Revista Rua

2020-06-14T20:55:13+00:00 Opinião

Carne do cão de deus

Crónica
Márcio Luís Lima
Márcio Luís Lima
14 Junho, 2020
Carne do cão de deus

“O que atrai o escritor, o que agita o artista não é diretamente a obra, é a sua busca, o movimento que a ela conduz, é a aproximação daquilo que torna possível a obra: a arte, a literatura e o que estas palavras dissimulam.” (Maurice Blanchot in “O Livro por Vir”, Relógio D’Água, Outubro 2018)

Antonin Artaud, segundo nos conta Maurice Blanchot na obra supracitada, aos vinte e sete anos enviou alguns poemas para uma revista e o seu diretor recusou-os. No entanto, Artaud prossegue na insistência de que tem uma ligação com os poemas e não os pode simplesmente desprezar. A partir daí segue-se uma troca de cartas com o diretor, Jacques Rivière, sendo que após o sucedido este propõe a Artaud que os poemas sejam publicados a par das cartas.

O que importa aqui salientar, e explica-o Blanchot, é a “experiência da obra”, isto é, “o movimento a que ela conduz”. Ora, vinte anos mais tarde, numa carta que Artaud escreve, afirma que se iniciou na literatura para dizer que “não podia escrever absolutamente nada” – quando de facto escrevia alguma coisa era para dizer que não tinha dito nada, que ao fazer alguma coisa, nada se tinha feito.

“Só a obra importa, a afirmação que existe na obra, o poema na sua singularidade cerrada, o quadro no seu espaço próprio. Só a obra importa, mas afinal a obra só está ali para levar à busca da obra: a obra é o movimento que nos encaminha para o ponto puro da inspiração, de onde vem e que aparentemente só pode atingir desaparecendo.” (O Livro por Vir)

Há alguns casos de escritores que escreveram para deixar um vácuo e um espaço vazio na sua obra, que de algum modo ocupa mais espaço na sua eterna solitude vazia que todo o preenchimento barato de umas quantas prateleiras de best-sellers.

A nova tecnologia abalou o mundo literário de uma maneira avassaladora. As imensas plataformas que podem dar voz ao novo Rimbaud são as mesmas que podem vociferar o louco da aldeia ou o psicopata urbano, mascarado de opiniões banais. Tornou-se “fácil” escrever porque se aboliu o sentido de autocrítica. Os likes e shares são a nova crítica e facilmente se resolve esse problema com uma listagem de cinco mil amigos no Facebook e uns quantos milhares no Instagram.

©D.R.

Na nova “política” virtual, um bom escritor é um escritor famoso. E as barreiras ou paredes da literatura desabam sob a forma de uma crise literária – onde estão os escritores? Podem também estar nas redes sociais, ainda assim abafados pela manifestação de amizade, isto é, pelas dezenas de amigos que partilham os pequenos textos e não se dignam a ler as duas primeiras frases.

Desta vez o “nada” que se escreve é tão saturado de significado que nos é forçado pelos olhos adentro como uma obrigação. Esbatem a metáfora dos cigarros, do mítico fumador de coração partido à beira-mar a pensar na amada que lhe destroçou o amor, ou no playboy que nunca superou a amada e tem pouca estima por si próprio, então entrega-se a “lençóis alheios”, o alcoólico que “bebe para esquecer” … enfim, toda uma panóplia de repetições vazias que estimulam a enfardar com o máximo de significados possíveis. O que os “novos escritores” esquecem é que a realidade fenomenológica é pessoal, os meus olhos não se encontram na tua vista.

“Mas, precisamente, a essência da literatura é escapar a toda a determinação essencial, a toda a afirmação que a estabilize ou a realize: nunca já lá está, está sempre por encontrar ou reinventar. Nem sequer é certo que a palavra literatura ou a palavra arte alguma vez corresponda a algo de real, a algo de possível ou a algo de importante. Já foi dito: ser artista é nunca saber que já há uma arte, ou que já há um mundo.” (O Livro por Vir)

Há uma constante preguiça: os “novos escritores”, em Portugal, têm um constante círculo de influências, que passa desde Fernando Pessoa, até Charles Bukowski e por fim os poetas que páginas de poesia impingem.

Este círculo limita a criatividade e as metáforas refletem isso mesmo – todos tratam do mesmo tema, a melancolia do amor, do coração partido, do mítico fumador a chorar pelos cantos do café, dos imensos companheiros sexuais e das suas prosas de libertinagem extrema (que no fundo resguarda-se num conservadorismo leve porque não conhecem Sade, Luiz Pacheco, Georges Bataille, Pier Paolo Pasolini, Leopold von Sacher-Masoch, etc., e o melhor exemplo que têm de erotismo é a descrição crua de Bukowski).

Tentam demarcar-se de Pedro Chagas Freitas, Raul Minh’Alma ou Afonso Noite-Luar porque os consideram defeituosos, não querem “ser como eles”, mas caem nos mesmo erros repetindo as mesmas ideias pérfidas literárias – esquecem a literatura e começam a ficção.

Acabam por ter de pagar para editar e lançar livros, as frases catchy em fundos brancos para chamar a atenção, a constante divulgação da própria foto para reconhecerem a cara… importa mais o escritor que a escrita – o eco do nome, da pessoa. Não se acrescenta uma ideia nova, os textos rondam as trezentas palavras e todos têm o amor como força centrifuga.

Infelizmente, a “crónica literária” foi esquecida e substituída pela opinião política em praticamente toda a imprensa. Poucos são os locais onde ainda surge uma liberdade de literacia sem que haja um limite. Assim sendo, em Portugal cada vez se vai perdendo mais terreno para a “fama”, a “quantidade”, para o que as redes sociais ditem.

Por fim, o poema de Bukowski “so, you want to be a writer” não é um curso de literatura ou escrita criativa – mais importante que viver a matéria de inspiração é ler. Só da leitura pode crescer uma criatividade e um modo de dizer as “coisas” de maneira diferente. Talvez a partir daí se descubram novos mitos para além dos clichés.

“(…) a obra literária – não é acabada nem inacabada: ela é. O que ela nos diz é exclusivamente isso: que é – e nada mais. (…) O escritor escreve um livro mas o livro ainda não é a obra, a obra só é obra quando através dela se pronuncia, na violência de um começo que lhe é próprio, a palavra ser, evento que se concretiza quando a obra é intimidade de alguém que a escreve e de alguém que a lê. (…) o escritor jamais lê a sua obra. Esta é, para ele, o ilegível, um segredo, em face do qual não permanece. Um segredo, porque está separado dele.” (Maurice Blanchot in “O Espaço Literário”, ed. Rocco, 1987)

Sobre o autor

Licenciado em Filosofia (atual mestrando). Escritor, no sentido lato da palavra. Um apaixonado por boa literatura. Presente através do ig (@marcioluislima) e de becodapedrazul.wordpress.com. Toda a escrita tem por base o detalhe certo, daí sucede-se a vida.

Partilhar Artigo: