Revista Rua

2019-12-30T11:37:27+00:00 Cultura, Música, Personalidades

Carminho, o Fado contemporâneo que nos orienta sobre o futuro

A fadista falou-nos acerca daquilo que o Fado é para si, do quanto a solta e a mantém viva.
Fotografia ©Inês Gonçalves
Maria Inês Neto
Maria Inês Neto21 Outubro, 2019
Carminho, o Fado contemporâneo que nos orienta sobre o futuro
A fadista falou-nos acerca daquilo que o Fado é para si, do quanto a solta e a mantém viva.

A fadista falou-nos acerca daquilo que o Fado é para si, do quanto a solta e a mantém viva. Neste quinto álbum quis ser apenas Maria, num disco íntimo e despido de uma busca pela perfeição, onde procurou subtrair elementos adicionados ao Fado, para que este exista de verdade. De Fado a Maria vai uma bonita viagem até ao mais âmago do seu ser, num Fado que não a prende, pelo contrário, a liberta. Ah fadista! E que fadista.

Podemos regressar ao início da sua viagem pela música? Qual foi o primeiro Fado que ouviu?

Não sei qual foi o primeiro Fado que ouvi, mas lembro-me do primeiro Fado que cantei aos meus pais. Tinha seis anos e era sobre uma história um bocado trágica, da qual eu não estava a perceber nada do que cantava, provavelmente. Era a “Marcha de Manuel Maria”, com a letra “Mataram a Mouraria”, um Fado que falava sobre o facto de a evolução dos tempos levar a que se percam algumas coisas e as pessoas mais saudosistas ficam com pena, acham que estão a matar a tradição, porque se está a evoluir. E esse foi um dos primeiros Fados que cantei.

Viajou pelo mundo e quando regressou às suas origens entregou-se por completo ao seu percurso na música. O que esta descoberta trouxe à sua vida?

Eu acho que qualquer viagem nos alimenta. Viajar é crescer, aprender, abrir os horizontes. Mas também depende da forma como se viaja. Pode-se viajar sem sair do lugar, porque se é uma pessoa muito interessada, estimulada e que consegue somar o seu universo apenas num livro ou numa peça de teatro. Ou, então, viajar pelo mundo inteiro e estar de olhos fechados: não sair do seu lugar, do hotel, da sala onde atua… não viver a cultura que se poderia viver! Esta viagem foi muito importante para mim, porque foi uma necessidade de ir, sem muitas seguranças. Fui sem telemóvel, sem saber muito bem onde iria dormir. Foi uma experiência de conhecimento pessoal muito grande acerca daquilo que eu consigo e, também, importante no conhecimento de outra cultura, de estar atento ao outro e perceber as diferenças que essas pessoas têm. Entender a riqueza da cultura que não se repete, porque todos os seres humanos sentem as mesmas coisas, mas vivem-nas de maneira muito diferente. Há que respeitar e saber adquirir essa cultura de uma forma única. Estas lições continuam a ser somadas por mim, ainda hoje, porque são até bastante difíceis de aplicar na vida real. Uma coisa é a viagem, outra coisa é conseguir aplicar tudo isso no dia a dia e é dessa forma que eu me vou alimentando também nas minhas interpretações.

Fotografia ©Inês Gonçalves

“O Fado é uma expressão cultural do tempo de hoje e do tempo que foi a nossa história, que não se apaga, muito pelo contrário, que nos dá as pistas para entender o futuro”

Diz que o Fado é arte contemporânea e não memória. É futuro e não apenas passado. Considera que tem existido alguma renovação no Fado? A seu ver, qual é a missão atual do Fado?

Eu sinto que o Fado é uma linguagem, que tem uma tradição e uma história de quase 200 anos. Então, para poder aplicar essa linguagem hoje, há que entendê-la na sua essência passada. Ser contemporâneo é utilizar o instrumento do Fado, essa linguagem que tem uma característica própria e os seus valores e matrizes. É precisamente aplicar essas matrizes num pensamento de hoje e naquilo que se quer expressar. Nessa medida, eu acho que o Fado é contemporâneo, porque continua a querer ser ouvido. Agora, as mudanças do Fado não me competem a mim, não o pretendo mudar, porque acho que o Fado é maior do que os fadistas e do que cada um pretende e quer fazer. No final, tudo isso junto vai resultar naquilo que o Fado será daqui a uns anos. Só o tempo o dirá.

Ter uma mãe que é fadista influenciou este caminho pelo Fado?

Claro que sim. É a cultura que eu tinha em casa e foi a forma como aprendi a expressar-me. Se calhar, se tivesse nascido numa família de rockeiros, provavelmente expressar-me-ia através do rock.  

O que é que o Fado nos dá e, especialmente, o que é que lhe dá a si?

O Fado é uma expressão cultural do tempo de hoje e do tempo que foi a nossa história, que não se apaga, muito pelo contrário, que nos dá as pistas para entender o futuro. É uma expressão social que nos vai dando a uns uma memória, a outros uma certeza do futuro. É uma expressão que existe para os dias de hoje e para corresponder às problemáticas das pessoas de hoje. O Fado pode ser, para uns, uma tradição portuguesa e, para mim, pode ser a minha sobrevivência.

Fotografia ©Mariana Maltoni

O Fado carrega muita história e memória. As suas vivências servem de inspiração para escrever músicas?

Claro. Eu acho que a maior inspiração para mim são os outros artistas, assim como as histórias das pessoas que eu vou conhecendo no dia a dia, porque são coisas que inspiram a pensar na nossa própria história e dão pujança à vontade de querer continuar a expressar-me.

Como é que olha para o Fado atualmente? Qual é a sua visão?

Eu acho que o Fado precisa de andar. É como a vida das pessoas. Nós vamos andando e, às vezes, temos grandes alegrias e, outras vezes, passamos por maiores dificuldades. Mas não podemos parar! E o Fado é assim, tem vários ciclos, tal como as pessoas. Este é um momento em que o Fado recebe maior atenção das pessoas e isso faz com que muita gente de fora dessa linguagem esteja mais atenta a ele e queira praticá-lo.

Começa com o disco Fado, segue-se Alma, Canto e agora Maria. Estamos perante uma viagem até ao seu íntimo?

(risos) Talvez. Eu acho que cada álbum tem sido sempre o melhor que eu fui em cada momento e aquilo que eu sinto, olhando para trás, é que existe alguma coerência. Eu não consigo programar uma coerência para o futuro, só posso é admirar com felicidade se existir alguma coerência na história que eu fui construindo, na minha vida e no Fado. Portanto, eu fico feliz que haja uma ligação quando olho para trás, porque todos os álbuns se unem e são, realmente, a minha evolução. Uma evolução para dentro, porque quanto mais convivemos connosco, mais nos conhecemos e mais capacidades temos de falar sobre nós. É dessa forma que eu vejo que é mais íntimo, porque conheço-me melhor hoje do que há dez anos. Sei mais sobre mim, sei que quero falar sobre o Fado e sei que não posso falar de Fado de uma forma qualquer, porque aprendi muito durante estes anos. Se quero fazer um disco de Fado, tenho de fazê-lo com consciência e responsabilidade e pensar onde me quero posicionar neste género musical. É uma forma mais minimalista, olhando para o que o Fado me traz em termos emocionais e aquilo que eu acho que é preciso haver numa noite de Fado, para que exista Fado de verdade, mais do que um formalismo ou a tendência atual de somar elementos ao Fado.

Fotografia ©Mariana Maltoni

Maria é o álbum mais íntimo e pessoal da sua carreira? O que é que tentou explorar neste disco?

Este disco é um pensamento sobre o Fado e o que o Fado é para mim. Tem mais a ver com o momento, com a verdade, com o assumir o erro. Daí eu ter feito as gravações em estúdio e ter havido uma despreocupação com a perfeição, que é contrária ao correr do próprio Fado, porque é um momento único, também tem os seus erros e há que assumi-los. Essas fragilidades fazem parte da beleza do Fado. Não somos máquinas, portanto não podemos fazer do momento uma peça perfeita, porque ela não existe. Para mim, o Fado tem de ter vários valores para que seja Fado.

Qual é o tema no disco que considera mais especial? “Estrela” é quiçá um exemplo?

Não considero nenhum tema mais especial, porque todos eles fazem parte de uma peça e cada um tem um lugar importante. Se calhar mais pessoas gostaram de ouvir “Estrela” ou “O Menino e a Cidade” e eu fico feliz. A “Estrela” tem um lugar importante, talvez pelo facto de eu ter escrito e composto este tema.

Como tem sido a reação a este álbum?

Eu acho que tem sido ótima. Tem sido um privilégio tocar ao vivo estas canções e sentir a emoção do público, porque é um concerto muito diferente de todos os que já fiz. Tem uma atenção muito grande para o ambiente e para o lugar onde estamos. É muito mais controlado em termos de luz e remete para um ambiente de Lisboa à noite, mas mais tradicional, que pode ser também mais surrealista, onde as coisas se viram um bocadinho ao contrário. Acho que tem sido muito bem-recebido e estou muito contente.

“Eu sei que o Fado vai estar sempre na minha vida. É a minha linguagem mãe! Eu aprendi a falar português ao mesmo tempo que aprendi a cantar”

O que é que acha que o Fado lhe reserva? Considera que daqui a dez anos podemos voltar a falar consigo e teremos um Fado diferente?

(risos) Eu não consigo prever o futuro. Eu sei que o Fado vai estar sempre na minha vida. É a minha linguagem mãe! Eu aprendi a falar português ao mesmo tempo que aprendi a cantar. Portanto, eu não acredito que uma pessoa se desfaça da sua mãe para ir viver uma maternidade com outra pessoa qualquer. Apesar de poder estar longe, a viajar e a cantar pelo mundo inteiro, a minha mãe vai estar sempre aqui para me receber e isso é uma segurança. O Fado é isso para mim, uma segurança, uma linguagem maternal, independentemente do que queira vir a fazer, porque o Fado não me prende, liberta-me. É um mecanismo, um instrumento para eu me poder expressar onde e como quiser. Por isso, sim, acho que daqui a dez vamos poder estar aqui novamente a falar sobre o Fado (risos).

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