Revista Rua

2018-05-03T19:06:12+00:00 Opinião

O cinema francês (III)*

Cinema
João Palhares
João Palhares
3 Maio, 2018
O cinema francês (III)*

Durante a Primeira Guerra Mundial, depois de Méliès ter erguido as fundações e inventado o conceito de estúdio que faria a fortuna e os sucessos de Léon Gaumont (com o estúdio Gaumont) e Charles, Émile, Théophile e Jacques Pathé (com a companhia Pathé), de Alice Guy e Louis Feuillade terem assumido cargos de directores artísticos da Gaumont, elevando a França a maior potência cinematográfica do mundo, e de Max Linder, Émile Cohl, Abel Gance ou Maurice Tourneur terem iniciado as suas carreiras no cinema, a França vira palco de batalha na frente ocidental e vai perdendo gradualmente o seu estatuto de capital do cinema para os Estados Unidos (para onde vão Alice Guy, Maurice Tourneur e Max Linder, por exemplo), junto aos países da Tríplice Entente, que combatem os Impérios Centrais na Europa.

Até à estreia de Hiroshima, meu Amor, em 1959, e durante a realização de filmes como J’Accuse (1919) de Abel Gance, A Grande Ilusão (1938) de Jean Renoir ou Fugiu um Condenado à Morte (1956) de Robert Bresson, eram óbvias as grandes feridas que os dois conflitos mundiais tinham infligido à França, óbvia a obsessão temática pelo que acontecia nos escombros da batalha, que foram cenário do combate pela sobrevivência e do combate pela memória colectiva. Renoir e Feuillade serviram o seu país na Primeira Grande Guerra, Henri Langlois e Lotte Eisner salvaram centenas de filmes da destruição durante a ocupação alemã de Paris, no final da Segunda Guerra. Eisner escapou mesmo de um campo de concentração, depois de ter fugido da Alemanha, passando o resto da guerra sob nome falso, com a ajuda de Langlois, a contrabandear bobines para a comuna de Figeac, controlada pela Resistência.

Renoir e Feuillade serviram o seu país na Primeira Grande Guerra, Henri Langlois e Lotte Eisner salvaram centenas de filmes da destruição durante a ocupação alemã de Paris, no final da Segunda Guerra.

João Palhares

“Tudo o que foi filmado na frente de guerra passou pelas nossas mãos”, lembrou Marcel L’Herbier, realizador de O Dinheiro (1928). “Nós cortávamos, juntávamos e escolhíamos o que podia ser mostrado. Eu vi cenas de horror; vi soldados que tinham sido eviscerados, cortados em dois, decapitados. Esse choque revelou-me que tinha de me tornar um cineasta”. Começava o embate do artista com a barbárie, no cinema, dialéctica de fogo e de fúria que dá origem às vanguardas (do impressionismo às novas vagas, do futurismo ao surrealismo, do expressionismo ao neo-realismo) e é muitas vezes confundida com ostentação, engenho e devaneios da imaginação, mas é antes uma forma de combate perfeitamente enraizada na realidade, física, seja pragmática ou apaixonada, e que vai das manobras virtuosas de Abel Gance aos cortes evasivos dos jovens da Nouvelle Vague, passando pelos canais do Sena em que viaja O Atalante, que são indissociáveis dos canais da mente e nos garantem que o amor é a resposta.

* O Lucky Star – Cineclube de Braga continua a sua aventura pelo cinema francês, dividindo as suas sessões pelas salas de cinema do Braga Shopping (às Terças-Feiras) e pelo estaleiro cultural da velha-a-branca (às Sextas). Encontrem-nos no Facebook e espreitem a programação.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor:

I’m stranger here, myself.

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