Revista Rua

César Mourão, o improviso como ato de coragem

É a cantar Lisboa, com uma boa dose de improvisação, que apresentamos César Mourão, o ator mil facetas que é uma comédia à la carte.
Fotografia ©Nuno Sampaio
Andreia Filipa Ferreira24 Outubro, 2019
César Mourão, o improviso como ato de coragem
É a cantar Lisboa, com uma boa dose de improvisação, que apresentamos César Mourão, o ator mil facetas que é uma comédia à la carte.

É a cantar Lisboa, com uma boa dose de improvisação, que apresentamos César Mourão, o ator mil facetas que é uma comédia à la carte. Cruzamo-nos com ele num dos momentos que antecederam a sua subida ao palco com O Pior Espetáculo do Mundo e falamos de início, meio e futuro, numa odisseia pelo dom que é fazer rir, sem guião.

Esta entrevista foi originalmente publicada na Printed Edition #33 da Revista RUA

César Mourão, natural de Lisboa, homem de muitos ofícios. Gostaríamos de começar esta entrevista por perguntar exatamente como poderíamos descrevê-lo. César é ator, comediante, apresentador… isto tudo em conjunto ou algo em particular?

Eu acho que a palavra “ator” engloba tudo o que eu sou. Pelo menos é assim que eu me vejo e é assim que me ensinaram quando estudei para tal. Ser ator é tentar ser o mais versátil possível e essa sempre foi a minha batalha. Mas já me chamaram muitos nomes! (risos) Não tenho problema nenhum com isso, mas gosto que me chamem “ator”.

Não se considera um humorista/comediante por natureza? São então as próprias personagens que acabam por o envolver no universo da comédia?

Eu não sou um comediante. Um comediante não precisa de ser ator. Sinto-me mais confortável com um personagem. Mas eu tenho trabalhado muito na vertente do humor e, portanto, é normal que fique rotulado com isso, com esse rótulo de humorista. Mas já tive – e quero ter cada vez mais – desafios que nada tenham a ver com o humor.

Gostava de alargar horizontes?

Gostava, obviamente. Mas nem sempre surgem convites. A minha carreira seguiu este percurso e eu também não nego que adoro o humor. Acho que o humor é um bocadinho o parente pobre das artes do espetáculo, mas acho que tem uma subtileza incrível. Dá-me muito mais gosto fazer humor do que outra coisa qualquer.

Fotografia ©Nuno Sampaio

O César decidiu envolver-se nesta carreira artística porquê? Alguma influência, sonho de criança, acaso? A verdade é que quando pesquisamos o seu nome no Google, as manchetes surgem dizendo “o desportista que virou ator”. Como foi isto?

(risos) É verdade! Eu estudava formação técnica de desporto, que em nada tinha a ver com artes. Mas sempre gostei de teatro. Desde criança que fazia teatro amador. Mesmo em casa, adorava interpretar personagens, imitar vizinhos e familiares. Quando estava a estudar desporto, ao mesmo tempo fazia teatro amador na escola e os meus encenadores, na altura, incentivavam-me a seguir. Não digo que fui obrigado, mas sempre escutei as opiniões. Como tanto me empurraram para as artes e me incentivaram a procurar uma escola de teatro, assim fiz. Não me arrependo nada! Considero também que tenho a sorte de ter uns pais incríveis, que sempre me apoiaram e nunca me puseram nenhum entrave. Isso é muito bom! Fez com que, calmamente e sem ansiedade nenhuma, eu chegasse onde estou agora – que nem sei bem o que é! (risos) É trabalhar todos os dias, sobretudo.  E isso é muito bom, porque nem todos os atores trabalham todos os dias, infelizmente. Eu tenho essa sorte e acho que isso se deve muito à falta de pressão familiar que eu tinha. Acho que na vida tudo é assim: quando há menos pressão, as coisas fluem melhor. Foi o caso.

O César falava-nos da vontade de fazer coisas novas. Já teve, inclusive, oportunidade de participar em alguns filmes portugueses, nomeadamente remakes de destaque como o Pátio das Cantigas e a Canção de Lisboa. Estas experiências foram enriquecedoras? Gostaria de explorar mais o mundo do cinema?

Adorava! O cinema fascina-me mais do que a própria televisão, mas muito mais! O cinema é aquela arte de uma só câmara em que tudo é muito mais do que só interpretar. É saber exatamente onde nos colocamos, onde aproveitamos a melhor luz, a intensidade da cena… fazer cinema é outra coisa! Adorei! Tive a sorte de trabalhar pela mão do Leonel Vieira e do Pedro Varela – este último que realizou a Canção de Lisboa e de quem eu hoje sou muito amigo. Quero obviamente fazer mais! Já tive outros convites – um deles até gostava imenso de ter feito, mas foi exatamente em cima da Canção de Lisboa. Lá está, às vezes não fazes nada e às vezes surgem dois convites ao mesmo tempo! Mas quero muito voltar a fazer cinema porque é outra magia. A televisão não nos dá a magia da fotografia e da câmara.

“A minha carreira seguiu este percurso e eu também não nego que adoro o humor. Acho que o humor é um bocadinho o parente pobre das artes do espetáculo, mas acho que tem uma subtileza incrível.”

Sente que há um peso de responsabilidade maior quando damos vida a personagens que sabemos que têm um impacto grande na cultura portuguesa, em filmes que acompanham gerações? Como foi o exemplo da personagem Vasco em Canção de Lisboa?

Sim, eu tentei não pensar nisso. Obviamente que é impossível sequer fazer uma aproximação ao trabalho do Vasco Santana. São outros tempos, é tudo diferente. É incomparável. O Vasco Santana é um ator exímio. Senti alguma pressão ao início, antes de começar a rodar o filme, mas depois afastei-me completamente. Também o elenco que trabalhou comigo, o realizador… todos nos afastamos completamente do filme original. Como não estamos a fazer uma imitação, a pressão é muito menor. Eu tinha interpretado uma personagem que nada tinha a ver com a personagem que o Vasco Santana tinha feito. Portanto, essa pressão foi-se diluindo ao longo da rodagem. Claro que as pessoas na rua tendem a comparar, mas é incomparável! Aquilo era um remake, digamos assim, baseado levemente na história original, mas com uma roupagem completamente diferente.

E este O Pior Espetáculo do Mundo, com Carlos M. Cunha e Gustavo Miranda? É uma promessa a cumprir? Os espetadores já ficaram avisados para o que vêm?

(risos) É uma brincadeira! Nós no ano passado fizemos Os Melhores do Mundo e agora temos O Pior Espetáculo do Mundo. Nós desde o início, desde o primeiro ano, que tivemos a sorte de começar a esgotar as salas onde íamos e não sabíamos bem porquê – ainda hoje não sabemos! (risos) O que é certo é que isso acontece. As datas esgotam em menos de nada, felizmente. Então começamos a brincar com isso: vamos dizer às pessoas que é o pior espetáculo do mundo e talvez não venham (risos) Era uma brincadeira que fazíamos em palco. Então fizemos essa abordagem d’O Pior Espetáculo do Mundo que quando corre mal safamo-nos porque já avisamos que era o pior espetáculo do mundo! (risos) Não tem sido o caso, felizmente!

Fotografia ©Nuno Sampaio

Para além dos espetáculos, o César está envolvido na televisão portuguesa. Recentemente, fez parte do programa Lip Sync Portugal, que co-apresentou com João Manzarra. Foi um desafio bem-sucedido a seu ver?

Eu gostei muito de fazer o programa! Primeiro, porque sou muito amigo do João e foi um desafio sermos os dois apresentadores. Depois, porque o programa era descomprometido, divertido. No entanto, não acho que seja o melhor formato para mim, talvez seja mais a cara do João. Penso que estou muito mais confortável num programa como o D’Improviso, porque é muito mais a minha praia – com mais humor, não sendo só apresentação pura e dura. Mas gostei muito do projeto, pelo João, pela Débora Monteiro (que foi uma surpresa muito boa), por toda a produção. Foi um programa muito bem organizado e produzido. Era um convite que eu não podia dizer que não ao Daniel Oliveira e à SIC. A SIC tem-me dado um apoio incrível, tem apostado em mim e eu tenho feito o melhor que consigo e sei para lhe dar os melhores resultados. Por isso, quando o Daniel me pede algo porque considera que vai resultar bem, eu obviamente direi que sim.

A verdade é que a televisão acaba por ser um canal importantíssimo. O César tornou-se realmente uma vedeta, principalmente entre a faixa etária mais velha – que o adora! Esta ligação com as pessoas é importante e enriquecedora para si? Reage bem a ser abordado na rua?

Eu tenho a sorte de ter essa tal faixa etária muito transversal. Tenho muitas crianças de dez ou doze anos que me reconhecem por causa do programa Gosto Disto e por algumas personagens que eu fiz, assim mais em jeito desenho animado, como a mãe do Hulk, a mãe do Super Homem, o Ken… O público mais velho ainda vem desde que eu fazia as manhãs na SIC, mas a malta nova também me segue por me ter visto nesses programas. Os Commedia a la Carte são também muito transversais em termos de público. Temos muitos jovens e crianças nos nossos espetáculos e também pessoas de alguma idade. Isso é uma sorte! O país é tão pequeno que quando trabalhamos só para nichos – eu sei que são escolhas -, é mais difícil trabalharmos a toda a hora. Eu tenho essa sorte!

Fotografia ©Nuno Sampaio

“Sejamos brasileiros, africanos, sul-americanos, nós entendemo-nos. Só temos de falar a mesma língua e o resto é a língua da improvisação. E humor é humor… ou faz rir ou não!”

Considera que vive uma boa fase enquanto profissional? O que lhe tem faltado conquistar?

Eu não penso, normalmente, no que aí vem, no futuro. Esta provavelmente é a melhor fase da minha carreira. Só que, quando nós vivemos as melhores fases das nossas carreiras, nós não nos apercebemos que estamos a viver as melhores fases das nossas carreiras (risos) Só nos damos conta quando a melhor fase da carreira passa e nós pensamos “ah, se isto fosse há dois ou três anos… aí é que eu estava muito bem!”. Uma das pessoas que me ensinou a ver isto foi o Herman José, curiosamente. Ele sempre me disse que é uma pena não nos apercebermos quando estamos mesmo no auge. Eu não sei se estou, mas eu quero acreditar que sim! Estou a aproveitar cada minuto para fazer mais, fazer melhor, ter ideias, fazer digressões. Gerir carreira é muito complicado. Vamos fazer muita ou pouca televisão? Fazemos aquele programa ou não? Fazemos palco? Eu estou a aproveitar para fazer tudo! Porque eu acho que temos de trabalhar, temos de fazer, as pessoas merecem que nós, na nossa melhor fase de vida e de idade, lhes demos aquilo que nós sabemos – este tipo de arte!

A sua forma de arte é maioritariamente o improviso. O improviso é um dom? Ou treina-se?

As duas coisas! É um dom, mas também se aprende. O improviso é um ato de coragem! Porque há muita gente que é muitíssimo boa a improvisar, mas tem ali uma barreira que a impede, que lhe diz que não é capaz de subir a um palco sem nada treinado. Somos capazes! É só desbloquearmos isso. Temos de ir completamente disponíveis. Disponibilidade é a palavra certa para quando subimos a um palco para fazer improvisação. Depois, há todo um lado técnico, embora não pareça. Fazemos o que nos apetece, claro, mas tem muito a ver com a escuta, com o timing, com a sensibilidade, com o saber para onde vai a história, com o perceber a cabeça do outro. É um trabalho muito de equipa, mais do que individual. E depois há talentos, claro. Como o Carlos M. Cunha e o Gustavo Miranda que trabalham comigo. O Gustavo é um improvisador colombiano incrível, dos melhores que temos no mundo. Temos a sorte de ele estar a trabalhar agora connosco e estar a adorar Portugal. É para nós um privilégio! No caso do Carlos, ele é uma raposa velha! (risos) É muita técnica, muita coragem aliada a muito talento!

Fotografia ©Nuno Sampaio

Podemos falar da sua relação com o Brasil, visto que lá estudou e até já colaborou com a Porta dos Fundos? Identifica-se com o tipo de humor brasileiro?

Eu não acredito que traga influências do Brasil, mas o humor, embora seja muito diferente de país para país, de continente para continente, também pode ser muito próximo. Há muito humor brasileiro que é próximo do nosso. A Porta dos Fundos é um exemplo. O projeto não deixa de ser muito europeu enquanto humor e os humoristas, que eu tenho a sorte de ser amigo, também têm esse tipo de humor. Completamo-nos. Eu quando faço sketch na Porta dos Fundos interpreto sempre um português. Faço menos vezes do que aquilo que eu gostaria porque eu nunca posso ir lá (risos) É pena! Também fiz com eles um espetáculo, o Portátil e, por exemplo, nesse espetáculo, é fácil percebermos que a improvisação também é uma linguagem. Sejamos brasileiros, africanos, sul-americanos, nós entendemo-nos. Só temos de falar a mesma língua e o resto é a língua da improvisação. E humor é humor… ou faz rir ou não!

Voltando aos tempos da Hora H, um dos primeiros trabalhos do César num programa de Herman José. É uma recordação boa? Guarda boas memórias desse início?

Claro! Aprendi bastante com todos. E curiosamente todos me ensinaram coisas diferentes. Aprendi muito com a Ana Bola, a Maria Rueff, o Manuel Marques, o próprio Herman. Muito mais do que quando a câmara liga. Aprendi coisas do dia a dia, da vivência de ser ator, de trabalhar todos os dias. Percebi esses meandros. Ensinaram-me quase a saber viver. Depois, pegando naqueles ensinamentos, lá fui fazendo a minha vida. Tenho a sorte de esses meus colegas serem muito próximos de mim, de continuarem a dar-me opiniões – queremos muito fazer um espetáculo juntos, um dia destes! O Herman dá sempre uma opinião sobre o meu trabalho: deu sobre o Lip Sync, sobre o Terra Nossa… Agradeço sempre que eles estejam próximos de mim e me vão ajudando. Mas trago muito boas recordações dessa altura. Eu gostei muito de fazer o programa, apesar de o programa ter sido um bocadinho mal-amado na altura, até um pouco pela direção porque trocava horários. O programa tinha muito mais valor do que pareceu ter. As recordações que ficaram, para além do programa, foram da nossa convivência, com muito trabalho em cima e não tão felizes porque o programa andava de um lado para o outro. Ainda assim, divertíamo-nos imenso fora das câmaras. Tenho muitas saudades dos almoços e dos jantares! (risos)

“O improviso é um ato de coragem!”

Há projetos novos na calha? Novos espetáculos? Um regresso à rádio…?

Em relação à rádio, eu gostava imenso! A Rádio Comercial é, como eu costumava dizer, uma viagem para Sydney: é uma chatice termos de acordar àquela hora, é uma chatice pegar nas malas, mas depois de lá chegar é ótimo! É um bocado assim que eu vejo (risos). É mesmo chegar a Sydney! Parece ridículo eu dizer isto, mas sinto mesmo que aquilo é uma família. Todos são muito amigos e muito unidos. Então, trabalhar lá foi espetacular e queria voltar muito rapidamente. Só não voltei ainda porque não tenho vida para voltar. O Terra Nossa exigiu que eu andasse sempre a gravar fora de Lisboa, a digressão com O Pior Espetáculo do Mundo também… por isso, não me sobram dias para estar na rádio. Mas assim que acalmar, queria voltar.  Vamos ver o que surgirá! (risos)

Partilhar Artigo: