Revista Rua

2020-03-25T14:00:49+00:00 Cultura, Música, Personalidades

Cristina Branco: “O planeta está em autorregeneração e é nossa obrigação entendê-lo”

“Eva”, o novo álbum de Cristina Branco, chega hoje a todas as plataformas digitais.
Fotografia ©Joana Linda
Maria Inês Neto
Maria Inês Neto20 Março, 2020
Cristina Branco: “O planeta está em autorregeneração e é nossa obrigação entendê-lo”
“Eva”, o novo álbum de Cristina Branco, chega hoje a todas as plataformas digitais.

O novo álbum da cantora portuguesa, Cristina Branco, chega hoje a todas as plataformas digitais. Depois de ter sido projetado numa residência artística, em Loulé, no ano passado, Eva desdobra-se em dez temas, todos em português, numa espécie de diário do seu alter ego. André Henriques, Churky, Filho da Mãe, Filipe Sambado, Francisca Cortesão, Kalaf Epalanga, Luís José Martins, Pedro da Silva Martins, Márcia e Sara Tavares são alguns dos nomes que compõem o disco.

Passaram cerca de 20 anos desde o lançamento de Cristina Branco in Holland¸ um disco gravado na Holanda, numa edição de autor que conta com registos ao vivo de dois concertos realizados em Amesterdão, a propósito do Círculo de Cultura Portuguesa nos Países Baixos e a convite de José Melo. Entre Murmúrios (1998), Corpo Iluminado, Abril, Não há só Tangos em Paris e Branco, este último lançado em 2018, somam-se mais de uma dezena de discos até chegar a Eva. Do seu repertório, importa realçar o disco Menina, em 2016, um álbum intenso que chegava como uma transição, uma mudança de abordagens, um reset daquilo que viria a ser feito até àquele momento. Álbum esse que foi um dos mais impactantes da sua carreira, tendo sido premiado como Melhor Disco de 2017, pela Sociedade Portuguesa de Autores, e contando ainda com uma nomeação para um Globo de Ouro na categoria de Melhor Intérprete Individual.

Em Eva, o 17º. álbum da sua carreira, a cantora dá vida a Eva Haussman, uma personagem criada por si há cerca de 15 anos e que quis agora dar-lhe luz, convidando a abrir este repertório de dez temas que se iniciam com “Delicadeza”. Visivelmente mais despido de estética, Eva é apresentado numa coprodução da artista com os seus músicos, Bernardo Moreira (contrabaixo), Bernardo Couto (guitarra portuguesa) e Luís Figueiredo (piano).

No dia do lançamento de Eva, falamos com Cristina Branco, numa conversa à distância, como a atualidade assim o exige, mas cativante. A artista apresenta-nos o seu alter ego e as particularidades envolventes de um álbum que chega com temas fortes e que, inusitadamente, se revelam numa chamada de atenção para a situação que o país – e o mundo – está a passar.

O disco Eva chega hoje a todas as plataformas digitais. Gostaríamos de começar, precisamente, por perguntar o que é que este lançamento lhe traz a si e também a quem o irá ouvir, a partir de hoje? O que é que representa para si a chegada de Eva?

A Eva chega num momento bastante confuso na vida de todos, em que tentamos ajustar-nos e viver uma realidade que não sabemos quanto tempo vai durar. Ela a mim traz pacificação, curiosamente, e depois do turbilhão de emoções que foi gerá-la e digeri-la, sabe muito bem esta paz toda que ela me devolve. A Eva tenta aproximar-se dos outros, porque ela depois de tudo, de um diário biográfico e de um alter ego, é arte e a arte é partilha. Ela não existiria para fora se eu não quisesse partilhar uma experiência e um pensamento.

Pode apresentar-nos esta Eva Haussman? Que importância teve para a Cristina dar a esta personagem a honra de ser o título do seu mais recente álbum?

Eva nasceu na Dinamarca, em Louisiana, território do museu de arte moderna. É morena, de cabelo comprido, olhos escuros, estatura mediana. Viaja a maior parte do ano, é fotógrafa, uma artista que criou o seu próprio universo moral e que tem um fetiche por cantoras. É divorciada e tem um filho de três anos, que um dia será surfista e viverá no Havai. Diz recorrentemente: “Está tudo em aberto para fazer aquilo que bem entender, sendo que esta sou eu!”  Esta sou eu também. Eva é um pouco eu ou muito ou será aquilo que eu quero que ela seja, não precisando da aprovação de ninguém. Eva é a liberdade personificada.

Depois do álbum Menina e também de Branco terem assumido uma nova abordagem e um certo reset, o que é que procurou explorar neste disco, em concreto?

Tentamos conjugar uma história que era a minha entrelaçada no alter ego da Eva e dar-lhe vida, através do que musicalmente nasceu no seio do nosso grupo, digo: Bernardo Moreira, Luís Figueiredo e Bernardo Couto.  Criámos uma estética orgânica de universos musicais diferentes, como o fado e o jazz, e obtivemos uma plástica nossa, como se juntos fôssemos um só corpo musical. Há overdubbing de vozes, sinths, loops, percussão, uma guitarra portuguesa onde nasceu uma estética singular também, mas isso somos nós, nasceu e desenvolveu-se nas centenas de palcos do mundo, por onde passamos nestes últimos três/quatro anos. A importância de se gostar dos outros, de estarmos juntos, é bem presente na nossa sonoridade e isso é completamente a tal liberdade.

Eva chega num momento bastante confuso na vida de todos”

É um disco desprendido dos anteriores ou podemos considerar que é uma continuação do capítulo iniciado em Menina?

É uma continuidade, digamos que amadurecemos a ideia criando nestes três discos, um tríptico que une não só o som como a imagem, não podendo omitir a Joana Linda desta equação.

De Loulé, partiu para Copenhaga onde deu continuidade à fase de maturação do disco antes de este entrar para estúdio. Porquê a escolha desta cidade nórdica?

Digamos que antes de o ser já o era, porque o alter ego Eva “nasceu” em 2006, precisamente lá, ou melhor, na residência artística do museu de arte moderna dinamarquês, em Humlebæk, Louisiana.

Este projeto discográfico volta a contar com nomes como André Henriques, Churky, Filho da Mãe, Kalaf, entre muitos outros. Era importante trazê-los novamente para este Eva? O que é que pretendeu explorar junto destes compositores convidados?

Foram convocados a escrever sobre um certo feminino, longe de ideologias bacocas. A alguns como o André Henriques, a Francisca Cortesão, o Pedro da Silva Martins ou o Kalaf fui mais longe e esses receberam o diário da Eva de 2006, ou seja, a sua biografia e excertos do meu diário entre 2018 e 2019, porque me conheciam melhor e porque quis criar dinâmicas diferentes também. A música tem de ser um desafio, tem de aguçar o prazer de escrever e compor, do outro lado, tem de implicar as pessoas a entrarem na tua história, a perceberem melhor o que te vai na alma.

“O Fado será sempre o meu chão”

Curiosamente, um dos temas deste novo álbum diz-nos que “A vida é uma prova de esforço”, em Prova de Esforço. Concorda que face ao que o país – e o mundo – está a viver neste momento, estas linhas fazem ainda mais sentido? Concorda que estamos perante uma verdadeira prova de esforço?

Em absoluto! Se pensarmos que, quando voltarmos a sair à rua, o mundo como o conceptualizamos terá de ser diferente. O planeta está aparentemente em autorregeneração e é nossa obrigação entendê-lo e respeitá-lo, repensando tudo isto, exigindo mais de nós, como indivíduos e como seres humanos.

Em quase duas décadas de uma distinta carreira na música portuguesa, este é já o 17º. disco. Certamente há uma Cristina diferente em Eva da Cristina Branco In Holland. Que balanço faz do percurso trilhado até agora? O Fado fará sempre parte da sua vida?

É mesmo muito diferente! Quero da vida e da música coisas que não imaginava serem possíveis. A juventude é maravilhosa, mas é preciso crescer e amadurecer para lhe chegar. O Fado será sempre o meu chão, onde não encontro certo nem errado, apenas o que existe e não existe.

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