Revista Rua

2019-11-25T12:16:30+00:00 Opinião

Conversas com o outro

Crónica
Francisco Santos Godinho
Francisco Santos Godinho
20 Novembro, 2019
Conversas com o outro

Não devia passar da meia noite, os prédios só se davam a conhecer pelos contornos, o cão da vizinha ladrava impropérios ao canto da sala de estar onde nada existia a não ser um feto mortiço, meio mundo a dormir e outro meio a fazer que vive, a mulher da vivenda ao lado sentada à escrivaninha, de frente para um calendário com páginas de voltar repletas de efemérides e anotações em letra de escola, na esquina da rua adivinhava-se o labirinto de ilusões da vida às escuras, nem uma ponta de sono para vista, em frente aos caixotes do lixo um homem cujo rosto era só sobrancelhas de perdigueiro espiando a caça com um polegar irrequieto, esfregando o indicador, meio mundo a dormir e o outro meio que faz de conta que vive a desaparecer para longe nas centenas de luas refletidas nas janelas dos carros lá fora, e o que é feito da cidade a estas horas, será que faz parte do meio mundo que dorme ou será que anda para aí a fazer que faz, é impossível que se ande para aí sem se tropeçar na escuridão, sem se tropeçar no medo de estarmos sós connosco, cada um de nós é apenas uma faúlha no fundo de um poço, uma brasa que se consome a si própria, eventualmente na companhia de estranhos, cada um de nós o cego de bicicleta no meio dos outros cegos que o Pomar pintou, os bons velhos tempos que não têm necessariamente de ser bons ou antiquíssimos para que apareçam de noite, quando meio mundo está a dormir e outro meio não presta atenção, lá fora a noite não pára como a primeira metade do mundo, fermentando inquietações, segredos imersos em si, a pergunta que o Whitman faz à sombra, questionando-se se é verdadeiramente ele ou se tem vida própria, estará no meio mundo a dormir ou no outro que existe à nossa revelia, onde a nossa sombra engana a tristeza e lhe escapa?

Sobre o autor
Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Autor do livro Sentido dos dias e da página Francisco Santos Godinho. Escritor. Luto contra o tempo de caneta na mão.

Partilhar Artigo: