Revista Rua

2020-03-18T09:59:25+00:00 Opinião

Celebração da vida ou da morte?

Sociedade
Ana Marques
Ana Marques
18 Março, 2020
Celebração da vida ou da morte?

Porquê que se oferece um presente quando se celebra o aniversário de alguém? Bom, começando por esta indagação, creio que me surgem diversas respostas. A mais evidente: é um dia festivo, pois claro, um momento de festa; é também uma lembrança que queremos deixar ao aniversariante, para que fique ciente: Epá, no ano de 2000 estive lá, contigo, e dei-te aquela flor que apanhei no jardim enquanto me deslocava para o restaurante, sei que murchou entretanto, mas o que conta é a intenção; outra, que me soa a mais intrigante e que parece que não nos lembramos tanto, é: um alerta para mais um ano de sobrevivência cá na terra dos vivos e dos mortos. Festejamos a vida e a morte, oferecendo presentes uns aos outros, como forma de nos aliviarmos?

Será?

Trago-te este presente por teres tido a capacidade de aguentares mais um aninho de vida. Vê lá se morres para o ano, que a conta bancária já começa a dar sinais de fome e a criatividade a dar sinais de demência, dizemos nós, omitindo a última frase, escondendo-a nas entrelinhas dos nossos pensamentos.

O aniversariante agradece, normalmente assim,

Epá, a sério, não era preciso…

Mas igualmente satisfeito pela forma gratificante com que o contemplam por, mais um ano, estar a ficar velho e cada vez mais próximo da morte. Não esquecendo, caro leitor, que a morte aparece quando quer e bem lhe apetece, sem postal, sem carta (a não ser que venha disfarçada de cancro) e nos leva sem deixar rasto. Será que celebramos a vida, esquecendo-nos que celebramos a proximidade com a morte? Ou, enfim, talvez não nos esquecemos e, por termos esse pensamento consciente, e também se calhar presente, é que gozamos com a morte e dizemos: quem manda somos nós e, como tal, vou festejar! Se me quiseres apanhar, vir buscar, estarei eu bêbada!

É engraçado como o ser humano arranja formas de dar também a volta às situações, sobretudo aquelas que nos afligem, através da fé, das crenças, da esperança, todo um imbróglio para que estejamos mais longe de pensarmos no triste fado, no duro destino – a morte, sentadinha na sua poltrona, à nossa espera a dizer,

Ora vejam só quem é ela, hã! Este meet and greet já era para ter acontecido há mais tempo, mas Deus está-me sempre a trocar as voltas. Sacana!

Mas, onde tudo isto começou? Ao que tudo indica, segundo pessoas que se informam sobre estas questões desinteressantes e aborrecidas, felizmente que as há, oferecer presentes em aniversários começou a ser prática no Egito e na Roma, porque, para esses senhores, significava espantar espíritos. Ora, como eu suspeitei. Afugentar a morte, as más energias, o que lhe quiserdes chamar, temos uma peculiar apreciação em cobrir os nossos pensamentos – a realidade, neste caso – de que vamos morrer, falecer, bater as botas, conviver com as minhocas a dada altura da nossa jornada.

E não é errado festejar isto, nem existe nada mais bonito que levarmos os amigos a um jantar num restaurante e ser cada um a pagar o seu, do seu bolso, e ainda brindarmos o aniversariante com um presente comprado na loja dos chineses. E não é também errado, e claramente muito menos interesseiro da minha parte, que esta crónica seja uma preparação para que não vos esqueça que estou aí a uns dias de celebrar o meu aniversário. Agora, esmerem-se!; como referi, a morte está sempre à espreita e nunca se sabe em que dia é o nosso fim. Creio que nenhum de vós quer que eu leve como última recordação de presente um par de cuecas, uns brincos, um colar pechincho…

Sobre o autor:

Estudo Ciências da Comunicação. Sou uma espécie de Camilo Castelo Branco: escrevo coisas aborrecidas e poucos reconhecem o meu talento. Há quem diga que tenho algum humor, eu digo que emano comédia.

Partilhar Artigo: