Revista Rua

2020-09-18T14:58:49+00:00 Cultura, Teatro

Catarina e a beleza de matar fascistas: uma estreia absoluta com lotação esgotada em Guimarães

Catarina e a beleza de matar fascistas ©Nuno Sampaio
Maria Inês Neto
Maria Inês Neto18 Setembro, 2020
Catarina e a beleza de matar fascistas: uma estreia absoluta com lotação esgotada em Guimarães

Catarina e a beleza de matar fascistas, a nova criação artística de Tiago Rodrigues – recentemente distinguido com o Prémio Pessoa 2019 – apresenta-se em estreia absoluta, com lotação esgotada, a 19 de setembro, no Grande Auditório do Centro Cultural Vila Flor (CCVF). Respondendo à vontade do público, A Oficina terá uma nova sessão no dia seguinte, a 20 de setembro, às 17h00.

Numa coprodução do Teatro Nacional D. Maria II com A Oficina, entre outras entidades, esta peça traz-nos a história de uma família portuguesa que se reúne anualmente a sul do país com o propósito de cumprir uma tradição há muito respeitada: matar um fascista. Num dia que se avizinhava de festa, beleza e – como é imposto – de morte, chega a vez de Catarina, uma das jovens mulheres da família, matar pela primeira vez. Mas será ela capaz de o fazer? O conflito instala-se quando aparece o fantasma de uma outra Catarina – uma ceifeira de apelido Eufémia, assassinada em 1954, durante a ditadura fascista – que levanta muitas questões sobre justiça e liberdade. Poderá a violência contribuir para um mundo melhor? Será imperativo violar as regras da democracia para conseguir melhor defender? “Esta peça é feita de questionamentos que se relacionam com o futuro e com o presente – e em certa medida com o passado – mas que não deixam de pensar numa possibilidade de futuro baseado numa leitura do presente que vivemos, não apenas político, mas também social e económico”, começa por explicar-nos o encenador, Tiago Rodrigues, continuando: “Com uma abordagem muito clara, há ameaça da ascensão de populismos de estrema direita, de tendência fascista e, portanto, há necessidade de questionarmos como é que a democracia se pode relacionar com essa ameaça antidemocrática”.

Num momento em que o mundo e a possível estrutura de valores alteram a grande velocidade, o teatro assume um papel preponderante de nos transportar para um tempo futuro que melhor nos explica o presente. Foi sob esta perspetiva alegórica que Tiago Rodrigues tomou uma nova premissa perante esta criação artística, uma vez que a pandemia e a crescente impotência das democracias face aos populismos vieram agravar as questões nela em causa. Uma peça arrebatadora, intensa e em tantos momentos retórica, que promove um debate ou – no mínimo – uma introspeção, contando-nos uma história preponderante.

Tiago Rodrigues ©Nuno Sampaio

Encenador, dramaturgo e ator há quase duas décadas, Tiago Rodrigues é atualmente diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II e, ainda, cofundador da companhia de teatro Mundo Perfeito, tendo sido distinguido com o Prémio Pessoa, em 2019, e o XV Prémio Europa Realidades Teatrais, em 2018, no mesmo ano em que recebeu o título de Chevalier de l’Ordre des Arts et des Lettres, pela República Francesa. Numa altura considerada frágil para a cultura e para o setor das artes, em geral, quando questionado, pela Revista RUA, acerca das medidas necessárias a adotar para que seja possível continuar a criar, produzir e consumir bens culturais, Tiago Rodrigues é muito direto na resposta: “Nós não precisávamos da pandemia nem da solidariedade do público para ser óbvio que, em Portugal, é preciso apoiar mais a cultura. Os números em Portugal comparados com qualquer outro país europeu são da ordem do ridículo. E nem se trata de apoiar, trata-se de garantir serviço público que está consagrado na Constituição e no qual não há investimento público”, terminando: “A pandemia veio levantar o véu e relevar alguns problemas A forma como o público está a regressar aos teatros e, mesmo em confinamento, ter demonstrado avidez por estar nas salas em contacto com os artistas, é um alerta de que considera a cultura fundamental para sua qualidade de vida.”

Com texto e encenação de Tiago Rodrigues, Catarina e a beleza de matar fascistas traz-nos um corpo de oito atores portugueses: Sara Barros Leitão, António Fonseca, Beatriz Maia, Isabel Abreu, Marco Mendonça, Pedro Gil, Romeu Costa, Rui M. Silva. A estreia acontece em Guimarães, a 19 e 20 de setembro, sendo que a peça passará por vários palcos internacionais, nomeadamente na Suíça e em França.

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