Revista Rua

2020-07-21T12:05:38+00:00 Cultura, Música, Personalidades

Clã: “Cada vez que lançamos um disco sentimos que estamos a começar do zero”

Em conversa com Manuela Azevedo sobre o novo trabalho dos Clã, o álbum Véspera.
Fotografia ©João Octávio Peixoto
Maria Inês Neto
Maria Inês Neto9 Julho, 2020
Clã: “Cada vez que lançamos um disco sentimos que estamos a começar do zero”
Em conversa com Manuela Azevedo sobre o novo trabalho dos Clã, o álbum Véspera.

Manuela Azevedo é a icónica voz – rouca e poderosa – dos Clã que, há 28 anos, percorre a estrada ao lado de Hélder Gonçalves, Miguel Ferreira, Pedro Biscaia e, mais recentemente, Pedro Oliveira e Pedro Santos, que vieram tomar o lugar, respetivamente, de Fernando Gonçalves (na bateria) e de Pedro Rito (no baixo). Numa altura em que a banda portuguesa se prepara para subir aos palcos com a promoção do novo álbum, Véspera – um disco lançado em pleno confinamento – sentámo-nos à conversa com Manuela Azevedo, que nos conta o quanto este disco descreve tudo aquilo que “Ninguém quis ouvir”.

De “Sinais” a “Armário”, com letras de Samuel Úria, Capicua e Sérgio Godinho, entre tantos outros, saltam-nos à vista versos poéticos que espelham uma realidade à qual não podemos escapar, mas aprender através dela a arte de nos reinventarmos no meio do caos e da revolução. Depois de um tempo longe dos palcos, a artista descreve-nos a ânsia de voltar ao lugar onde são mais felizes, da vontade de contaminar tudo e todos com este Véspera e do frio na barriga que ainda sentem a cada disco lançado.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Manuela, começamos por perguntar-lhe: como é lançar um álbum numa altura em que o mundo se encontra virado do avesso?

Nós também ficamos com essa questão pendente durante algum tempo e acho que isso aconteceu um pouco com toda a gente. De repente, vermo-nos em casa e o mundo todo a parar, tudo por causa de um vírus que ninguém conhecia, isso deixou-nos a todos verdadeiramente suspensos. Durante algum tempo, enquanto banda, ficamos sem saber o que fazer, mas tivemos de começar a reagir, para que pudéssemos sair daquele primeiro impacto paralisante. Tínhamos a hipótese de manter o contacto com quem segue o nosso trabalho, alimentando com coisas que já tínhamos feito, ou usar aquilo que tínhamos nas mãos: um disco novo. Parecia absurdo não pegarmos nele, porque era o mais urgente para nós. Tinha era a grande desvantagem de não sabermos quanto tempo iria demorar até subirmos aos palcos, porque, mais do que a promoção, o importante é mesmo viver as canções com o nosso público, em palco, e não sabíamos quando é que isso seria possível. Para nós era estranho lançar um disco e não o poder defender em cima de um palco, mas por outro lado era demasiado absurdo não o partilhar com as pessoas, principalmente por ser um disco que, embora não tenha sido feito com esse propósito, tinha muitas coincidências com aquilo que estávamos a viver. Pareceu-nos que era quase obrigatório lançá-lo, mesmo sabendo que não iria ser nas condições ideais, mas que nos ia obrigar a reinventar e a descobrir outras maneiras de o fazer chegar às pessoas e de o sentirmos presente nos nossos corpos.

Tínhamos um álbum prestes a sair em janeiro, mas o confinamento veio alterar os planos iniciais, tendo sido lançado a 22 de maio. De que forma foi recebido pelo público? Como é que tem sido o feedback até ao momento?

Correu muito bem, pelo facto de nos ter obrigado a procurar outras formas de o promover. Nessa descoberta foi muito bom termos ao nosso lado um outro prolongamento dos Clã, que tem a ver com a equipa criativa que trabalha connosco, como o André da Loba, que é responsável pelo design gráfico do disco e de toda a comunicação gráfica desta nova aventura dos Clã e foi um parceiro muito inspirador e precioso. Ajudou-nos, por exemplo, na realização do videoclip do tema Armário, que corealizou com a Joana X – outra pessoa muito importante nesta fase da banda. Houve uma data de coisas que nos obrigaram a pensar de outra maneira, a comunicar estas novas músicas e levar as pessoas a escutá-las, se calhar com uma atenção que, infelizmente, o confinamento obrigou. É sempre bom tirarmos boas lições e ver o lado bom de um cenário negro. É certo que, para muitas pessoas que têm um bom pé de meia e uma casa simpática, o confinamento até pode ter sido uma boa ocasião para pôr as ideias em ordem, arrumar a biblioteca ou ler um livro com mais calma, mas há muita gente que não tem essas condições e viveu horrores. Falo de pessoas que dependiam de trabalhar, que não podiam parar e que estão numa dificuldade de sobrevivência neste momento.

“É certo que, o facto de os Clã terem um ritmo de lançamento um bocadinho lento, obriga-nos a começar quase do zero sempre que lançamos um novo disco, porque nunca temos nada como garantido, o que é bom, porque dá-nos uma certa adrenalina.”

Durante estes últimos meses, a banda procurou não parar e tentou reinventar-se, tanto a nível individual como coletivo. Ainda que separados, criaram vídeos originais, como o Véspera em Casa, o que resultou numa sinergia muito interessante. Qual era o principal objetivo destas dinâmicas?

O Véspera em Casa foi mesmo para matarmos de saudades de tocarmos juntos (risos). Não foi nada muito calculado nem racional, mas o principal motor que esteve por detrás foi essa necessidade de estarmos juntos, de nos sentirmos vivos, de nos mantermos ativos e ligados. Fizemos tantas reuniões pelo Zoom e foi uma coisa maravilhosa! (risos) Mas foi algo intuitivo e pragmático, na tentativa de encontrarmos soluções diferentes.

Fotografia ©João Octávio Peixoto

De que forma, enquanto banda, procuraram corresponder à necessidade de (re)adaptação?

Ainda está a acontecer. É terrível, porque, neste momento, toda a gente que está ligada às artes performativas está a passar por uma grande crise. Nada que não estaríamos já habituados, mas o pior desta crise é a insegurança e a incerteza. É não sabermos em que é que podemos investir, com o que é que podemos contar, se daqui a dois meses volta a surgir uma vaga que nos obriga a parar novamente e a suspender tudo aquilo que viríamos a planear… Acho que essa insegurança é o que está a tornar ainda mais difícil este trabalho que, ainda que se esgote num momento – um espetáculo de uma hora e meia, por exemplo – implica uma grande preparação de ensaios e as pessoas não fazem ideia do quão longo é esse trabalho de bastidores. O facto de não podermos dizer às pessoas: “Vamos trabalhar que o dinheiro não está a chegar agora, mas chegará”. Porque não é garantido, na verdade. Isso está a deixar um grande rasto de destruição, que será difícil de recuperar em toda a área das artes performativas – da música à dança, do teatro ao cinema. Apesar de tudo, estamos com alguma esperança que as coisas possam correr bem (ou não tão mal), primeiro porque o disco teve uma receção muito boa, temos tido um feedback muito positivo e está a vender bem – é certo que as vendas de hoje são ridículas – mas, ainda assim, está no top 10 desde que saiu, o que é muito bom! (risos)

Este álbum surge três anos depois de e seis anos depois de Corrente. Este lançamento não é idêntico aos anteriores, a começar pelo facto de a apresentação do mesmo estar restrita ao cumprimento de uma série de medidas. Concorda?

É certo que, o facto de os Clã terem um ritmo de lançamento um bocadinho lento, obriga-nos a começar quase do zero sempre que lançamos um novo disco, porque nunca temos nada como garantido, o que é bom, porque dá-nos uma certa adrenalina. Também estamos muito contentes com o facto de, apesar de haver um ou outro recuo, em Portugal as coisas terem sido controladas e temos conseguido não ter nenhuma crise terrível no Sistema Nacional de Saúde. O desconfinamento está a ser feito e as pessoas estão a regressar à normalidade com alguma segurança. Acho que, apesar de todos os alarmes mediáticos, por aquilo que eu vejo à minha volta, as pessoas estão muito conscientes daquilo que devem fazer e de todos os cuidados que devem ter. No que diz respeito aos espetáculos, com base na experiência que eu tive, com o concerto dos Clã em Almada e com os espetáculos do Deixem o Pimba em Paz – que aconteceram em salas muito grandes – não há sítio mais seguro para se estar do que numa sala de espetáculos, porque são tantos os cuidados. Primeiro, temos de perceber que as pessoas quando vão a um espetáculo vão para estarem atentas e concentradas e não, propriamente, para estarem a abraçar toda a gente que está ao lado. A entrada no recinto é feita com todos os cuidados e antecedência, há percursos no chão até à sala… é tudo muito controlado. E o mesmo acontece com os próximos concertos dos Clã. Mesmos nos bastidores, temos de estar todos de máscara e a temperatura é controlada à entrada… portanto, se há sítio seguro nos dias de hoje é a trabalhar no palco ou a assistir a um espetáculo.

Fotografia ©João Octávio Peixoto

Apresente-nos este Véspera. Percebemos que simboliza o dia que antecede algo que vai acontecer, mas qual é o seu propósito?

Exatamente, até porque essa era a sensação que sentíamos em muitas canções, mesmo antes de terem letra. Havia sempre um alimento que lhes causava uma espécie de ameaça e essa sombra que cria uma certa ansiedade tem a ver com aquilo que sentimos, por exemplo, no dia antes a um exame, a um concerto ou na véspera de nascer uma criança. É mesmo essa sensação de véspera.

E de esperança também?

Sim… e não. É uma certa ansiedade que pode ser de esperança, de incerteza ou de uma coisa que te convoca a arriscar e a mostrar aquilo que tu vales. Portanto, entra o caos e a revolução, mas principalmente essa sensação de expectativa, em que estás tranquilo, mas sabes que serás convocado para algo que te vai fazer mudar as coisas.

“Há muitas coisas a mudar no mundo, algumas para pior. A emergência climática que vivemos e que nunca mais tem remédio é um exemplo. Não se vê ninguém preocupado com ela a sério, principalmente os governantes que têm mais poder para mexer nas coisas de uma forma mais definitiva. Esse crescendo de ameaças e de sinais de alarme que vamos sentindo à nossa volta acabou por contaminar todas as músicas.”

O que é que procuravam, acima de tudo, explorar neste disco?

Primeiro, tinha a ver com essa sensação de como nos sentimos no mundo, nestes últimos anos. De certa forma, fruto da idade e também da noção de ser quase inevitável não nos questionarmos sobre o que é que vai acontecer amanhã. Há muitas coisas a mudar no mundo, algumas para pior. A emergência climática que vivemos e que nunca mais tem remédio é um exemplo. Não se vê ninguém preocupado com ela a sério, principalmente os governantes que têm mais poder para mexer nas coisas de uma forma mais definitiva. Esse crescendo de ameaças e de sinais de alarme que vamos sentindo à nossa volta acabou por contaminar todas as músicas. No meio disto tudo, o que é que tu fazes: isolas-te? Deprimes? Afastas-te? Não. O que te apetece, apesar do medo, é continuar a fazer aquilo que tu fazes, a produzir coisas bonitas, a criar coisas novas, a fazer filhos e a amá-los, a entregar-te às paixões e a tudo aquilo que nos define da melhor maneira.

Considera, então, que não poderia ter sido lançado em melhor altura?

Eu acho que até podia, porque se tivesse sido lançado em janeiro ia fazer todo o sentido e ia ter a mesma ressonância. Agora, claro que este caso prático e esta ilustração tão concreta daquilo que estamos a viver com a pandemia acabou por tornar este disco ainda mais premente e necessário.

Fotografia ©João Octávio Peixoto

Curiosamente, o álbum está repleto de temas que em muito descrevem a atualidade. Ouvindo o tema “Sinais”, por exemplo, concorda que estes versos de Samuel Úria em muito descrevem aquilo que estávamos (e estamos) a viver?

Sim. Aliás, lançámos “Sinais” e logo depois o nosso antigo baixista (Pedro Rito) mandou-nos uma mensagem a dizer: “Esta é a melhor manobra de marketing” (risos). Porque tínhamos versos como “É o começo do fim” ou “Ninguém lê os sinais” e a sensação que esta pandemia nos dá é que é o princípio do fim de algumas coisas. Há também uma outra canção, com letra da Regina Guimarães, em que ela quis muito escrever uma homenagem aos mais novos. Chama-se “A Arte de Faltar à Escola” e nós ficamos mesmo felizes quando recebemos a letra, porque, por um lado, é uma forma de dar mais atenção ao trabalho que os mais novos têm feito, ao manifestarem-se nas ruas e, ao mesmo tempo, puxar-nos as orelhas a nós (adultos), porque deveríamos ser nós no lugar deles, a exigir essa atenção para o planeta. Tenho muita esperança nos mais novos, mas os obstáculos serão muito maiores, por todo o ruído envolvente, por toda a violência que tem subido de tom e que, mesmo politicamente, é assustador.

Temos dez canções e vários artistas portugueses, convidados a dar letra a estes temas. Falo de Samuel Úria, Capicua e Sérgio Godinho, entre tantos outros. Como é que foi trazer todos estes artistas para a concretização do álbum?

Há uma espécie de casting quase natural. Os álbuns são todos diferentes, mas no caso do Véspera, a não ser na canção “Pensamentos Mágicos” – que era uma letra do Carlos Tê e que já estava na gaveta há muito tempo, à espera de música – todas as outras canções já estavam prontas, com a música feita e arranjo definido. Foi a partir da música que fizemos esse casting. Em alguns casos, fomos buscar parceiros que já são “da casa”, como o Carlos Tê, o Sérgio Godinho, o Samuel Úria ou o Arnaldo Antunes. No caso da Capicua, foi a primeira colaboração que fizemos com ela e teve muito a ver com o facto de a primeira canção que lhe mandamos, “Armário”, ter, em termos sónicos, alguma afinidade com aquilo que é o trabalho dela. Pareceu-nos logo que poderia ser um território interessante para partilharmos, porque somos grandes admiradores da Capicua e da sua escrita, não só a título próprio, mas também as letras que ela vai escrevendo para outros artistas. O que nos agrada especialmente nela – e que é comum com o Samuel Úria e com outros letristas também – é ser uma amante das palavras. É uma verdadeira artesã da escrita e correu tão bem que acabamos por desafiá-la para uma outra canção e aí já foi um desafio maior, mas pareceu-nos que aquele ambiente cósmico poderia ser um desafio interessante para ela. Ela gostou muito e escreveu uma das minhas canções favoritas deste disco, que é a “Tempo-Espaço”.

“Estou muito ansiosa e motivada com este regresso aos palcos. Com algum nervoso miudinho, é certo, porque o facto de só podermos ensaiar juntos depois de uma certa segurança fez com que o número de ensaios não fossem quantos queríamos. Sentimo-nos um bocadinho “verdes”, mas é bom, dá-nos um nervosismo bom para subirmos a palco.”

Falando, especificamente, em “Armário”, este tema foi lançado em plena pandemia e, curiosamente, voltava a estar intimamente relacionado com a realidade. Concorda?

Sim. O lançamento deste tema não estava sequer nos nossos planos, mas foi mesmo isso. Olhamos para a canção e pensamos: “É isto que estamos a viver agora”. Tínhamos de o partilhar com quem segue o nosso trabalho. Claro que podíamos ter feito mais dinâmicas, mas entre isso e pegarmos numa canção que tinha tanto a ver com o que estávamos a viver, trabalhando através dela um objeto artístico valioso, pareceu-nos um testemunho de partilha mais precioso. Acho que é importante, quando damos alguma coisa a quem segue o nosso trabalho, darmos algo com qualidade.

Fotografia ©João Octávio Peixoto

O álbum anterior, , acompanhou uma dinâmica diferente, na qual os Clã surgiam num musical dedicado aos mais novos. O mesmo já tinha acontecido em Voador.  Como é produzir para um público mais jovem?

A nossa primeira experiência com os mais novos foi com o disco Voador e foi das experiências mais inspiradoras que tivemos. Foi uma injeção de energia e aprendizagem para a banda. O convite já tinha sido feito há muitos anos, pela equipa das curtas metragens de Vila do Conde e, em 2010, era para fazermos um espetáculo que iria inaugurar uma programação chamada Estaleiro. Eles queriam promover um espetáculo para os mais novos, justamente para começar a chamar o público mais jovem ao teatro, ao cinema e às artes performativas. Na altura pensamos fazer um espetáculo baseado em repertórios que já existiam, de outros artistas, mas também queríamos experimentar ter canções originais. Falamos com a Regina Guimarães, que era uma escritora com quem já tínhamos colaborado e que escreve para crianças de uma maneira que nós (banda) gostamos muito: tratando as crianças como elas merecem. São de facto cérebros muito mais ágeis e livres do que os nossos (risos). O trabalho da Regina com o Hélder correu tão bem que esse espetáculo, que estreamos em 2011, em Vila do Conde, era só feito com canções originais, ainda nem gravadas nessa altura. Foram três concertos esgotados, cheios de miúdos na plateia e foi a loucura. Correu mesmo muito bem e gostamos tanto dessas canções que fomos para estúdio gravar o Voador. Lançamos o disco e tivemos uma digressão de quase dois anos e foi uma maluquice boa (risos). Já o foi um desafio lançado pelo Nuno Carinhas, que tinha visto o disco Voador na Casa da Música, tinha adorado a música e as letras e, como ele queria muito fazer uma criação para a infância, desafiou-nos e nós, obviamente, voltamos a bater à porta da Regina. O Nuno, embora não nos tenha dado nenhum tema em concreto, gostava que este espetáculo pudesse atrair os mais novos para o que é o teatro, não só enquanto experiência artística, mas para a própria casa de teatro. A construção do inspirou-se muito nisso e foi um processo de criação maravilhoso.

Chegamos ao lançamento deste Véspera e os Clã preparam-se para seguir para a estrada para o promoverem. De que forma descreve a fase atual dos Clã?

No ano passado fomos surpreendidos com a necessidade de alterar a formação da banda, porque, quer o Pedro Rito (baixista) quer o Fernando Gonçalves (baterista) estavam entregues a outros projetos que exigiam deles uma disponibilidade muito grande. Íamos começar a gravar um disco novo e eles não iam ter tempo para isso, porque ao fim de tanto tempo connosco já sabiam o quanto os Clã exigem e o tempo que é necessário. Fomos à procura de substitutos, que na altura até pensávamos que seriam apenas para atuarem em dois concertos, mas foram tão bons que acabaram também por ficar e gravar connosco o Véspera. São o Pedro Santos (baixista) e o Pedro Oliveira (baterista).

“Há sempre coisas que nos desafiam, coisas novas para fazer e para descobrir. Quando sentirmos que essa urgência de experimentar coisas ou o gosto de estar envolvido na construção de um disco não existir…  aí acabamos. Porque aí já não terá graça nenhuma.”

Nesta enorme viagem da banda ao longo dos últimos 28 anos, certamente guardam histórias que não esquecem. Gostaríamos de perguntar à Manuela: ainda se lembra do primeiro concerto dos Clã? Que memórias guarda do começo?

(risos) Lembro-me muito bem. A banda começou em novembro de 1992, mas antes disso já tínhamos tido alguns ensaios. O Hélder foi quem juntou esta gente toda. O Pedro Rito era aluno dele, de baixo, e o Miguel e o Biscaia eram alunos de aulas de conjunto de jazz. O Fernando era irmão dele e, portanto, já era próximo. Eu tinha estudado música com o Hélder nos nossos tempos de adolescência e já tínhamos tocado juntos algumas vezes em bares. Já não falava com o Hélder há muitos anos e, um dia, quando estava a acabar o curso de Direito em Coimbra, ele ligou-me a dizer que estava a formar uma banda e que estariam à procura de uma voz. Eu lá experimentei e eles gostaram logo de mim, embora eu tenha sido um verdadeiro desastre no primeiro ensaio (risos). Em 1993 passamos o ano a ensaiar e a gravar algumas maquetes e no início de 1994 fizemos uma primeira série de concertos, começando no Meia Cave, no Porto. Passamos por imensos bares que não sei se ainda existem hoje em dia na Ribeira do Porto. Fomos correndo pequenas salas para ganhar algum endurance para mostrarmos quem éramos e o que fazíamos. Depois conseguimos um contrato com a EMI, começamos a gravar e ficamos com o disco pronto no final de 1995, só que tivemos de aguardar por espaço editorial até ao dia dos namorados do ano seguinte. Foi muito trabalho de preparação até termos um disco cá fora.

Há algum momento que não esquece ou um álbum que, para a Manuela, tenha um carinho (ainda) mais especial?

Isso é difícil de dizer, mas, por exemplo, o disco Lustro teve uma digressão muito longa e muito celebrada, porque também foi um álbum com muita visibilidade, vendeu muito bem e tinha canções que passavam muito na rádio. Como teve muita estrada, ficamos muito “musculados” e estar em palco era a loucura. Há um concerto desta digressão que ficou para sempre nas nossas memórias, por várias razões. Por um lado, foi no Festival Vilar de Mouros e vimos um concerto de Neil Yong absolutamente histórico. Por outro, nesse dia estava a chover torrencialmente e o nosso concerto aconteceu sobre chuva. Para todos os meus colegas foi um pesadelo, porque estavam todos a afastar os instrumentos e a recuar, sempre com chuva a cair nos pedais e nos teclados, mas eu, que posso “molhar” a minha voz à vontade, lá fiquei e foi dos concertos mais incríveis que experimentei. Cantar à chuva é mesmo uma experiência maravilhosa, principalmente porque à nossa frente tínhamos uma multidão que não arredou pé.

Fotografia ©João Octávio Peixoto

Podemos considerar que, em 28 anos, não traçamos apenas o vosso percurso, traçamos também o da música portuguesa. Sempre procuraram preservar o vosso registo musical ou tentam também acompanhar a tendência da música portuguesa?

Na verdade, quando nos dizem que nós temos uma marca muito particular, nós ficamos um pouco confusos, porque não é isso que, de certa forma, procuramos fazer (risos). Há artistas que o fazem muito bem, porque têm uma marca autoral e sónica tão forte que se mantém. Mas, no nosso caso, gostamos de experimentar coisas muito diferentes e ao longo dos discos fomos variando muito em termos sónicos e de composição. Claro que há elementos que acabam por marcar o nosso trabalho. Um aspeto fundamental é o facto de termos sempre o mesmo compositor e do traço musical do Hélder que, mesmo que se reinvente, tem muita identidade. Somos uma banda de rock com dois teclistas, o que não é muito comum, mas a procura por essas referências sonoras acaba por tornar os trabalhos dos Clã um pouco diferentes e mais distintivos. Hoje podemos ouvir coisas muito diferentes, temos artistas pop puros, temos hip hop muito bem feito e temos até Fado a ser reinventado. Uma das coisas que eu acho que é importante e que mostra algum sinal de confiança no futuro da música portuguesa é o facto de existir muita gente nova a criar com escritas em português. Estamos mais atrevidos a usar a língua e a falar de coisas muito diferentes.

Os Clã arrancam em breve com alguns concertos de apresentação do novo disco. Estão motivados para percorrer a estrada com este Véspera?

Estou muito ansiosa e motivada com este regresso aos palcos. Com algum nervoso miudinho, é certo, porque o facto de só podermos ensaiar juntos depois de uma certa segurança fez com que o número de ensaios não fossem quantos queríamos. Sentimo-nos um bocadinho “verdes”, mas é bom, dá-nos um nervosismo bom para subirmos a palco.

São quase 30 anos de Clã na estrada. O que é que falta ainda conquistar?

Ah… ainda falta tanta coisa! Cada vez que lançamos um disco sentimos que estamos a começar do zero e que somos totalmente desconhecidos e, em certo sentido, isso é mesmo verdade, porque agora há uma nova geração de público, que certamente nem eram nascidos aquando o primeiro disco. A maneira como as pessoas hoje se relacionam com a música é muito fragmentada, feita de pedaços que ouvem no Spotify ou no YouTube. Há pouca informação profunda sobre história da música e dos discos que saem. Por isso, é muito complicado termos a certeza que o nosso trabalho chega a quem está interessado em ouvir-nos. Mas a música, propriamente dita, nunca acaba. Há sempre coisas que nos desafiam, coisas novas para fazer e para descobrir. Quando sentirmos que essa urgência de experimentar coisas ou o gosto de estar envolvido na construção de um disco não existir…  aí acabamos. Porque aí já não terá graça nenhuma.

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