Revista Rua

2019-08-22T16:05:26+01:00 Descobrir, Viagens

Casa da Lavand’eira, a essência do Douro respira-se aqui

É na tranquilidade da freguesia de Ancede, no concelho de Baião, no coração da deslumbrante paisagem do Douro, que encontramos a Casa da Lavand’eira, uma quinta com alojamento local e produção de vinho.
Fotografia ©Nuno Sampaio
Andreia Filipa Ferreira22 Agosto, 2019
Casa da Lavand’eira, a essência do Douro respira-se aqui
É na tranquilidade da freguesia de Ancede, no concelho de Baião, no coração da deslumbrante paisagem do Douro, que encontramos a Casa da Lavand’eira, uma quinta com alojamento local e produção de vinho.

Podíamos muito bem começar esta reportagem com uma referência às linhas escritas por Eça de Queiroz no seu romance A Cidade e as Serras, criando uma analogia entre a agitada cidade do Porto e a pacata freguesia de Ancede, em Baião – os nossos respetivos pontos de partida e chegada desta viagem. Esta hora de viagem que separa o Porto de Ancede dá-nos a descobrir as maravilhas do nosso país, um recanto que oscila alegremente entre a azáfama de uma cidade grande e o passo lento de uma localidade escondida na serra. Com o esplendor do Douro como companhia de estrada, num trajeto de fácil acesso, encontramos em Ancede um registo de emoções, memórias de gerações e vinho – claro, estamos no Douro!

As vozes da rádio antecipavam nuvens a cobrir a paisagem, mas a sorte pintou-nos um cenário diferente naquela manhã de descoberta. A Casa da Lavand’eira é um refúgio tranquilo, acolhedor, numa propriedade extensa que conta histórias de partilha, desde 1871. Alexandra Leite, esposa do proprietário Carlos Gomes, foi a nossa anfitriã, mostrando-nos, em todo o pormenor, o charme rural – com detalhes contemporâneos – da quinta que, para além de se destacar como um ponto de alojamento local em constante desenvolvimento, é um atrativo para a realização de eventos. Aliás, Alexandra refere até que os casamentos, principalmente organizados por casais estrangeiros, são um destaque de inesperado sucesso na Casa da Lavand’eira!

Mas vamos à descrição propriamente dita: a Casa da Lavand’eira é uma propriedade adquirida por Carlos Gomes e a sua esposa Alexandra há cerca de dez anos e que tem vindo a sofrer melhorias desde então. Tudo para fazer com que os hóspedes se sintam realmente em casa e que beneficiem do ambiente único de uma das regiões mais bonitas do nosso país. “É um projeto em constante desenvolvimento”, diz Alexandra. “Temos hóspedes recorrentes, tanto portugueses como estrangeiros, que efetivamente apreciam a nossa capacidade de melhoria e desenvolvimento, renovação”, assegura. Esse desenvolvimento está a olhos vistos, literalmente: para além da Casa Senhorial, com oito quartos disponíveis, a Casa da Lavand’eira tem recuperado antigas casas e moinhos degradados nas imediações, garantindo mais oferta num contexto rústico (visível no granito exterior das casas) e, ao mesmo tempo, contemporâneo (visível na decoração interior). Na verdade, os proprietários foram, ao longo dos tempos, adquirindo terrenos adjacentes à Casa Senhorial, permitindo a crescente atração turística com oferta diversa – inclusive nos antigos moinhos junto ao rio Ovil, acessível num percurso pedestre tranquilo e agradável. Também este alargamento fez com que as vinhas proliferassem, tornando a Casa da Lavand’eira num ícone de enoturismo. “O meu marido nasceu em Baião e, por isso, esta região sempre fez parte da vida dele. A procura por esta quinta surgiu para concretizar um sonho antigo dele: produzir vinho. Tentamos então criar um projeto familiar que tivesse terreno para desenvolver a produção vinícola. É assim que surge a Casa da Lavand’eira, como uma perspetiva de realizar um sonho”, conta-nos Alexandra. “Quando chegamos aqui, a quinta não tinha nada a ver com o que temos hoje. Era mais sombria e estava maltratada, uma vez que os antigos donos já tinham uma certa idade e não conseguiam tratar devidamente do espaço. Entretanto, fomos adquirindo terrenos adjacentes e temos vindo, constantemente, a dar inputs às valências da nossa oferta”, acrescenta.

Os vinhos Casa da Lavand’eira

Com mais de 14 hectares integrados numa paisagem marcada pela biodiversidade, a Casa da Lavand’eira tem a produção vinícola como um dos destaques da sua oferta multidisciplinar. Recentemente, a marca apresentou o Lavandeira Avesso Escolha 2018, um monocasta de aroma elegante, com boa intensidade, no qual se destacam as ervas aromáticas (tomilho limão), frutos citrinos, frutos de polpa branca (pêssego) e ligeiras notas florais. De paladar seco, com uma acidez fina e equilibrada, este vinho é fresco e tem um bom aroma de boca. Desenvolvido pelo enólogo Rui Cunha, é um vinho que resulta de vindima manual, com ligeiro esmagamento dos bagos, seguido de suave prensagem e fermentação com temperatura controlada em cuba de inox, seguida de estágio sobre borras finas, com ligeira filtração antes do engarrafamento. “Entre o abrir duma garrafa do vinho Lavandeira e o terminar do primeiro copo, viajamos de 1871 ao presente – pelas colinas desta quinta, numa travessia de sabores, aromas e lugares”, afirma o enólogo.

Numa tentativa de aumentar a sua qualidade e tornar-se numa referência nacional a nível de enoturismo, a Casa da Lavand’eira está já a projetar uma nova adega, com capacidade para receber as uvas que ali crescem e os visitantes para provas. A abertura desta adega é apontada para setembro. Carlos Gomes assegura: “Sendo desde sempre um admirador da casta Avesso, o objetivo é melhorar cada vez mais o vinho da Casa Lavand’eira, tornando-o uma referência nacional”.

As casas embutidas na natureza

Para além das casas já reconstruídas ao longo do percurso até junto ao curso do rio Ovil, a Casa da Lavand’eira está também a construir novos alojamentos, bem no topo da propriedade, permitindo vistas panorâmicas sobre a vinha ou sobre o curso de água. O projeto inclui nove casas, em fase de construção, pensadas para alojamento de casal, embora algumas delas estão estrategicamente posicionadas frente a frente para permitir alojamento de famílias ou casais conhecidos, apesar de continuarem a ser casas autónomas. Num trabalho de arquitetura do atelier de Fernando Coelho, estas novas casas estarão prontas a utilizar no final do primeiro semestre de 2020 – fingers crossed! Com detalhes em madeira para se fundirem com a paisagem, estas casas serão um ex-libris na Casa da Lavand’eira. Também a vegetação já está a ser plantada para criar o ambiente ideal, em comunhão com a natureza.

O charme da Casa Senhorial

Com data de 1871, a casa senhorial é um dos principais destaques da Casa da Lavand’eira. Atribuindo uma aura tradicional ao espaço, quase como uma casa-museu no coração da quinta, esta casa senhorial tem oito quartos disponíveis, com uma decoração antiga – são muitos os elementos que se encontram pela casa, como utensílios de cozinha, acessórios típicos de alfaias agrícolas, máquinas de costura Singer, rádios e gira-discos… é uma viagem ao século passado, com muita harmonia e saudosismo!

Com uma varanda com vista para o jardim, perfeita para os momentos de pequeno-almoço, por exemplo, e com a piscina bem perto, esta casa senhorial guarda ainda um segredo: a capela, mandada construir em 1927. Com acesso via um dos quartos, já que esta capela tem, como era típico antigamente, uma pequena varanda que permitia assistir às cerimónias, este espaço é abençoado por um deslumbrante vitral com a imagem de Cristo, num óculo reconstruído pelos atuais proprietários. Este é, com certeza, um ex-libris da casa e, por isso, não deve despedir-se da Casa da Lavand’eira sem fazer uma breve visita. Ah, e por falar em despedidas, não deixe também de pedir para dar uma espreitadela ao museu de motas de automóveis clássicos antes de ir embora. É uma coleção do proprietário Carlos Gomes que encontrou guarida na quinta e faz as delícias dos apaixonados pela História automóvel. Há modelos icónicos da Porsche, da Jaguar, da Mercedes, da Volvo… O melhor é ver por si!

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