Revista Rua

2020-03-23T14:41:03+00:00 Opinião

Como é que o bicho mexe?

Humor
João Lobo Monteiro
João Lobo Monteiro
23 Março, 2020
Como é que o bicho mexe?
Rodrigo Guedes de Carvalho ©D.R.

Olá, gente. Quem me conhece ou me acompanha neste espaço há três anos (já? Como é que é possível?), sabe que eu não vejo sentido em pedir desejos na passagem de ano. Nem vejo sentido em festejar a passagem de ano. Espero que agora, com isto do coronavírus, todos tenham percebido isso. Ou se isto foi o desejo de alguém, então esse alguém é muito poderoso. E muito estúpido.

Como trabalho na área do marketing e comunicação digital, isto de trabalhar a partir de casa não é grande novidade, nem mudou muito a minha rotina. Só mudou a parte de eu ter muita comida à minha disposição, na cozinha. Portanto, não tenho propriamente muito tempo livre. Ainda assim, tenho algumas considerações a fazer. Não é bem um diário, mas um compilado de coisas que tenho de desabafar sobre esta quarentena, já que não tenho a hipótese de ir lá fora arejar um bocado:

Vídeos e notícias no Whatsapp: mesmo tendo mais tempo livre, o pessoal não se preocupa muito em verificar se as notícias são verdadeiras ou não. O que interessa é encher os grupos de Whatsapp com links. Realmente, se o assunto é saúde, partilhar coisas do bombeiros24.pt é capaz de ser credível. Já o fluxo de vídeos e fotos repetidas corre mais ligeiro do que o próprio vírus. Os produtores de conteúdo viral precisam de trabalhar melhor.

A descoberta de videochamada: não sei se é de eu seguir poucas influencers, mas nunca entrei no Instagram com tanta bolinha a dizer “em direto”. Eu só vejo os do Bruno Nogueira, que só por me ter dado título para a crónica, já valeu a pena. Mas seja em que plataforma for, parece que há outra pandemia, que é a de o povo querer muito falar com pessoas por videochamada. É preciso mesmo vermo-nos todos de pijama? Agora, já nem em casa se pode ser antissocial. São tempos ainda mais complicados para nós.

– Rodrigo Guedes de Carvalho: de vez em quando, desejo que haja assim um atentadozito, sem grandes consequências, só mesmo para termos alguma coisa de interessante para ver nas notícias, e aparecerem notícias de última hora e isso. Infelizmente, isto da Covid-19 é um tema muito guloso, açambarcou tudo, não queria isso – até desconfiaria que a culpa é minha, lá está, se eu fosse pessoa de pedir desejos na passagem de ano. Mas no meio de tudo isto, há um profeta, um salvador, um D. Sebastião: Rodrigo Guedes de Carvalho. O pai de nós todos, com os conselhos que dá. Digo isto sem ironia, gosto mesmo do papel social que ele está a fazer. Dá gosto ver um telejornal assim. Só que como muito povo prefere o estilo CMTV, recuamos ali para o primeiro ponto e proliferam mais as fake news do que o bom senso.

– Lavar as mãos: em 2009, eu tive gripe A. Só descobri depois de a ter tratado, mas tive. Lembro-me que, nessa altura, todos lavávamos muito bem as mãos, com toda a coreografia e tal. Depois, arranjámos coisas melhores e mais sujas para fazer. Agora, voltamos a perceber que realmente é importante lavar bem as mãos. A prova de que o estou a fazer é que tenho a parte de trás das mãos ressequida. A parte de trás das minhas mãos claramente não está habituada, nem preparada, para levar com tanto sabão e tanto esfreganço. A pele da parte de trás das minhas mãos pensa que é a pele do cotovelo, está claramente perdida no meu corpo.

– Não há futebol: não quero escrever muito sobre isto, não quero chorar. Pronto, já estou. Não fui feito para lidar com a falta de futebol no início do verão, muito menos com a falta de futebol no início da primavera. Ainda por cima, não se sabe quando regressa. Ou se regressa. Para uma pessoa com claros problemas de ansiedade, imaginem como eu ando. VOLTAAAAAAA!

– Convivência familiar: além do futebol, a parte mais complicada deste isolamento é só ver o meu sobrinho por vídeo. E não poder estar com o resto da família, só com os meus pais. Mas tem-se passado bem: o meu pai aprendeu a fazer reuniões por videochamada, depois de eu o ensinar várias vezes, e a minha mãe já recolheu muitas receitas para bolos que nunca fará. A evolução disto vai ser acabarmos a jogar ao STOP.

Se tiverem outras preocupações, ou se se identificarem com as minhas, manifestem-se. Se precisarem de ajuda sobre como aguentar ficar em casa, falem comigo, tenho muita experiência nesse ramo. Aguentem-se firmes, vai correr tudo bem. Desde que haja papel higiénico, vai correr tudo bem.

Sobre o autor:
Tenho dois apelidos como os pivôs de telejornal, mas sou o comunicador menos comunicativo que há. Bom moço, sobretudo.

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