Revista Rua

2019-10-08T14:34:26+00:00 Opinião

Com licença, posso ouvir música?

Música
José Manuel Gomes
José Manuel Gomes
8 Outubro, 2019
Com licença, posso ouvir música?

Desde que assumi o desafio de escrever crónicas para a Revista RUA sobre música que tenho falado um pouco sobre trabalhos discográficos, mas também um pouco sobre a realidade e atualidade: concertos, festivais, iniciativas, enfim, sobre música e sobre cultura até, de uma forma mais generalizada.

Há um evento/iniciativa feita por vários agentes culturais, independentes, em Braga sobre a qual já escrevi em tempos, nomeadamente, a Braga Music Week (BMW). É, sem dúvida, uma iniciativa de louvar e que merece o respeito de todos. Durante uma semana (na verdade é mais do que uma semana), Braga é inundada por música e atividades ligadas à música, com o claro objetivo de celebrar o Dia Mundial da Música que se comemora, anualmente, a 1 de outubro. A BMW só existe porque é precisamente o resultado da junção de vários agentes, que trabalham juntos para criar este momento único, numa cidade que começa a ficar órfã de espaços – culturais ou não – que desenvolvam uma agenda cultural diferente, própria e independente.

Não sou de Braga, mas felizmente tenho uma ligação próxima a esta cidade. Foi lá que me formei no ensino superior, é lá que ainda mantenho alguns bons amigos e é lá que volta e meia vou assistir a espetáculos. Ora, no último dia da BMW aconteceu algo que, mesmo não sendo eu de Braga, não pude ficar indiferente: por mim, por quem organiza, pela missão que tem e, em suma, porque é realmente triste. Se, por um lado, esta iniciativa é feita por agentes culturais, diferentes, e que se unem, por outro, o apoio Municipal é imprescindível; quer no apoio monetário, quer no apoio do licenciamento. Quem organiza eventos sabe que, por vezes, o maior apoio que se pode ter é precisamente na questão do licenciamento. Basicamente, sem licenças não se realiza nada e aconteceu isso.

No último dia da BMW acontece o NAAM MOBILE que consiste em concertos em formato móvel, que deambulam por vários pontos do centro da cidade. Entre carrinhos de compras e colunas de som, há várias bandas a tocar, em confronto imediato com o público. É um dos momentos altos de toda a semana de música. Neste ano, na sétima edição deste certame, a organização não obteve o licenciamento para realizar este NAAM MOBILE, para lá da meia-noite, o que inviabiliza, completamente, sua a realização. A utilização dos centros das cidades para fins recreativos e culturais é um tema algo transversal e, pelo que tenho visto, acabam por decidir quase sempre mal na hora de decidir que iniciativas se fazem e quais não se fazem nos respetivos centros. Sim, há moradores, há o direito ao descanso e a preocupação de desocupar e descentralizar também deve ser tida em conta. Porém, como é que o Município de Braga consegue explicar à organização da BMW e às pessoas interessadas que é normal fazer um São João, uma Noite Branca, em formato adamastor de milhões e que dura três dias (!!!), uma Braga Romana que dura um fim de semana inteiro com gaitas de foles non stop por 72h, e uma noite de três ou quatro concertos – para muito menos gente – não tem o licenciamento pretendido? Como é que para um concerto num santuário da Mariza se arranja licença e para isto não? Qual é o critério?

“São iniciativas como a Braga Music Week que transformam, instigam e valorizam a oferta duma qualquer cidade. Se não se pode fazer barulho no centro de Braga então que haja maior apoio em descentralizar todas as iniciativas e não aquelas que os responsáveis camarários não entendem”

Quase apetece dizer que para se fazer barulho, para lá da meia-noite, no centro de Braga é preciso um de três critérios: vestir-se de branco; tocar gaita de foles vestido de pseudo-romano; tocar concertina. Isto torna-se tudo muito mais grave se pensarmos que Braga quer ser Capital Europeia da Cultura em poucos anos e que os espaços de programação na cidade estão a deixar de o fazer. Nenhuma cidade sem visão e sem entender que a cultura vai além das massas, dos ranchinhos e das camisas brancas, pode almejar, sequer, ser Capital Europeia da Cultura.

Por último, as posições tomadas publicamente pelo Vereador do Turismo de Braga, que afirma que são iniciativas como a BMW que tiram moradores do centro da cidade é pura demagogia e absolutamente desnecessário. Mais do que isso, repito, é triste.

São iniciativas como a Braga Music Week que transformam, instigam e valorizam a oferta duma qualquer cidade. Se não se pode fazer barulho no centro de Braga então que haja maior apoio em descentralizar todas as iniciativas e não aquelas que os responsáveis camarários não entendem, porque estão demasiadamente ocupados a assistir ao rancho da freguesia x ou y ou atrás da secretária durante as oito horas de trabalho.

Falta de critério e falta de visão. Braga e a cultura merecem mais.

Sobre o Autor:
Signo escorpião, sei informática na ótica do utilizador, programador do espaço cultural Banhos Velhos e sou um eterno amante de música, do cinema e do Sozinho em casa.

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