidoso, mas depois de uma vida, de um percurso, é uma resposta do público muito generosa… e eu sinto que tenho que, até ao fim, fazer tudo o que puder para lhes deixar uma imagem boa, porque a imagem deles para mim é de excelência. O que eu faço não lhes chega para pagar tanto…

Fotografia @Nuno Sampaio

Mais importante do que qualquer tipo de prémio é o aplauso do público, portanto?

O prémio é um complemento. Por exemplo, o grande prémio da minha vida é a minha família! Os outros são prémios que têm a ver com carreira e, no fundo, se pensarmos bem, tudo que havia para ganhar em prémios já me entregaram… São símbolos!

E a esse respeito conto-lhe rapidamente uma história, que é a seguinte: O Marcello Mastroianni, que era um grande ator italiano, uma pessoa interessantíssima, morreu com um cancro. O último filme que ele fez foi Viagem ao Princípio do Mundo, de Manoel de Oliveira. Na parte final da vida dele, a mulher estava a fazer-lhe um filme e, num determinado momento, perguntou-lhe: “Olha, tu gostas do que fazes?” É uma pergunta simples. E ele disse: “Gosto, gosto muito. Eu acho que é um privilégio, faço o que gosto, sou aplaudido e reconhecido e ainda me dão prémios por cima”. Eu isto nunca mais me esqueci, é uma lição de humildade de um homem que estava condenado a morrer. Há lições da vida que grandes artistas me deram e que eu não perdi de vista. Sinatra também me ensinou, sem ser pessoalmente: “O palco é a nossa sala de visitas e estamos a receber as pessoas”.

“Tive sempre presente uma coisa que quero guardar até ao fim da minha vida, que é a noção de que a glória é vã. Embora eu tenha sido sempre muito bem tratado pelas pessoas em toda a parte.”

Como é que se tem sentido nesta fase, em que realmente está em palco a receber os amigos que vêm para o ver, mas no fundo é uma despedida. De alguma forma isso entristece-o?

Não! Seria injusto não me despedir. O público não merecia isso, mas quero mencionar outra coisa: apesar da idade que tenho, eu tenho planos! Não me está a ver sentado de chinelos a ver televisão, pois não?! Não! Eu tenho planos, ideias de coisas para fazer. Eu apenas deixo de fazer concertos, de mais de uma hora, porque os meus próprios “veterinários” [a família] não me deixam… Dizem: “Calma aí, não esgotes o teu coração, senão um dia cais para o lado no palco”. Mas gravar um single, ter uma participação com alguém, por exemplo, está tudo bem. Ainda tenho um disco para gravar, que estou quase a acabar. Mas concertos de hora e meia, isso é o que eu encerro com esses três. Pergunta-me se há tristeza nisso… não há… porque eu sou da opinião de que tudo tem um tempo. É bom a gente ir-se embora antes que as pessoas nos mandem ir embora. Tenho essa sensação. E como até hoje não tive provas em contrário, então prefiro despedir-me, amando as pessoas e as pessoas querendo-me bem.

Fotografia @Nuno Sampaio

Da última vez que conversamos, eu perguntei se o Carlos tinha a noção que, quando a sua voz se calasse, grande parte do Fado se calaria consigo. O Carlos disse-me: “Não, não tenho essa presunção. O cemitério está cheio de insubstituíveis!”. Continua a pensar assim?

Rigorosamente! Não se esqueça que temos uma nova geração a cantar o Fado, fora o que vai surgir, todos os dias. Pelo menos em Lisboa, que não sei nos outros sítios do país, surgem novos fadistas todos os dias, parecem cogumelos! Mas há um problema de adaptação, porque os tempos são outros… acho sobretudo, pela minha experiência, que é preciso ser cuidadoso com algum repertório. Por exemplo, uma jovem de 20 anos não pode estar a cantar a amargura como se tivesse 50. Na minha opinião, é preciso as pessoas encararem isto como uma canção que se canta, uma tradição popular, uma tradição oral, mas que tem um leque vasto. Ela é uma canção da vida! E nós, com muito trabalho, conseguimos que ela fosse Património da Humanidade. Esses sete anos de trabalho trouxeram maior responsabilidade para a nova geração.

Fotografia @Nuno Sampaio

“Pergunta-me se há tristeza nisso… não há… porque eu sou da opinião de que tudo tem um tempo. É bom a gente ir-se embora antes que as pessoas nos mandem ir embora.”

Num momento de despedida, como gostaria o Carlos de ser recordado? Como gostaria que, depois do adeus definitivo, as pessoas se lembrassem de si?

Eu quando estou a cantar estou a olhar para a sala e o meu pensamento é este: “Cada pessoa é uma cabeça. O que é que vai naquela cabeça? Eu não sei!”. Cada um guardará aquilo que quiser como imagem. Atualmente fala-se muito em sondagens e a única sondagem que eu tenho é a rua. E as pessoas na rua, sejam novas, sejam velhas tratam-me bem. Não só enquanto artista, mas enquanto pessoa. Tratam-me bem! Aliás, eu devo ter cara de padre porque às vezes gostam de desabafar comigo sobre as suas vidas (risos). Deixando de cantar, ficam os discos e a gente desaparece… devagar, mas desaparece. Às vezes, dura-se um bocadinho mais, depende do estatuto onde se chega. No teatro, por exemplo, é tristonho, porque assistimos a vidas inteiras de teatro e, quando a pessoa deixa de representar, não se fala mais dela. Isso entristece-me muito. O teatro é o meu herói! Na música, tenho-me apercebido que não é muito diferente. Há artistas que são fantásticos em palco, que enchem o Olympia em Paris durante todos os dias num mês e que morrem e eu já não oiço falar deles. Isto é muito volátil! Não sabemos o que virá…

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