Revista Rua

2018-11-08T14:58:34+00:00 Cultura, Teatro

Companhia de Teatro Palabar

A força de um espírito amador
Andreia Filipa Ferreira2 Abril, 2018
Companhia de Teatro Palabar
A força de um espírito amador

Uma desgraça nunca vem só. Cena 5. Ação passa-se na sala da mansão de três andares de um homem russo, que já não é visto há tempo suficiente para deixar os caseiros em alvoroço. O desenrolar da cena mostra-nos algumas das peripécias vividas pela empregada da casa, o mordomo, o cozinheiro e até o jardineiro no momento em que recebem uma visita inesperada. Mas quem será esse visitante? É o canalizador que vem reparar os canos que rebentaram no andar superior

É no pequeno palco do auditório da junta de freguesia de Merelim (São Paio), em Braga, que a Companhia de Teatro Palabar se junta duas vezes por semana, durante duas horas, para ensaiar as suas peças – originais ou de autores consagrados da história do teatro. São, neste momento, quatro os elementos fixos desta associação, conquistando o interesse de novos membros a pouco e pouco. Nesta peça intitulada Uma desgraça nunca vem só, uma comédia escrita por Isabel Fernandes, elemento desde a raiz do grupo, são seis os atores em palco, contando sempre com a preciosa ajuda de Brice Sousa, o encenador responsável da Companhia que também está envolvido com o projeto desde a sua génese. E é seguindo as indicações de Brice que tudo começa.

O aquecimento é feito em palco, ainda despido de grandes adereços. “Abrir a boca, fechar os olhos, fechar a boca, abrir as narinas, fechar os ouvidos, abrir os olhos…”. Brice entoa as ordens, fazendo com que o círculo de atores siga as diretrizes e se concentre, deixando o mundo lá fora correr a seu tempo. Exercícios de respiração e movimentos corporais preparam Isabel Fernandes, Filipa Araújo, Daniela Oliveira, Ricardo Graça, Miguel Cunha e José Monteiro. Nem todos têm formação artística, mas a alma de artista está com eles, mostrando em palco um gosto que os acompanha desde sempre. José é o elemento mais velho do grupo, mas a sua boa-disposição faz com que os anos passem mais devagar por ele. É dele que ouvimos as palavras que definem o espírito da Companhia de Teatro Palabar: “A amizade, a camaradagem, a solidariedade que existe no teatro é revelada muito bem aqui no grupo – e isso passa também para o público. O mais importante é ir para cima do palco, ouvir os outros e gostar de aprender. Fundamentalmente, gostar de aprender com os outros. No fundo, partilhamos experiências de teatro e de vida, porque é aqui que pomos aquilo que trazemos às costas ao longo do tempo. Umas coisas mais pesadas e outras mais leves. E esta troca de experiências, independentemente da idade, é interessante”, conta-nos José, aproveitando para referir que a criação desta Companhia surge após o término de outro grupo à qual pertencia, juntamente com Brice e Isabel.

Recrutando os talentos dos jovens atores (como as artes marciais ou as técnicas musicais) para as peças que levam a palco, seja no próprio auditório que a junta de freguesia de Merelim tão gentilmente cedeu para espaço de ensaio e apresentação, revitalizando uma cultura já perdida na freguesia há mais de 50 anos, seja noutros palcos de eventos promovidos pela Câmara Municipal de Braga, como a Noite Branca e a Braga Romana, a Companhia de Teatro Palabar é um exemplo da vontade de quem ama uma arte tão nobre. O teatro é, para eles, uma fuga ao quotidiano. Um amadorismo que se torna profissional pela determinação e criatividade que acompanha cada peça escrita, cada personagem criada e cada movimento ensaiado.

Em breve, poderemos ver a Companhia de Teatro Palabar apresentar-se no festival Olh’ó Teatro (em julho) e noutras iniciativas teatrais organizadas pelo grupo ou pelo município.

Partilhar Artigo: