Revista Rua

2020-04-08T18:09:53+00:00 Opinião

Cultura: esse luxo para uns; e desperdício para outros

Música
José Manuel Gomes
José Manuel Gomes
8 Abril, 2020
Cultura: esse luxo para uns; e desperdício para outros

O mundo é, por estes dias, um lugar estranho. Vivemos numa hecatombe humanitária e social – talvez – sem precedentes e que veio virar tudo de pernas para o ar. Estamos confinados, o mundo parou, as nossas vidas estão em standby e não sabemos muito bem quando tudo voltará a ser normal. É uma verdadeira distopia em tempo real.

No meio disto tudo, já se perspetiva que, após a crise sanitária, venha uma crise económica grave que, de alguma forma, já se sente e que a tendência é piorar bastante. A esta crise, acrescentaria, há ainda uma crise cultural – talvez a maior de que há memória – e que se começou a sentir desde os primeiros dias desta pandemia. A cultura paralisou completamente, colocando profissionais, artistas, agentes, técnicos, produtores, enfim, sem alternativa a não ser esperar que tudo isto passe.

Bem sabemos que numa sociedade, ainda para mais nestes dias de correm, as pessoas, a saúde, devem estar sempre em primeiro lugar. Mas a questão é mesmo esta: quando é que alguma vez a cultura foi prioridade em Portugal? Quando é que esta área que ocupa aquele 1% do Orçamento de Estado, alguma vez foi tida como prioritária? Que real importância tem, realmente, a cultura por cá e que soluções existem para os profissionais desta área?

Certo é que vão aparecendo apoios, sejam eles privados ou públicos, para atenuar um pouco esta realidade e há dias a Ministra da Cultura anunciou a existência dum fundo de emergência no valor de um milhão de euros. Ora, para muitos é um valor considerável, mas façamos este exercício: passemos este apoio de emergência para outra área, por exemplo, a área económica/ensino/desporto/saúde. Parece, sequer, razoável que haja um milhão de euros para servir de apoio? Sim, um milhão de euros é um milhão de vezes mais do que zero. Ao mesmo tempo é uma ínfima parte duma migalha e que de pouco ou nada irá ajudar.

Não estou com isto a criticar a Ministra da Cultura. Creio que joga com o baralho que tem e com as condições que possui. Na verdade, este problema nos apoios à cultura sempre existiu e, agora, está somente mais visível; mas de uma forma grave, mesmo muito grave e preocupante. A cultura sempre foi o primo mais pobre de todas as áreas e vista como prescindível. Se é para cortar, onde é que se corta? Exatamente.

Se, por um lado, não critico a Senhora Ministra pelo montante que anunciou que irá ser disponibilizado, já o mesmo não acontece quando é anunciado uma coisa chamada “Fest TV” que tem, imagine-se lá, o mesmo orçamento (um milhão de euros) e que mais não é do que dar subsídios a quem sempre os recebeu. Desafio, a quem ler este texto, a pesquisar sobre o que isto é e que olhem bem para o “cartaz”. Fazendo uma comparação muito clara: é o mesmo que um dia a FIFA se lembre de dar dinheiro ao Cristiano Ronaldo e ao Messi, porque estes entraram em layoff… Ou seja, além de não haver grandes verbas e condições nos apoios aos artistas e à atividade artística, ainda há quem esbanje um milhão de euros em artistas, e não digo isto de má fé, escolhidos a dedo. Haja avareza e luxúria!

Voltando ao que importa: a cultura não gera riqueza, pelo menos económica, mas gera mais do que isso. O valor da cultura não é quantificável, não se vê nas notas ou nas moedas. Porém, neste tempo que vivemos, os profissionais desta área estão a zero, à espera, tal como todos estamos e sem ter um rumo. Nesta quarentena já são inúmeros os casos de iniciativas online, onde artistas de norte a sul atuam, nas suas casas, para todo o país, sem receber tostão. É um grito de desespero por quem não quer parar de fazer o que faz.

Sim, este problema está mais à vista hoje, mas está cá, sempre esteve ao longo de décadas para quem trabalha na área. Fazer das tripas coração, ser o programador pedinchão, ter quase nada e fazer muito, sempre foi – tirando raros casos no país – o dia a dia de quem é profissional na área cultural. Quando isto passar, porque um dia vai passar, será urgente que nos reencontremos e aí a cultura terá um papel primordial. Hoje, os artistas, chamam-nos através do sofá. Não nos esqueçamos deles, daqui a uns meses, nos palcos. Acima de tudo, acabemos com a ideia de que a cultura é um luxo.

Sobre o Autor:
Signo escorpião, sei informática na ótica do utilizador, programador do espaço cultural Banhos Velhos e sou um eterno amante de música, do cinema e do Sozinho em casa.

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