Revista Rua

2020-02-13T17:39:22+00:00 Opinião

Crónica curta

Crónica
Francisco Santos Godinho
Francisco Santos Godinho
13 Fevereiro, 2020
Crónica curta

A mágoa e o ressentimento matam mais do que todas as epidemias somadas. É possível viver-se esta vida completamente morto, que erro mais grave, caminhar de silêncio em silêncio aos gritos connosco, da mesma forma que se aponta o dedo de culpa ao condenado e haverá, por acaso, beleza mais incompreendida do que esta? Encontrar nos cacos que os outros esqueceram as muletas para uma tentativa de compor uma explicação das coisas, um esboço apenas, as pessoas apenas o esqueleto de emoções a chocalhar na caixa imensa da sua própria incompreensão, as paixões que, de tão curtas, morrem de síncope, pintadas na felicidade póstuma das naturezas-mortas, a voz do conspirador interno, aparecendo e desaparecendo nestes fios de vida, e nós na mesma, seguindo na mesma perplexidade dos mortos horizontais, na mesma atonia dos vivos que habitualmente os circundam e se foi esse o destino que nos foi designado, não quero partir daqui sem a impressão de ter enganado nosso senhor, fugindo deste hospício. Resta-me a certeza de que não haverá mais nada depois das palavras se calarem, olhando-nos de pupilas vazias e nós apenas o reflexo vítreo no que começa a parecer o princípio de uma lágrima, mas não me apetece continuar com este texto. Ficará a pergunta: alguma vez uma pessoa é só ela própria, ou é todas as outras que mandou calar dentro de si?

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor
Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Autor do livro Sentido dos dias e da página Francisco Santos Godinho. Escritor. Luto contra o tempo de caneta na mão.

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