Revista Rua

Catarina Wallenstein: “A gestão permanente da atriz ‘bonequinha’ é um sítio redutor para uma mulher”

Uma grande entrevista para ler (e assimilar) com tempo.
Fotografia ©Nuno Sampaio
Andreia Filipa Ferreira14 Dezembro, 2020
Catarina Wallenstein: “A gestão permanente da atriz ‘bonequinha’ é um sítio redutor para uma mulher”
Uma grande entrevista para ler (e assimilar) com tempo.

É um nome inconfundível no cinema português: Catarina Wallenstein é rosto de talento com palavras de ação que são urgentes ouvir. Aos 34 anos, a atriz desdobra-se em projetos, com a música no coração e a representação a ocupar o lugar pioneiro na sua lista de sonhos, mantendo-se ativa segundo a sua própria premissa: “A arte é, evidentemente, uma grande maneira de nos manter despertos”. Numa grande entrevista que vai muito além da carreira de sucesso desta atriz, que recentemente participou em filmes como Um animal amarelo de Felipe Bragança e O Ano da Morte de Ricardo Reis de João Botelho, apresentamos Catarina Wallenstein sem filtros.

Em primeiro lugar, gostaríamos de perceber como tens vivido esta fase. Como é que uma pessoa que vive da cultura, do cinema e do contacto com o público lida com uma pandemia mundial que evita a proximidade e o toque? O que é que a pandemia te tem ensinado?

Eu acho que todos nós fomos apanhados de surpresa e, evidentemente, é muito difícil lidar com este problema de forma transversal. Nas artes, que têm um carácter de experimentação e de busca – por ser um sítio de intimidade – tem sido muito difícil. Por exemplo, uma pessoa que tenha estado positiva, hoje, segundo as regras, no final de alguns dias já não é contagiosa e pode ir trabalhar de máscara. No entanto, para nós, nas artes, isso é impossível! Essa reabilitação tão rápida no nosso mercado de trabalho é muito complicada justamente pelo cariz de proximidade física que nós temos.

Não dá para descaracterizar as produções e o trabalho, portanto, aquilo que eu vejo que tem sido feito é que os atores e os artistas estão com muito cuidado! Existem realizadores que já confinaram equipas inteiras dentro de uma casa de forma a criar um ambiente seguro, sem estar preocupado com o mundo real lá fora, criando uma zona de conforto. Eu tenho muitos amigos atores que sentem uma responsabilidade acrescida, que me dizem “eu não vou ter contigo” ou “eu não vou passar por não sei onde porque eu corro o risco de parar o elenco inteiro”. Penso que este lado de responsabilidade social, de nós percebermos que precisamos todos uns dos outros, de percebermos qual é o nosso papel, é extremamente importante numa fase tão difícil de gestão da pandemia como estamos agora. Nós não podemos esperar que o governo nos organize como peças de um puzzle, nem podemos revoltar-nos se o governo decidir que, de alguma forma, tem de nos organizar como peças de um puzzle. Há uma autocrítica e um trabalho de um certo policiamento que nós temos de fazer sobre nós próprios – é uma espécie de gestão de concessões – para continuarmos com a vida a andar. Nós temos, sim, de nos privar de um monte de coisas e ter a consciência de que temos a responsabilidade de não parar um elenco; de que temos a responsabilidade pelos mais velhos; de que temos a responsabilidade de não sobrecarregar o nosso sistema de saúde! Isto é tudo resumido num só gesto: como é que eu vou gerir o espaço que eu ocupo de forma segura e responsável?

Fotografia ©Nuno Sampaio

Por outro lado, considero que esta pandemia veio expor uma grande fragilidade do setor. Acho que muitas das conversas sobre a gestão cultural que nós temos tido estão a ser feitas como se nós tivéssemos um tecido cultural saudável, como se nós tivéssemos um Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA) ou um Ministério da Cultura como a Suécia, como se já tivéssemos um tecido cultural a funcionar e, portanto, estaríamos a falar de pequenos sacrifícios ou de pequenas concessões. Mas nós ainda não temos um tecido cultural à altura da responsabilidade que a cultura tem perante uma sociedade. É constitucional, está definido na Constituição que o governo tem a responsabilidade de dar acesso à cultura a todos e de fomentar a produção cultural independente, mas eu acho que uma pandemia vem pôr a nu as fragilidades deste setor. Nós temos de ver que, porque nós já estávamos desnutridos, estamos agora extremamente fragilizados! Muitos de nós vive com pequenos trabalhos que se sucedem e acumulamos funções: somos assistentes de encenação numa coisa, construímos adereços com as nossas mãos na outra e fazemos uma participação aqui e ali, ou seja, fazemos várias pequenas coisas. Quando o mercado para, um e outro mês, há uma total falta de sustentação! Não há esperança nenhuma de futuro! E é aí que temos uma data de pessoas que, por norma, conseguem organizar-se e viver com pouco dinheiro na sua vida normal, mas perante uma pandemia, perante uma paragem de tantos meses, ficam completamente desprotegidas. Têm havido alguns fundos, mas a ação do governo tem sido insuficiente. Se bem se recordam, nas comunicações que existiram, tanto do Ministério da Saúde, quanto do Presidente da República e do Primeiro Ministro, é referido “saia de casa com responsabilidade, mas continue a ir a espetáculos” e eu acho que nós percebemos muito bem o que é efetivamente essencial. É essencial para o meu nutrir intelectual e para o alimentar de uma lógica social que eu vá ver um filme? É! É essencial que eu, a seguir, vá a um restaurante ou que continue aquele convívio com outras pessoas fora da minha bolha? Não! A nossa responsabilidade é perceber justamente que nós não precisamos de ter tudo, mas podemos ir continuando a alimentarmo-nos.

A cultura também nos alimenta nesta altura do medo. As pessoas estão com muito medo e estão muito isoladas. Uma maneira muito boa de escapar ao medo é ouvir as propostas dos artistas, porque eles trazem-nos pontos de vista diferentes, reflexões, muitas perguntas, sentido de humor, a complexificação das coisas. Nós temos os vídeos na internet, mas é tudo muito sintético, muito cheio de respostas: como é que a vida é boa e como é que a vida é má; como é que nós devemos ser; e a arte vem um pouco baralhar-nos estas certezas. Penso que, numa altura de medo, de subida de populismos, de grande controle das nossas mentalidades, nós estarmos atentos à cultura é uma forma de resistência também, uma forma de apoiar o setor.

“Devemos, portanto, continuar a consumir produto português, diversidade portuguesa e produção independente e não ter medo das coisas porque já não estamos no sítio de uma arte hermética para intelectuais saídos de uma ditadura de 40 anos, em que só os intelectuais é que vão perceber a arte. Já não somos um país tão iletrado como éramos nos anos 70”

Mas espera que, de alguma forma, o público perceba isso? Que é necessário apoiar a cultura? Que é necessário ir a espetáculos?

Não numa lógica de “desgraçadinhos” e de caridade, atenção! Como em todas as relações, dar e receber são o mesmo movimento e nós alimentamo-nos justamente desse gesto mútuo. Claro que alimentar um setor que está precário é extraordinário, mas as benesses que trazemos de volta depois de ver um espetáculo ou depois de ver um filme, as conversas que isso pode suscitar, as reflexões e a mudança na nossa pessoa… é riquíssimo! Portanto, é um movimento para os dois lados, é uma evolução a nível de sociedade, é uma forma de honrar o nosso país. Queremos ser patrióticos, consumamos! Em vez de termos um plano de patriotismo cego e obnubilado, vamos consumir produtos portugueses. Não é só na mercearia que temos de ter essa atenção, é também no consumo dos media, do produto cultural, porque é a única forma de nós também termos acesso à diversidade.

De alguma maneira, os objetos artísticos e os objetos de entretenimento mediático que nós recebemos nas nossas casas, seja via plataformas seja via televisões, são já extremamente normalizados, com uma curadoria e uma estética que é como se fosse aprovada pelo algoritmo. E esse algoritmo não nos traz realmente formas diferentes – e nós acabamos por estranhar registos diferentes, tempos diferentes. Ouvi muito o João Botelho falar sobre disso. O cinema também diverge muito com a gestão de certo realizador ou personagem com o tempo e com o espaço. Nós, hoje em dia, temos o mesmo tipo de montagem, o mesmo realismo social, que nos chega via plataformas de forma mais ou menos distópica, mais ou menos futurista. Mas é sempre a mesma receita com maquilhagens diferentes – o que eu acho importantíssimo que exista – , mas considero que o acesso à diversidade é aquilo que nos faz, no limite, evoluir como povo e mentalidade. Devemos, portanto, continuar a consumir produto português, diversidade portuguesa e produção independente e não ter medo das coisas porque já não estamos no sítio de uma arte hermética para intelectuais saídos de uma ditadura de 40 anos, em que só os intelectuais é que vão perceber a arte. Já não somos um país tão iletrado como éramos nos anos 70. Assim, neste momento, eu acho que não precisamos de ter medo do cinema português.

Fotografia ©Nuno Sampaio

É por isso que são importantes festivais como o Ymotion, que coloca os jovens em contacto com o cinema português?

Sem dúvida! Festivais que trazem diversidade e curiosidade! Obviamente que se formos habituados à diferença desde jovens – e vemos isso com todos os comportamentos sociais -, se somos habituados a ser esponja, que é algo natural quando estamos a crescer, temos uma certa responsabilidade de, em adultos, manter essa vontade de ser esponja e de nos deixarmos cativar pela diferença. De nos mantermos curiosos! Acho que a arte é, evidentemente, uma grande maneira de nos manter despertos.

Gostava de voltar ao início da sua carreira e perguntar-lhe como é que tudo começou. Foi sempre este percurso que ambicionou ou tinha outros sonhos que ficaram pelo caminho?

Não era esta a ambição, não.  Mas acho que não deixei os sonhos pelo caminho, mudei de sonhos – e, mesmo assim, não totalmente. Eu venho de uma família de artistas, ou seja, houve um consumo de arte muito diversificado na minha infância. Lembro-me de ir a exposições, a museus, ao teatro, de ouvir ópera… O meu pai é contrabaixista da Orquestra Sinfónica Portuguesa e a minha mãe é cantora lírica, por isso, eu ouvia ópera em casa. Ouvia os recitais de canto e piano da minha mãe, o meu pai a tocar, mas também o meu tio Zé [José Wallenstein] que encenava espetáculos, os meus avós que nos levavam a museus e ao teatro infantil… Talvez tenha consumido menos artes plásticas, sobretudo arte contemporânea, onde tenho o maior desconhecimento, mas evidentemente que vou tentando colmatar isso na minha vida adulta. Portanto, foi bastante natural eu querer ser artista. Eu queria ser cantora de ópera! Estava numa escola de música onde tocava violoncelo e estava num coro (Coro da Fundação Musical dos Amigos das Crianças), onde cantei durante doze anos. Adorava cantar! Esse coro fazia as óperas do S. Carlos, quando as óperas eram escritas com partituras para crianças.  Desde novinha me habituei aos ensaios, aos bastidores, aos encenadores, às marcações… tudo o que era montar uma ópera me fascinava! E, pronto, eu queria ser cantora de ópera. Por causa do trabalho do canto e da voz, a minha mãe disse-me: “Se queres ser cantora de ópera tens de trabalhar o teu corpo”, isto porque um cantor também é um intérprete, é uma performant de corpo inteiro que interpreta personagens e que, sobretudo, tem de conhecer o seu instrumento. Evidentemente, nesse trabalho de descoberta do corpo, fiquei curiosa com o teatro e percebi que, afinal, queria ser atriz. No entanto, a minha relação com a música e com o canto continua muito próxima. Penso muitas vezes se devo gravar um disco ou não, por exemplo (mas não há nada planeado para já). Mas a ópera é como um trabalho quase de atleta olímpico: ou estás sempre em cima do assunto ou então perdes algumas faculdades.

“Para mim, o maior problema da evolução da nossa cultura é sempre uma suborçamentação, ou seja, nós ficamos muito fortes a fazer omeletes com muito poucos ovos”

O seu percurso tem-se dividido em vários universos, desde o teatro, televisão e cinema. Qual é a sua opinião sobre a evolução destas áreas no nosso país? Nós temos um país pequeno, mas temos ótimos atores e realizadores. Vê com bons olhos esta fase de crescimento do cinema tipicamente português?

Para mim, o maior problema da evolução da nossa cultura é sempre uma suborçamentação, ou seja, nós ficamos muito fortes a fazer omeletes com muito poucos ovos – não digo sem ovos, mas com muito poucos ovos. Eu acho que nós somos dotados de equipas técnicas e de talentos de atores extraordinários. Temos um país onde é muito fácil filmar porque temos todo o tipo de décors muito próximos uns dos outros: montanha, praia, planície, bom tempo… temos todas as condições para sermos um país de muito fácil produção e de todas as qualidades. Eu penso é que, quando estamos a falar de um ICA que produz sete ou oito filmes por ano, não podemos ambicionar ter o comercial, a comédia inteligente, o filme de arte, o experimental, o filme de arquivo… Quero com isto dizer que não conseguimos uma evolução em todas as frentes ao mesmo tempo. É evidente que a televisão vem colmatar as lacunas e, de alguma maneira, o nosso instituto de cinema fica a trabalhar com o cinema de arte, o cinema de autor.  Na verdade, os filmes mais vendáveis são feitos com muitas parcerias com televisões, o que faz algum sentido porque, em número de espectadores, o cinema comercial faz concorrência à televisão, não está a tirar nem dar público ao cinema de autor.

Mas não pode haver rivalidades entre os diferentes universos, portanto…

Quanto mais se produzir, mais o público vai ficar transversalmente curioso para ver outras coisas, ou seja, nem o ator vai ter tanta arrogância de ver um filme mais popular, nem o consumidor de arte mais popular vai sentir-se tão intimidado ou tão posto de parte do trabalho autoral. É uma questão de incrementação da produção e isso tem sido uma discussão bastante atual por causa da revisão da lei do cinema. Esses universos podem e têm que conviver, não se anulam. Mas, uma das coisas que me incomoda é esta visão empresarial de que a arte tem que existir como um negócio, no sentido em que tem de existir um retorno financeiro.

Outra coisa que é muito errada a nível da opinião pública é a questão dos subsídio-dependentes. O artista tem sido encostado, de alguma maneira, a um lugar de “malandro que não trabalha e que está dependente de subsídios”. Isto é errado! No universo dos arquitetos e dos engenheiros chamam-lhes concursos – é só uma questão de nomenclatura e nem sei se é diferente na lei ou nos editais. Mas, no imaginário popular, ficou esta ideia de que nós somos subsidiados para não trabalhar. Ora, nós trabalhamos muito mais horas do que muitos mortais, em períodos de intensidade máxima, muitas vezes seis a sete dias por semana e fazemos um trabalho onde dependemos de todos os outros, ou seja, nós dependemos de as pessoas estarem curiosas para ver, mas não o estamos a fazer para números de espectadores. São coisas diferentes: uma coisa é tu fazeres um investimento e estares à espera de um retorno. Se há alguma arte que pode entrar neste quadro? Há, claramente que sim. Se as pessoas têm curiosidade em saber quem são as Doce ou o Salgueiro Maia e vão ver o filme, isso é fantástico! Naturalmente que este é um tipo de cinema que pode levar pessoas ao cinema e é uma maneira de nos aproximar da nossa História, de personagens do nosso inconsciente coletivo. Por outro lado, o Estado tem de continuar a incrementar a produção que é mais experimental e pequenina. Porque é dos trabalhos de baixo orçamento, de pensamento alternativo e de cruzamento de meios, de pessoas que trabalham com arquivo, misturado com ilustração ou música experimental, que vão nascer os talentos que, no limite dos limites, vão ser repescados para serem os próximos realizadores da Netflix – porque ela em si não vai descobrir nada, não vai fabricar a carreira de ninguém. As pessoas estão a fazer experiências até encontrarem o seu ritmo de produção. Portanto, estes universos têm de conviver, não são inimigos, complementam-se e vão unificar também o imaginário cultural do país. Este caminho tem de ser feito e nós não nos podemos virar uns contra os outros.

Dito isto, o Governo tem evidentemente a responsabilidade de não deixar que o nosso ICA se esvazie, porque se o consumo de entretenimento de media pela população está a migrar dos meios tradicionais para o digital – e se basicamente o dinheiro que alimenta o ICA está a migrar e a passar para as plataformas – óbvio que estas plataformas têm de ser taxadas para nós defendermos o nosso magrinho ICA, que já não é muito rico e já não dá para todos. Claro que as plataformas vão chegar, mas que cheguem e paguem – como toda a gente! Eu acho que foi uma discussão acesa que revelou esta fase de medo, como se, caso não lhes disséssemos “sim” a tudo, eles não viessem. Isso é uma grande vergonha porque nós não estamos em saldos! Nós queremos que eles venham, que produzam connosco… e nós para eles. Sim! Eu como atriz evidentemente que também quero trabalhar com estas plataformas, mas não tenho ilusões nem fico histérica com o logótipo destas empresas. Considero que essas empresas têm que chegar e compactuar com o mercado que está aqui em andamento.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Focando-nos no cinema: o seu nome é reconhecido pelos portugueses quando se fala em cinema português. Aliás, participou em grandes filmes de realizadores portugueses, de João Botelho (Filme do Desassossego e Os Maias) a Manoel de Oliveira (Singularidades de uma Rapariga Loura). Pode falar-nos um pouco do seu crescimento no mundo do cinema? Sente-se feliz e confortável com a sua carreira?

Bem… eu acho que se um artista se sentir feliz e confortável, a sua carreira acabou! (risos) Nós procuramos inquietarmo-nos e correr riscos, de forma a estarmos ali a gerir o limite do desconforto, ou seja, da exposição, do erro, da tentativa e erro, de falhar em frente a toda a gente, de não ser suficientemente bom… Eu estou orgulhosa, em paz com as minhas escolhas. Sou sortuda porque tenho tido trabalho e tenho conseguido subsistir com aquilo que mais gosto de fazer, que é representar – também porque faço locuções, que é uma extensão do meu trabalho e da minha investigação vocal, porque o domínio da palavra e a utilização da voz como instrumento múltiplo dá-me um gozo brutal. Portanto, sinto que tenho imensa sorte! Claro que me falta fazer imensas coisas, mas falta-nos sempre. Falta-me fazer o próximo filme. Qual é? Não sei! Falta-me fazer outro filme pensado e co-realizado por mim, talvez com o Felipe Bragança com quem a parceria já funcionou muito bem.

Mas há algo que mudaria neste percurso?

Não estou zangada comigo nem com nada no meu percurso, mas questiono-me muito. Fico muito insegura. Também acho que é da natureza dos artistas ficarem inseguros, há fases mais floridas e há fases com mais espinhos, dúvida, vergonha, insegurança e cansaço. A gestão mediática, não em relação ao ser abordado na rua, mas sim relativamente ao facto de o ator gerir muitas vezes a sua imagem e se gerir perante o que os outros pensam, numa lógica de “será que gostaram de mim neste filme? Vão me contratar para outro ou não?”, é motivo de insegurança muitas vezes. Estamos sempre nesta dúvida do que é que vamos fazer a seguir.

E falando de imagem, enquanto mulheres, ainda temos um imenso trabalho a fazer para um sítio de igualdade e, sobretudo, dignidade igual – como eu gosto de dizer. A igualdade às vezes assusta as pessoas e nós ainda não estamos num tratamento de dignidade igual. Vou explicar: como atriz mulher, por exemplo, uma das coisas que me põe mais nervosa é uma ida a um evento ou gala porque sei que vou ser fotografada à porta e tenho de pensar no que vou vestir, nas marcas que vou ter comigo… tenho de estar impecável! Mas eu confesso: eu não gosto de gastar dinheiro em roupas! Evidentemente que os atores têm todo um mundo em que trabalham em cooperação com as marcas, com parcerias, etc., mas essa gestão permanente da atriz “bonequinha” é um sítio redutor para uma mulher. Em princípio, para os homens, tem sido permitido serem mais baldas, mas serem interpretados como intelectuais que têm algo a dizer e que estão a propor uma visão do mundo. À mulher, a primeira camada é imediatamente se é bonita ou não, se está bem ou mal vestida, se é elegante, gorda ou magra…“Não queres pôr mamas?” ou “Tapa lá o teu decote!”, ou seja, há aqui uma gestão que é extremamente ingrata, eu acho. E que, ainda para mais, é uma primeira camada, isto é, o meu trabalho não é sobre isso, mas toda a máquina mediática à volta faz-te ser sobre isso. Não é a musa de não sei quem, é uma atriz que colaborou nos filmes, pensou nos trabalhos, é tão criadora quanto qualquer homem. Ser ator é ser criador. Há uma hipersexualização do corpo feminino!

“Eu não tenho pudor nenhum com o meu corpo, mas eu quero que o meu corpo seja utilizado num sítio de dignificação do corpo feminino, não de um objeto sexual inanimado. Pode ser uma personagem mais ou menos sexy ou ser uma cena de sexo, mas que mulher é que eu estou a propor naquela nudez? Essa é a questão! É uma mulher que está a ocupar o seu espaço ou é uma mulher que está amochada? Não quero mais fazer de mulher amochada”

Um dos meus pensamentos constantes é: eu não tenho pudor nenhum com o meu corpo, mas eu quero que o meu corpo seja utilizado num sítio de dignificação do corpo feminino, não de um objeto sexual inanimado. Pode ser uma personagem mais ou menos sexy ou ser uma cena de sexo, mas que mulher é que eu estou a propor naquela nudez? Essa é a questão! É uma mulher que está a ocupar o seu espaço ou é uma mulher que está amochada? Não quero mais fazer de mulher amochada, a menos que o trabalho seja mesmo sobre isso e, então, vamos reverter, abrir as entranhas e vamos trabalhar sobre essas vísceras para poder denunciar. Só a reprodução de uma mulher de época, que é a mulher galheteiro e que diz “Sim, sim. Passas-me aí o sal?” não me interessa! Por mais pequeno que seja o papel!

Por exemplo, o guião do filme sobre o Salgueiro Maia: é um filme biográfico, onde eu fiz um papel relativamente pequeno de mulher de um dos militares. Evidentemente que é um filme de homens e é um filme sobre os quartéis e as vivências dos soldados. Claro que as mulheres tinham um papel secundário e doméstico, no entanto, o que me agradou nesse guião é que eram mulheres com um ponto de vista político e social, onde se discutiam as coisas à mesa e onde se percebia que elas tinham uma opinião e uma proposta. E os homens viviam esse tempo com elas. Isso interessa-me! Porque eu não quero continuar a reproduzir as situações de desequilíbrio. Acho que nós, enquanto mulheres, muitas vezes não damos conta do que estamos a reproduzir. Por exemplo, no outro dia fui a uma entrevista e a própria entrevistadora perguntava-me a mim e à outra atriz mais nova que estava comigo algo sobre “essa coisa da rivalidade entre mulheres” e eu pensei: “Mas porquê esta conversa?”. Ao menos que essa pergunta viesse de um homem que não pensa muito sobre isso, mas estás tu, mulher, a perpetuar essa ideia de que nós somos muito hostis umas com as outras e que não queremos a chegada de uma mulher mais nova e mais bonita. Isso é outra forma de objetificação e de nos pôr num enquadramento mesquinho e de conflitos domésticos. Nós temos uma história de mulheres inventoras, intelectuais, de mulheres cheias de propostas para o mundo que nem sempre saíram cá para fora porque não eram as mulheres que contavam a história! Eu acho que essa reflexão é necessária, nomeadamente, através do corpo, porque uma atriz que trabalha com o seu corpo, tem através dele, da nudez e da sexualidade, um ponto de vista a oferecer sobre o mundo.

Fotografia ©Nuno Sampaio

O Ano da Morte de Ricardo Reis é um filme de João Botelho no qual interpreta o papel de Lídia. Como foi participar neste filme?

O Ano da Morte de Ricardo Reis é um filme de João Botelho, com quem eu já trabalhei algumas vezes. Voltar a trabalhar com o João é como voltar a casa e a uma família. Este filme tem várias particularidades em relação aos trabalhos anteriores que fiz com o João porque tive sempre papéis mais pequeninos, nada menos interessantes. Nunca tinha passado um período de tempo tão grande em exploração artística com o João Botelho. Foi, então, a primeira vez que tive um arco de pensamento com ele durante mais tempo e numa obra que é uma adaptação de uma obra literária de extrema relevância no panorama literário português, que é O Ano da Morte de Ricardo Reis do Prémio Nobel José Saramago. A proposta desta obra é genial! O que é que o Saramago faz? Como Fernando Pessoa não tinha dado ano de morte ao seu heterónimo Ricardo Reis e tinha datado o ano de morte dos restantes, o Saramago inventa a seguinte jigajoga: morre Fernando Pessoa e Ricardo Reis, que estava no Brasil – como Fernando Pessoa tinha inventado -, enfia-se no barco a vapor e volta a Lisboa (depois de 15 ou 16 anos fora). Portanto, esta é a chegada de um heterónimo a uma cidade em que já não estava. É um heterónimo que não sabemos bem se existe e que chega a uma cidade a que já não pertence, com uma realidade política que não estava a acompanhar. Começa então a ter conversas – isto é que é genial no Saramago! -, com Fernando Pessoa. É fabuloso porque é um guião lindíssimo que é o encontro do criador e da criação e a discussão do tempo presente. Passa-se em 1936, ano que, na Europa, foi perigosíssimo e tenebroso porque foi a subida dos fascismos, a Guerra Civil em Espanha, o Franco, o Salazar… e no filme percebemos um pouco a realidade de Portugal e de Espanha e ouvimos notícias do Hitler, por exemplo. O João Botelho tem vindo a dizer que o ano de 1936 é um dos grandes protagonistas deste filme e, evidentemente, é uma forma do João se relacionar com o seu tempo. Não é por acaso que o João fez este filme agora, num momento em que temos pessoas como o Trump, o Erdoğan, o Bolsonaro e podemos continuar a listar. As pessoas estão um pouco curiosas – e isso viu-se com as eleições americanas -, em tentar descodificar o que é que de facto nos estão a tentar dizer. É que temos todos muito acesso à informação, mas parece que não conseguimos perceber aquilo que nos está a ser dito.

O Ano da Morte de Ricardo Reis é uma maneira fabulosa da arte refletir sobre o processo histórico do seu país, sobre de onde viemos, onde estamos e para onde é que vamos. O que é que são estes ciclos? O que é que há de parecido entre 1936 e agora? Não estaremos a produzir um ciclo desses? O ser humano vai cair nos mesmo ciclos e nos mesmos erros.

A Lídia, que é a personagem que eu represento neste filme, é uma personagem absolutamente encantadora porque é uma mulher que, lá está, tem querer, tem vontade, tem corpo, tem desejo, num filme que se passa em 1936. Ela é também a consciência de um povo com um ponto de vista político. Em princípio, na perpetuação de imagens que nos têm sido feitas, nós temos mais acesso a mulheres que não têm opinião e que têm os homens a decidir um pouco por elas. Neste filme, não. É a mulher que tem o ponto de vista político e ela é quem alerta e faz entrar a verdade pela casa do Ricardo Reis. Ela vai ter um romance com ele e faz-lhe chegar a verdade de um país e de uma realidade à qual ele não pertencia. É uma chapada na cara da realidade e que vem de uma mulher da classe operária, extremamente sagaz e extremamente independente. É uma personagem belíssima que eu adorei fazer. Acho que é muito curioso o João Botelho estar a fazer este trabalho sobre memória e ir buscar o processo histórico do nosso país, enfim, com a história da literatura.

Ao mesmo tempo, a Catarina chegou aos cinemas com outro filme, chamado Um animal amarelo, de Felipe Bragança.

Sim, um filme que também trabalha sobre a memória, que pensa justamente que história carregamos às costas e o que é que isso faz de nós. Ou seja, quer queira, quer não, eu tenho a minha história, da minha família, da minha genética, do meu passado português, do meu passado enquanto ser humano… Nós carregamos tudo isso e isso faz de nós alguma coisa. Acho que é muito engraçado dois filmes completamente diferentes – um a preto e branco e de época, e outro num registo fabular, delirante e de viagem -, serem de dois artistas relacionados com o seu tempo a querer apontar o dedo para as coisas que não se estão a falar agora e que têm de ser amplificadas. De alguma maneira, nós somos os altifalantes da sociedade e é bom que nos queiram ouvir.

Fotografia ©Nuno Sampaio

E interessa-lhe imenso ser esse altifalante.

(risos) Já repararam que sim! Visibilidade por visibilidade não interessa para nada! Nós temos que ter coisas para dizer e ter pontos de vista para propor. Essa é toda a riqueza de ocupar um espaço de alguma visibilidade. Senão, é um trabalho de alimentação de um ego e de uma autoestima, que não é o que me interessa. Há muito tempo que eu não tinha uma fase de tantas entrevistas, com filmes a estrear e com algum espaço para falar. Portanto, as coisas que eu tenho vindo a pensar nestes últimos anos, eu estou a ter ocasião de as partilhar. Às vezes, sinto-me um pouco repetitiva, mas daqui a um ano ou dois eu terei novos pensamentos. Agora, estou muito preocupada com a subida dos populismos, com a falta de respeito e consideração pelo tecido cultural, governo após governo; estou muito preocupada com um pensamento pós-colonial que não é tido, com as pessoas não perceberem que esse silêncio é a herança de uma ditadura de 40 anos que nos calou. Nós habituamo-nos e pelo silêncio continuávamos em frente. São estas as coisas em que eu tenho pensado. E tenho encontrado nestes dois filmes uma maneira de falar. Não é só deixar os filmes ir para as salas. É dialogar com as pessoas, continuar a fazer parte do filme respondendo a perguntas, em debates ou no Instagram! O que surge desses debates é tão rico que parece que estamos a continuar a alimentar o imaginário do filme, da personagem, porque descubro coisas sobre a minha personagem que eu não tinha pensado na altura. Descubro porque falo com as pessoas! Leituras do filme que vão mudando.

Esta é uma vantagem dos filmes independentes, dos filmes de arte. É que, de alguma maneira, não nos oferecerem uma síntese. Aliás, uma outra coisa com que eu ando preocupada: está tudo muito sintético, é tudo certo ou é tudo errado, ou é bom ou é mau, ou é politicamente correto ou não é, ou denuncio aos gritos ou não denuncio, ou faço parte deste clube ou não faço… Isso vem muito das redes sociais, não é? Que amplificam e estagnam-nos, de alguma maneira, numa coisa de duas dimensões. Quando tu te imaginas enquanto pessoa a desenvolver o teu carácter, os teus traços sociais, enquanto um perfil com esta fotografia e estes amigos, com estes gostos, vais-te fixando na própria imagem de ti. Quem é que eu sou? Quando, no fundo, nós vamos sendo. Eu espero não ser a mesma pessoa de ontem. Eu acho que isso nos trouxe algo muito inconsciente: eu sou assim, eu tenho esta vida. E esse movimento é muito falso e mentiroso. Nós não temos aquela vida, não somos aquela fotografia, não somos aquele sorriso, não somos aquelas pernas. Há muita comunicação através da imagem que vai afunilando para uma ideia de síntese. Os vídeos motivacionais, os vídeos de soluções rápidas para resolver tudo para amanhã. Eu acho que quanto mais uma obra de arte nos permite justamente ter essas leituras diferentes de todas as vezes que vamos vendo (um filme, por exemplo) vamos descobrindo outras coisas. Vamos fugir da síntese! Fugir da resposta pronta. Fugir da resposta e lançar mais perguntas. É com esses artistas com quem eu quero trabalhar!

“Estou muito preocupada com as fragilidades do ser humano, com a exaltação da estupidez, com a mediocridade, com a arrogância, com esta cultura de calar o outro o mais rápido possível para ter razão, com alguma incapacidade de dialogar com pessoas com uma opinião diferente da nossa…”

A Catarina tem sido uma incansável ativista dos direitos, seja da cultura, seja do ser humano. Que ambições para o futuro tem nesta fase? E que anseios de carreira? Pensa sobre isso?

Não penso muito sobre isso porque acho que há uma gestão do sistema nervoso e uma gestão de frustração. Já são muitos altos e baixos emocionais e já são muitos altos e baixos de sobrevivência financeira para estar, de facto, a fazer muitos planos. Obviamente que eu acho que há um movimento de alguma internacionalização que eu podia fazer. Não posso responder que tenho a ambição da Globo, da Netflix, de Hollywood, porque seria mentira dizê-lo. Se calhar porque me irrito um bocado com estes logótipos, no sentido da marca, como se por ter esta marca fosse bom. Eu não acredito nisso. Não é o logo que me impressiona. Importa-me perceber que continuamos a trabalhar em grupo e a precisar uns dos outros. A reconhecermos talentos, pontos de vista, análises, dificuldades… de pessoas e não de empresas!

Há, então, um movimento de internacionalização que obviamente eu poderia fazer mais, mas eu sou muito da minha vidinha, dos meus amigos e da minha família.  Não tenho andado muito insatisfeita. Tenho preocupações concretas, sociais. Estou muito preocupada com as fragilidades do ser humano, com a exaltação da estupidez, com a mediocridade, com a arrogância, com esta cultura de calar o outro o mais rápido possível para ter razão, com alguma incapacidade de dialogar com pessoas com uma opinião diferente da nossa – e eu aí incluo-me e faço um esforço no quotidiano para não menosprezar uma pessoa só por ela ter uma opinião diferente da minha, tenho de aceitar e aprender a conversar. Preocupa-me mais isso, a desigualdade social que não está a ser minimamente colmatada e a crise desta pandemia está a pôr a nu tudo isto. Preocupam-me os países que continuam a explorar outros, grandes potências que continuam sem interesse em que outros países se desenvolvam e continuamos a ir lá explorar os recursos naturais. Preocupa-me o aquecimento global. Ambições para o mundo era resolver isto, com Governos que se ocupem de pessoas e não de empresas.

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