Revista Rua

2019-05-17T17:48:27+00:00 Cultura, Música, Personalidades

Carminho chega aos coliseus com Maria, o disco mais íntimo da sua carreira

[COM ENTREVISTA] Carminho atua no Coliseu do Porto, a 24 de maio, e no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, a 25 de maio. Os bilhetes estão à venda nos locais habituais.
Carminho ©Mariana Maltoni
Maria Inês Neto
Maria Inês Neto17 Maio, 2019
Carminho chega aos coliseus com Maria, o disco mais íntimo da sua carreira
[COM ENTREVISTA] Carminho atua no Coliseu do Porto, a 24 de maio, e no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, a 25 de maio. Os bilhetes estão à venda nos locais habituais.

A fadista que se estreou no palco do Coliseu dos Recreios, prepara-se para voltar onde tudo começou com a grande estreia do recente álbum Maria. É o disco mais pessoal e intimista da carreira de Carminho, sendo todo ele viagem até ao primórdio das suas memórias e vivências, celebrando-as da forma como o Fado lhe ensinou.

Estreou-se a cantar em público aos 12 anos, no palco do Coliseu dos Recreios. Agora retorna onde tudo começou. Qual é a sensação?

É uma sensação muito boa, é voltar a um palco que tem sido um lugar que marcou o meu percurso, em várias fases da minha vida. É uma sala onde também ouço muitas pessoas. Claro que ter sido o primeiro sítio onde cantei ao vivo para um público, logo no Coliseu dos Recreios, é marcante e até um momento curioso da minha vida, porque não tinha consciência do que estava a fazer no momento e da importância que isso poderia ter. Era uma criança e foi algo muito bonito e inusitado, do qual não estava à espera, mas só mais tarde é que percebi que aquele momento tinha sido marcante, porque já naquela altura eu me sentia bem em palco a cantar para as pessoas e isso foi, também, decisivo na minha ponderação de escolher o Fado. É um momento que recordo com saudade. Entretanto voltei ao Coliseu mais vezes e sempre tive esta sensação de regresso e de voltar a devolver às pessoas que me acompanham desde o primeiro dia, porque sempre me acompanharam e estão comigo em cada passo que vou dando ao longo da vida.

“O objetivo, sobretudo, é deixar que as pessoas sintam o ambiente das suas próprias vidas. As canções servem para trazer as suas histórias à tona e não estarem apenas a ouvir-me cantar.”

Como é que está a ser a preparação para atuar nos coliseus? O desafio é maior?

O desafio é igualmente grande, porque o disco saiu há pouco tempo e o desafio de pôr um disco ao vivo é, já de si, o desafio. Eu não encaro os coliseus como algo em que tenha de mudar completamente, até porque é uma sala que tem condições muito boas para fazermos algo especial. É, basicamente, para apresentar o disco Maria e claramente algumas canções importantes dos antigos discos, que fazem sentido e rimam com o alinhamento desde último. O objetivo, sobretudo, é deixar que as pessoas sintam o ambiente das suas próprias vidas. As canções servem para trazer as suas histórias à tona e não estarem apenas a ouvir-me cantar, mas poderem viajar nestas canções e neste Fado. Este Maria é um reflexo disso. É uma mulher, que sou eu, porque é o meu primeiro nome, mas são também várias pessoas, porque é talvez o nome mais dado em Portugal em muitos países do mundo.

Como tem sido a receção a este álbum?

Eu acho que tem sido ótima. Tem sido um privilégio tocar ao vivo estas canções e sentir a emoção do público, porque é um concerto muito diferente de todos os que já fiz. Tem uma atenção muito grande para o ambiente e para o lugar onde estamos. É muito mais controlado em termos de luz e remete para um ambiente de Lisboa à noite, mas mais tradicional, que pode ser também mais surrealista, onde as coisas se viram um bocadinho ao contrário. Acho que tem sido muito bem recebido e estou muito contente.

Capa do álbum Maria

Maria começa com um tema totalmente a capella, A Tecedeira, uma música despida de qualquer guitarra portuguesa ou viola do Fado. Qual é a intenção deste tema?

Este disco é uma peça inteira que começa ali e que acaba no fim, n’As Rosas. É uma peça que conta aquilo que eu acredito ser o que o Fado me ensinou e o que o Fado é para mim. Nessa procura, e na produção deste disco, eu comecei por responder a esta pergunta, pensando, primeiro, em subtrair os elementos que têm sido adicionados ao Fado ultimamente e que o têm feito evoluir bastante. De alguma maneira, eu queria procurar essa essência, numa regressão até a um lugar mais primórdio das minhas memórias, onde eu me lembro de ouvir a minha mãe cantar, quando era muito pequena, por volta dos dois ou três anos, porque eu comecei a cantar ao mesmo tempo que comecei a falar. É algo que eu não racionalizo muito, mas tentei trazer essas memórias não racionais para os dias de hoje e pensar: o que é que eu preciso de sentir no Fado, para que ele seja realmente especial para mim? Essa subtração foi tal que comecei também a subtrair os próprios elementos tradicionais do Fado, numa certeza de que até numa voz pode existir Fado, se essa voz cantar a linguagem, cantar com verdade. Há um princípio básico para mim de que o Fado é uma emoção, mais do que um formalismo, e essa emoção que se transmite é a própria forma do Fado, que pode depois ser feito com uma voz, com instrumentos, com uma guitarra ou uma orquestra.

Era, portanto, algo que procurava fazer há algum tempo?

Eu já tenho cantado ao vivo em a capella. Foi uma forma de sentir que aquilo me levou até ali. Não foi um princípio, foi um fim… e a consequência foi esta.

Vai poder conhecer melhor este novo álbum de Carminho na próxima edição impressa da Revista RUA.

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