Revista Rua

Clara Não: “Quem tem medo do feminismo é porque está com o ego ferido”

Numa altura em que lança o seu primeiro livro, saltando do Instagram para o papel, a ilustradora Clara Não está em entrevista à RUA.
Clara Não fotografada na Rota do Chá, no Porto ©Nuno Sampaio
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira5 Agosto, 2019
Clara Não: “Quem tem medo do feminismo é porque está com o ego ferido”
Numa altura em que lança o seu primeiro livro, saltando do Instagram para o papel, a ilustradora Clara Não está em entrevista à RUA.

Clara Silva, mais conhecida como Clara Não, é uma jovem ilustradora que promete transformar os problemas em risadas de amor-próprio. Com desenhos com algum tom humorístico, mas sério, Clara vai falando das temáticas que nos ocupam o quotidiano, sobretudo na vida das mulheres. Feminismo, justiça social, igualdade de género são algumas das principais temáticas abordadas, sem esquecer os desabafos sobre as relações amorosas. Com um percurso em expansão, Clara Não assina agora o livro Miga, esquece lá isso!, disponível nas livrarias de todo o país.

Em primeiro lugar, gostaríamos de a conhecer melhor. Como se apresentaria?

Sou ilustradora, escrevo umas coisas e estou inscrita no ginásio… mas só estou inscrita (risos)

Como é que escolhe este percurso?

Foi acontecendo. Eu, quando era mais nova, achava que ia ser professora de português. Depois, quis ser pediatra. Na altura de escolher realmente, fiquei indecisa porque também gostava muito de artes – as minhas disciplinas favoritas eram Físico-Química e Artes Visuais. Um dia, o meu Diretor de Turma, que era também o professor de Educação Visual, disse que eu podia ser designer. Lembro-me de ter perguntado: “O que é isso?” e ele me ter respondido que era basicamente fazer logótipos, como o da Coca-Cola. Na altura, os meus pais não me queriam deixar ir para um curso de Artes – porque a minha irmã já estava na área e eles estavam cheios de receio. No entanto, acabei por ir, mas só decidi duas semanas antes porque, até lá, sempre pensei deixar as artes para um hobby. Fui então para o curso de Design e achava que ia ser designer de interiores ou designer gráfica. A minha irmã é arquiteta e dava-me sempre as maquetes quando já não precisa delas e eu mobilava. Na FBAUP comecei a fazer Design de Comunicação, que é muito abrangente, e depois comecei a fugir para as Artes Plásticas por causa das optativas, como cerâmica, técnicas de impressão, têxteis… agora isso vê-se tudo no meu trabalho.

Clara Não ©Nuno Sampaio

Como surgiu então este projeto Clara Não?

Quando saí da faculdade, comecei a perceber que gostava mais de ilustração e queria fazer daquilo alguma coisa – não necessariamente que fosse um emprego, porque eu achava que isso era muito irrealista na altura. Decidi então criar um nome, para fazer uma página de Facebook, que era o mais importante em 2015 (risos). Fiz uma lista de nomes para trocar o meu apelido porque se pesquisarmos “Clara Silva” aparecem imensas. Fiz então uma lista e comecei a cortar as opções que não gostava, dizendo “Não, não, não”… No fim, pensei: “Não!”. No início era mais pela brincadeira semântica de poder dizer “Clara não gosta, Clara não vai…”. O meu trabalho não era tão reivindicativo nessa altura. Acho que com o tempo fui ganhando mais coragem para falar das coisas. Anteriormente estava mais focada na questão das texturas, das formas e só depois comecei a escrever frases. Tinha estado em Erasmus na Holanda e foi lá que tive Escrita Criativa, em inglês, começando assim a escrever crónicas e textos a brincar com palavras. Fazia as texturas e criava uma frase. Ainda às vezes faço isso, mas mais a pensar na parte da mensagem. Isso foi depois derivando cada vez mais quando percebi que podia pegar na mensagem e dar-lhe um impacto maior. Também me fui apercebendo de mais coisas à minha volta, estive mais atenta e fui perdendo o medo. Eu como designer era muito mais rígida e os escritórios de design não me faziam feliz. Agora libertei-me!

“Eu pretendo dar voz às pessoas. Às vezes, há coisas que nós não somos capazes de dizer porque achamos que somos só nós ou porque é tabu”

Que tipo de mensagens pretende transmitir com este trabalho? Que tipo de temáticas pretende explorar?

Importa-me explorar o dia a dia das pessoas. Trabalhar coisas que realmente nos digam algo. Que esse “algo” seja comum a uma comunidade. Especialmente focando-me no feminismo e no amor-próprio. E mesmo no direito ao sentimento porque eu noto que as pessoas pensam que não podem estar tristes, que não podem estar nervosas ou ansiosas. É necessário perceber de onde é que a ansiedade pode vir também. Essas questões são importantes.

Considera que estas temáticas tão quotidianas são a razão da sua proximidade com o público?

Eu pretendo dar voz às pessoas. Às vezes, há coisas que nós não somos capazes de dizer porque achamos que somos só nós ou porque é tabu – principalmente a nível de sexualidade feminina, porque na parte da sexualidade masculina é muito mais fácil falar abertamente graças aos media e aos filmes. O que eu pretendo mesmo é fazer com que as pessoas sintam que não estão sozinhas. Porque eu também achava que estava sozinha até começar a fazer as ilustrações e percebi que realmente não!

É nessa lógica que surge o livro Miga, Esquece lá isso!?

O Miga (como eu lhe chamo) aparece mesmo como um objeto que as pessoas podem abrir e sorrir. O livro tem quatro capítulos que vão de encontro aos tais temas que estamos a falar. Tem uma espécie de narrativa porque é como se fosse uma cronologia: primeiro, estamos chateadas por causa do ex estúpido; depois, há aquela relação que correu bem, que mesmo apesar de não querermos de volta, dá saudades; depois, há o manifesto de uma mulher independente, que vem após percebermos que não precisamos de alguém para sermos mais do que aquilo que somos. Confesso que, em 2015, tive um desgosto, que me fez pensar nisto tudo e começar a desenhar; no fim, o Miga dá-nos a perceber a magia das próprias palavras, como no exemplo “as nuvens são ovelhas de patas para o ar”.

Este lançamento do livro foi um desafio?  Como tem corrido?

Está a correr muito bem! Foi um desafio fazer este livro porque é completamente diferente ter uma plataforma no Instagram e ter um livro, que não tem comentários, que não tem likes (risos). Mas sempre foi uma coisa que eu quis fazer. Eu sou uma pessoa de livros! Nunca fui de adorar bandas ou celebridades. Sempre fui mais focada em escritores e em comprar os seus livros. Cheguei ao cúmulo de comprar imensos livros por mês, uma coisa louca! Depois tive de me acalmar. Quando me convidaram para fazer o livro, eu pensei que não fosse verdade (risos). Sempre tive muita calma, apesar de ser uma pressão muito grande para mim. Não podia absorver essa pressão porque eu queria fazer o livro de forma cautelosa. O que eu fiz foi recolher todos os cadernos onde eu já tinha desenhado, desde sempre, e ver que temáticas tinha lá e que temas é que me faltavam. Praticamente nada do que está no livro está no Instagram – apenas umas dez páginas e, mesmo assim, foram feitas de novo e modificadas em termos de aspeto. Foi um desafio porque quis criar um objeto que as pessoas tivessem na mesinha de cabeceira, que lhes fizesse sorrir, nem que fosse um bocadinho. E isso é um desafio muito grande!

Se estivermos a ler este livro, estamos exatamente a ler a Clara?

Sim, isto sou eu! Há coisas que aconteceram mesmo na minha vida. São coisas que fazem parte de mim.

©Nuno Sampaio

Considera-se uma pessoa feminista?

Sim, sem dúvida! Eu acho que o feminismo é necessário para toda a gente porque não funciona só para as mulheres. Para funcionar tem de haver os homens, porque senão estamos a lutar uns contra os outros na mesma. É a única forma de atingirmos uma justiça social. O feminismo não faz mal a ninguém. Quem tem medo do feminismo é porque está com o ego ferido. Ponto. Porque é simplesmente dar oportunidade a todas as pessoas. É justiça social. Não desvalorizar por causa de género. Não desvalorizar pela nacionalidade, pelo sítio onde nascemos. É mesmo uma questão de igualdade social e de opção. Chama-se feminismo – o nome é que às vezes faz confusão às pessoas – porque começou por ser impulsionado pelas mulheres. O que o feminismo quer fazer é pegar na mulher e pô-la no mesmo lugar que o homem, nem mais para cima, nem mais para baixo. Essa confusão toda que há é porque é muito mais fácil não querer perceber do que investigar realmente o que é. E é algo que é mesmo preciso descobrir, para as pessoas serem mais felizes. Um dia que eu tenha uma filha, eu quero não ter que lhe explicar porque é que ela tem de fazer coisas diferentes ou ser coisas diferentes por ser mulher. E mesmo ao longo da arte, as mulheres sempre foram postas de lado – isto voltando muito atrás. Primeiro porque não podiam assistir a aulas de modelo nu, não podiam ver homens nus, enquanto os homens podiam à vontade. Depois, quando faziam autorretratos e se representavam, elas tinham de mostrar que sabiam pintar, claro, mas com regras de coro: não podiam sorrir, não podiam gesticular… quer queiramos, quer não, estas coisas vêm muito até nós. Quantas vezes eu ouvi “Ó menina, fecha as pernas!”, “Ai não vás com uma saia tão curta”, “Não podes sair assim na rua às 3h da manhã!”. Porquê? Porque automaticamente, a maneira como a mulher se apresenta vai dizer a maneira como ela é e temos de lidar com a pureza. Isso vem sempre ao de cima, mesmo entre as mulheres. Somos capazes de preferir um médico a uma médica. Eu tive de fazer uma operação ao nariz e estava em dúvida entre um médico ou uma médica, em hospitais diferentes. Fiz consulta com os dois e, depois, fui pesquisar o currículo de cada um. Acabei por escolher a mulher. Eu acho que as pessoas têm de se obrigar a não ser preconceituosas. Claro que não estou a dizer para escolher obrigatoriamente a mulher. O que eu acho é que, numa situação em que um homem e uma mulher estejam na mesma posição de emprego e de estatuto, não se deve desvalorizar a mulher. Devem ganhar o mesmo e devem ter as mesmas oportunidades! Felizmente, isso está a alterar-se. Eu, por acaso, não sou contra a questão das quotas. Acho que as quotas podem mostrar a outras mulheres que podem chegar ali.

Clara Não fotografada na Ó Galeria, no Porto ©Nuno Sampaio

O livro é uma forma de tentar perpetuar as suas ideias, a sua maneira de pensar?

Sim… e de abrir discussão! Eu não quero obrigatoriamente que as pessoas concordem comigo. Quero que elas pensem e que o assunto não morra. Porque se o assunto morrer, aí é que não chegamos a lado nenhum.

Uma última pergunta: a Clara tinha o sonho de ter um livro e realizou-o. E agora, que sonhos faltam cumprir-se?

Já estou a fazer algumas coisas, felizmente. Estou a trabalhar com mais associações e entidades que promovam a igualdade de género. Quero ainda fazer mais campanhas com visibilidade, abordando esses mesmos temas porque a quanto mais gente chegarmos, melhor. Quero fazer mais livros, continuar a desenhar e esperar que um dia o meu trabalho não seja preciso porque já estará tudo bem!

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