Revista Rua

2021-06-04T11:46:45+01:00 Cultura, Em Destaque, Música

Cláudia Pascoal, uma voz de exclamação com sotaque do norte

A artista portuguesa está em entrevista na RUA.
©Nuno Sampaio
Maria Inês Neto27 Maio, 2021
Cláudia Pascoal, uma voz de exclamação com sotaque do norte
A artista portuguesa está em entrevista na RUA.

Tinha o fascínio de trabalhar no pequeno ecrã, mas uma íntima paixão pela música trocou-lhe as voltas. Da conquista do Festival da Canção ao lançamento do primeiro álbum em plena pandemia, Cláudia Pascoal fala-nos do percurso até à Eurovisão e das vontades neste regresso ansiado aos palcos.

Num ato arriscado, mas segura de si, lança o primeiro álbum de originais em março de 2020, apresentando um disco muito feito à sua medida e para o qual fez questão de convidar vários dos artistas que a inspiram para trazerem mais vida e originalidade a esta estreia discográfica. David Fonseca, Tiago Bettencourt, Wandson, Clara Não e até Nuno Markl, são alguns dos nomes que integram este !, um álbum de 12 temas em português, que surge como um reflexo da essência da artista natural de Gondomar.

Começaste o teu percurso ao concorreres a vários concursos e projetos televisivos. A televisão sempre te pareceu um bom “palco” para te dares a conhecer? Sempre tiveste esse fascínio?

A televisão sempre me fascinou muito e em nada tinha a ver com a música. Eu costumo dizer que fui para os Ídolos e para o The Voice Portugal porque tinha, na altura, a ambição de ser apresentadora. Depois de concorrer ao Curto Circuito voltei a esse tipo de programas, porque o que me fascina é mesmo a improvisação, a adrenalina máxima e a quantidade de pessoas envolvidas para uns momentos pequenos acontecerem.

A vertente de entretenimento é uma área que te desperta muito interesse?

Completamente! O entretenimento está ligado ao improviso e isso sempre me fascinou. Nos meus concertos, há muita coisa que é improvisada e há coisas que correm mal, mas eu adoro isso. Adoro quando as coisas correm mal e o ambiente fica muito cringe…é perfeito para mim. Assumo sempre o erro e acho que a minha imagem acaba por ajudar um pouco a não me levarem tão a sério. (risos)

Depois de duas passagens pelos Ídolos e o The Voice Portugal, eis que chega o Festival da Canção, onde o tema que interpretaste leva-te a ganhar o concurso. Como é que foi toda esta experiência?

Foi meio abismal. Enquanto estava no The Voice recebi o convite da Isaura e então fiquei tranquila, porque pensei: “Já tenho planos para os próximos meses”. Sabia que me ia entreter durante uns meses, entre gravações e o concurso em si, mas depois voltava ao trabalho. Mas, de repente, ganhamos! (risos) Nunca pensei que fosse acontecer. Os três meses seguintes foram muito diferentes de tudo o resto, passou a ter uma seriedade gigante e sabia que tinha imensas pessoas com uma expectativa muito alta sobre mim – incluindo a população portuguesa. Tudo passou a ser levado muito a sério, não só por mim, mas por toda a gente que me rodeava e isso também foi um desafio bonito.

©Nuno Sampaio

Que lições tiraste desta experiência?

Foi muito pesado e acho que aprendi muitas lições (risos). Há certas coisas que eu nunca teria feito se fosse hoje, mas acredito que faz parte do percurso. Quando penso nos Ídolos ou no The Voice penso que ainda bem que passei por isso tudo, porque foi uma boa escola para depois chegar ao Festival da Canção. Se não tivesse sido assim, acho que não teria conseguido aguentar a pressão.

Com isto, tornaste-te a representante portuguesa na Eurovisão, em 2018, uma edição muito especial porque acontecia cá (em Portugal). A pressão era maior, uma vez que Portugal era o centro de todas as atenções?

Senti imensa pressão, mas tentei tirar o melhor partido de toda a experiência. Obviamente, tínhamos uma atenção muito focada em Portugal nesse ano, porque o Salvador Sobral tinha ganho a Eurovisão. Mas mal começou avisaram-me logo de que o país que ganha no ano anterior fica muito mal classificado no ano seguinte. Estava focada apenas em cumprir exatamente o que a Isaura queria que eu fizesse, para respeitar ao máximo a atenção dela, e não desafinar – que era essencial para mim. No fim, penso que cumpri isso tudo.

Em 2020 chega o teu primeiro álbum de originais. Um projeto discográfico que conta com várias das tuas inspirações que chamaste para dar vida ao disco: Wandson, Clara Não, Nuno Markl, entre tantos outros. Todas estas pessoas que te acompanharam permitiram dar vida às tuas ideias?

Era essencial e precisava de me sentir confortável neste processo. Tinha sido desafiada pela Universal para criar um álbum em português e na altura não escrevia temas em português, tinha apenas uma ou duas canções. No início fiquei um pouco em pânico, mas percebi que se chamasse mais pessoas para fazerem esta caminhada comigo ficaria mais fácil. Liguei a pessoas que adorava e todas elas aceitaram. Sou uma sortuda. O caminho a partir daí foi muito fluído e todos eles me ajudaram, não apenas na música. O Wandson, por exemplo, o seu trabalho de design gráfico deu origem ao nome do meu álbum. Todas as variantes influenciaram para o projeto final.

É um álbum muito feito à tua medida e cheio de identidade. Consideras que este disco é um perfeito espelho das tuas inspirações e motivações…da tua essência?

Eu queria que fosse exatamente isso e, por esse motivo, demorei muito tempo a criá-lo. Queria que o álbum fosse um reflexo de eu mesma, mas o desafio seria: quem é que eu era na música? Sabia que tinha de ter sentido de humor, ser algo mais descontraído e ter muita cor. Não sabia mais nada. A partir daí fui construindo. A todos os participantes do álbum indicava apenas uma premissa: conhecendo-me, queria que me transcrevessem a partir dos seus trabalhos. Todos eles fizeram isso muito bem. (risos).

Em que é que te inspiraste para a criação deste disco?

Não quero parecer egocêntrica, mas inspirei-me em mim. Queria que tivesse um pouco de tudo o que me caracteriza. Tem músicas mais deprimentes, porque sou depressiva às vezes, tem músicas mais “parvas” porque também eu o sou…e tem muita gente envolvida e sou uma pessoa que tem necessidade de estar sempre com amigos à volta. Queria que as pessoas, ao ouvirem o meu álbum, percebessem quem é a Cláudia. Não há meio termo: ou há coisas muito positivas ou muito tristes, porque eu também sou de pontos e queria que isso se refletisse de alguma maneira.

Contrariamente ao que seria de esperar, o álbum não abre logo com um tema, mas com uma faixa muito particular, gravada com o Nuno Markl. É o reflexo da tua vertente despretensiosa e natural de lidares com a música?

Sempre quis que as pessoas, ao ouvirem o meu álbum, percebessem logo o que vinha daí. Portanto, não poderia abrir com uma canção, porque não se trata de um álbum só de canções. Queria que começasse com uma conversa e pensei: “Quem é a personificação de uma pessoa trabalhadora e que diz coisas muito sérias, mas num tom de brincadeira? O Nuno Markl!” Tenho dois lados: sou muito chata a trabalhar, porque gosto das coisas exatamente como as idealizo na minha cabeça e sou muito perfecionista, apesar de isso não ser uma mais-valia, mas também tenho esse lado de deixar as pessoas à minha volta libertarem-se e queria muito que o Markl desse o seu cunho pessoal.

©Nuno Sampaio

Cantas em português e o teu primeiro disco de originais é um claro exemplo disso. Que importância tem para ti escrever e cantar em português?

Cada vez mais senti-me afastada da música em inglês, porque sentia que era muito fácil. Queria sair desse contexto de pop/jazz inglês e pegar no tradicional, nas minhas origens, e escrever em português. Honestamente, não consigo imaginar-me mais a escrever em inglês, porque há certas coisas específicas que só conseguimos dizer em português, não há outra maneira. Mesmo a minha forma de cantar é diferente e eu gosto muito mais de me ouvir cantar em português.

Lanças um álbum de originais em vésperas de pandemia, o que te impossibilitou de o apresentares como provavelmente desejarias. Como é que foi todo o processo de promoção do álbum, dentro das possibilidades?

Foi uma aposta. Liguei a toda a gente que fazia parte do álbum, mas a verdade é que ninguém sabia o que estava a acontecer. A minha ideia inicial era adiar o lançamento para setembro, mas depois punha-me a pensar: “E será que em setembro (de 2020) já estaria tudo normal?”. Ninguém sabia. Demorei quase três anos a criar o álbum e decidi lançá-lo na mesma. Sabia que ia acabar por aliar o vídeo à música e é algo que eu gosto muito de fazer. Tentei ir criando conteúdos visuais que mostrassem quem é que eu era, dando a conhecer não apenas o meu dia a dia, mas a minha forma de edição e a minha estética. Descobri e aprendi imensas coisas durante a pandemia: aprendi a tatuar, a fazer correção de cor, a editar…apurei coisas que queria fazer há muito tempo. Claro que foi chato, porque queria muito pisar os palcos, mas arranjei alternativas que acabaram por trazer mais intensidade ao meu trabalho.

©Nuno Sampaio

Estás neste momento a preparar um segundo álbum? O que é que te interessa explorar com este novo disco?

Sim, já estou a trabalhar no meu segundo álbum e ainda me faltam lançar alguns vídeos do primeiro. Mas estou a criar novas músicas para que o disco saia para o ano, porque já estou a sentir necessidade de cantar outras canções. Terá mais foco, essencialmente. Agora que já me “descobri” na música, há uma premissa mais focada. Já não é uma apresentação da minha identidade, mas terá mais foco. Por exemplo, na Espalha Brasas ou na Quase Dança falo de coisas até bastante deprimentes, como finais de relações ou o facto de estarmos fartos do nosso parceiro, mas de uma forma divertida. Adoro isso e o álbum andará em torno dessa ideia de comunicar mensagens depressivas, de uma forma descontraída. Falo de coisas banais da vida. Tudo em português.

De regresso aos palcos e novamente com uma agenda preenchida, o que é que podemos esperar para os próximos tempos?

Estamos a fechar algumas datas para ficarmos com uma agenda mais pomposa e estou muito entusiasmada por tocar com a minha banda e a minha equipa, porque das poucas vezes que tive oportunidade de fazê-lo adorei a experiência. Tenho muita sorte em ter uma equipa que é família. Essencialmente, quero focar-me numa carreira que descobri durante a pandemia: realizar videoclips. Estou cheia de projetos que adoro e este ano será muito disso: fazer conteúdos para outros artistas que admiro muito, trabalhar no meu novo álbum e dar concertos.

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