Revista Rua

2019-08-29T22:58:48+01:00 Opinião

Crónica por ajeitar

Crónica
Francisco Santos Godinho
29 Agosto, 2019
Crónica por ajeitar

Já parei de ajeitar os reposteiros ao fim da tarde e até acho que já me acomodei com a ideia de não voltares do trabalho para a poltrona, sem dares conta de mim a perguntar-te

Como correu o dia?

e tu sem responderes, quando casamos, nos primeiros meses, chegavas a casa interessadíssimo nas madeixas e no pescoço ladeado pelo fio de ouro que me ofereceste depois de seis meses de namoro, chegavas a casa interessadíssimo em mim

– Ana Maria

beijavas-me o rosto cheio de deferências por eu ser filha de um guarda ou se calhar era medo, não sei bem, depois menos deferências, o beijo no rosto a transformar-se aos poucos num aceno de costas viradas, depois nem um aceno, só um

– Até já

que nem soava a voz, soava a distância, se calhar perdeste o medo do meu pai ou esqueceste o meu nome, foi isso não foi? O carinho tornou-se mais burocrático, um telefonemazito aqui e ali, muito ocasionais, para informares que chegavas tarde, depois os jantares sozinha e tu a comeres na mesita da cozinha, aflitíssimo com um robalo, tu que nunca o soubeste arranjar, dantes miravas o prato e

– Ana Maria

melhor ainda

– Amorzinho

se calhar

– Amorzinho

era engano, mas pelo menos o meu nome, que já não ouço há anos e logo eu que parei de ajeitar o reposteiro e guardei a tua almofada no gavetão, o tempo é um amante cruel, desfaz-nos ao passar e vê lá, tudo isto é bonito porque um dia acabará e estas letras são só tinta amontoada em papel, uma pessoa semi-entediada com uma conversa melosa na mesa do lado, volta e meia um

– Amorzinho

assobiado devagar, destrancando o ouvido numa suavidade estranhíssima e a crónica termina com os reposteiros por ajeitar.

Sobre o autor
Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Autor do livro Sentido dos dias e da página Francisco Santos Godinho. Escritor. Luto contra o tempo de caneta na mão.

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