Revista Rua

2020-02-13T17:34:02+00:00 Opinião

Contra fundamentalismos, a arte é fundamental

Música
José Manuel Gomes
José Manuel Gomes
13 Fevereiro, 2020
Contra fundamentalismos, a arte é fundamental
Filipe Sambado ©Diogo Vasconcelos

O texto deste mês vem no seguimento dum episódio, mais ou menos polémico, e que me fez pensar sobre o verdadeiro papel que a música e a arte devem ter. No dia 14 de fevereiro havia um concerto agendado para o Hard Club no Porto do artista Filipe Sambado. Esse concerto acabou por ser cancelado, pelo próprio artista, que agendou novo espetáculo, no mesmo dia, mas noutro local na cidade do Porto.

Dias antes, o Hard Club, local muito conhecido na invicta pelos inúmeros espetáculos e eventos que recebe, acolheu um comício dum partido político, recém-eleito com representação parlamentar, e que é bastante conectado a movimentos de extrema-direita. Não vou referir o nome, já todos devem saber de qual falo. Circulou, aliás, um vídeo com imagens deste encontro dos militantes do partido, onde era visível a saudação nazi, por parte de algumas pessoas durante o hino nacional. Ora, num gesto de protesto contra este episódio, o artista, decidiu alterar, então, o local do espetáculo.

Nas redes sociais as opiniões dividiram-se – como de resto já é norma – e alguns dizem ser uma campanha de marketing, de promoção do artista. Outros, consideram a decisão acertada e que este artista em questão fez bem em não compactuar com um local que acolhe eventos de extremistas. Muito provavelmente eu teria feito a mesma coisa que fez o Filipe Sambado, sobretudo porque não me revejo, aliás abomino – qualquer tipo de ideologia ou manifestação de extrema-direita. Porém, analisando friamente o episódio, a direção do Hard Club Porto mais não fez do que alugar um espaço a um partido que, gostemos ou não, teve votos suficientes para estar no parlamento. Pagando o aluguer da sala, têm o mesmo direito que outro partido ou outra pessoa qualquer. Um pequeno exemplo, o Campo Pequeno anunciou que vai abandonar os espetáculos tauromáquicos. Já não era sem tempo e é de louvar! Mas até agora nunca vi nenhum artista ou banda recusar atuar lá, mesmo sendo contra o sofrimento animal. Mais ainda, o Campo Pequeno é um dos recintos que melhores bandas nacionais e internacionais recebe. Uns dias depois, em comunicado, a direção do Hard Club emitiu um comunicado onde se demarca de qualquer manifestação extremista/nazi.

Apesar de tudo, não deixa de me parecer que foi uma posição, também ela, extremista do Filipe Sambado, cancelar o evento. Porém, repito, respeito a decisão.

Este episódio fez-me refletir sobre o importante papel que a música e a arte podem ter – e sempre tiveram historicamente –  nestes períodos mais conturbados, onde o extremismo anda à espreita. A música de intervenção teve um papel fundamental em todas as revoluções, basta olhar para o 25 de Abril e o quão indissociável é a música dessa revolução tão importante para Portugal. Eu acredito que é através da arte que semeamos alguns dos valores principais da nossa vida. Valores como a liberdade e tolerância que tanto estão em falta, nos dias de hoje, podem muito bem ser transmitidos através da arte, que com a cultura nos ensina e nos forma.

Claro que toda a música, por exemplo, depende da mensagem que passa e tanto há músicas com mensagens de opressão como de liberdade. Mas acredito que o contacto com a arte pode ser um autêntico colete à prova de balas contra ideias mais radicais e opressoras. O papel da música, como forma de arte, capaz de atingir massas e de unir em comunhão milhares de pessoas junto duma ideia é fundamental.

Ao consumirmos arte estamos mais próximos de sermos também nós a criarmos; seja na música, literatura, ou noutra forma artística qualquer. Ora, ao criarmos, alimentamos o nosso espírito e criamos para os outros. Quando criamos, não destruímos. O extremismo destrói. Quando consumimos arte, viajamos e sentimos, muitas vezes, a verdadeira beleza das coisas. Ao sentir a verdadeira beleza das coisas, ficamos mais longe do isolamento, de posições nacionalistas, extremistas, opressoras e que nos levam para um patamar que não nos eleva; só diminui.

Precisamos de nos reencontrar. A arte é fundamental, sobretudo contra fundamentalismos.

Sobre o Autor:
Signo escorpião, sei informática na ótica do utilizador, programador do espaço cultural Banhos Velhos e sou um eterno amante de música, do cinema e do Sozinho em casa.

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