Revista Rua

2020-09-18T18:01:00+00:00 Cinema, Cultura

Curtas de Vila do Conde estão de regresso em outubro. Nuno Rodrigues apresenta os destaques da programação em entrevista

A programação completa já foi anunciada e, no total, serão 261 os filmes que marcarão as várias secções do festival.
Nuno Rodrigues ©D.R.
Redação
Redação18 Setembro, 2020
Curtas de Vila do Conde estão de regresso em outubro. Nuno Rodrigues apresenta os destaques da programação em entrevista
A programação completa já foi anunciada e, no total, serão 261 os filmes que marcarão as várias secções do festival.

De 3 a 11 de outubro, a 28ª edição do Curtas de Vila do Conde apresenta um programa fechado e sessões simultâneas em Vila do Conde, Lisboa, Porto e Faro. A programação completa já foi anunciada e, no total, serão 261 os filmes que marcarão as várias secções do festival que, este ano, levará a sua Competição Nacional a várias cidades do país. Nuno Rodrigues é o diretor do festival e, em entrevista à RUA, explica os principais destaques desta edição de 2020.

A edição deste ano decorre de 3 a 11 de outubro e será apresentado num novo formato adaptado à realidade. Começo, precisamente, por perguntar: que adaptações foram necessárias adotar para esta edição?

Como em todas as salas de espetáculos, apenas podemos ocupar metade da sala, sendo que é sempre feita uma limpeza e preparação dos locais para que as sessões decorram com segurança. As sessões são mais espaçadas, não há aquele ritmo alucinante dos festivais de cinema e tivemos de pensar numa grelha diferente, pelo que não há repetição de filmes. Todo esse processo é que levou à criação das alternativas, sendo que uma delas visa, sobretudo, uma aproximação ao público em diferentes lugares. A Competição Nacional do Curtas vai ter um formato novo: todas as estreias acontecem em Vila do Conde e depois há uma sessão por dia de repetições dessas sessões, com presença dos realizadores, primeiro no Porto, no cinema Trindade, no dia seguinte no auditório do IPJ, em Faro, e finalmente em Lisboa, no cinema Ideal. Esta viagem da Competição Nacional pelo país foi uma das alternativas criadas por nós para o festival deste ano.

O facto de termos uma edição que é tanto presencial como virtual permite chegar a novos públicos, assim como criar uma ligação ainda mais direta entre o cineasta e o visitante. De que forma vão acontecer estes encontros virtuais?

Geralmente, a Competição Nacional do Curtas decorria entre o meio da semana e o final da segunda semana do festival. Agora começa logo no arranque, para que depois possa chegar às outras cidades. O Curtas quis valorizar a ideia de que um festival é um espaço de encontro de pessoas, de ideias e de vários aspetos que, no fundo, são uma marca de um festival. Nós não queríamos enveredar por uma versão online, mas, ao mesmo tempo, depois desta reflexão, quisemos também criar essa alternativa, porque existem várias pessoas no país que vão ter agora uma oportunidade de, pela primeira vez, em 28 anos, assistir a este festival.

Nuno Rodrigues ©D.R.

Temos uma nova secção a estrear nesta edição. Chama-se New Voices e é uma vertente não competitiva, mas também muito interessante. O Nuno pode apresentar-nos esta secção e falar-nos do seu propósito? Que realizadores poderemos, desde já, destacar?

O Festival, pela sua natureza, é um festival que revela novos autores, no entanto, vamos acompanhando autores que, por vários motivos, os seus filmes não são selecionados. Nós achamos que chegou a altura de alguns desses nomes que vamos acompanhando, e cuja obra nos interessa, terem uma oportunidade de apresentarem os seus projetos noutro contexto. Escolhemos esta ideia de ter cineastas que desenvolveram um corpo de trabalho. No caso concreto deste ano, escolhemos três realizadoras, obviamente com obras distintas, mas com alguns aspetos que as ligam. A Helena Lopez Riera, realizadora espanhola, vencedora do Curtas do ano passado; também a Ana Helena Tejera, cineasta do Panamá que desenvolveu a primeira longa-metragem que estreou no festival de Roterdão e que também está ligada ao Curtas (porque parte dessa longa metragem foi rodada no Panamá e outra parte foi rodada aqui em Vila do Conde); e a terceira é a Ana Maria Gomes, luso-francesa, que há cinco anos ganhou o grande prémio do público do Curtas e que fez um filme que estreou no Indie Lisboa, o Bustarenga, produzido por nós. Outro ponto em comum entre elas são os assuntos dos seus filmes, tais como: a identidade e o local de origem – aspetos ligados à família e à memória, assim como aspetos ancestrais que estão ligados a essa mesma identidade.

Para além destes nomes, há um realizador espanhol (Isaki Lacuesta) que se destaca nesta edição do festival e que irá exibir algumas curtas e longas-metragens, assim como a sua primeira exposição. Pode contar-nos o porquê desta escolha e que projetos poderemos então conhecer?

O Isaki Lacuesta é uma das grandes figuras do cinema contemporâneo e tem muitos aspetos com os quais nós nos identificamos. Ao mesmo tempo, desenvolve outras obras completamente diferentes, híbridas, entre o documentário experimental e a investigação e que o tornam num cineasta multifacetado, pelo que não lhe conseguimos identificar apenas um estilo. Por outro lado, e porque nós temos um outro projeto ligado a Vila do Conde na Galeria Solar, vamos fazer com ele uma exposição com algumas obras do seu percurso. Neste período de pandemia, e o facto de ele ter estado a desenvolver novos projetos, vai permitir que, também no espaço da galeria, possamos apresentar algumas obras inéditas.

“Há muitos filmes que pararam de rodar ou ficaram na gaveta para a sua distribuição. Neste momento é necessário que surjam medidas por parte do governo e de identidades que normalmente estão por trás deste tipo de apoios, pelo que é importante que percebam que não podemos deixar fragilizar este setor. Vale a pena, sim, apostar na cultura e vale ainda mais a pena apostar no cinema português.”

Para além das iniciativas online, o evento passará na mesma pelos espaços centrais (Teatro, Auditório Municipal e a Galeria Solar). O que é que os visitantes poderão encontrar nestes espaços? De que forma se divide a programação?

As pessoas vão poder assistir às sessões e estar com os realizadores, mas de uma forma muito segura. Teremos momentos em simultâneo, quer no Teatro quer no auditório, e as pessoas podem escolher as ofertas de programação que surgem em cada um dos espaços. O Curtas vai muito ao encontro de nichos, de públicos diferenciados, desde crianças (com o Curtinhas), aos adolescentes (com a secção mais generation). Temos um cinema mais arriscado e com uma lógica de um cinema não narrativo, como acontece no cinema experimental, e depois um cinema independente que se aproxima mais do cinema que estamos habituados a ver nas salas convencionais, quer na ficção quer no documentário.

A secção infantojuvenil (o Curtinhas) está também de regresso e com uma programação especial para os mais novos. Numa altura tão atípica para o público escolar, o que é que os mais novos poderão aprender e desenvolver com o festival?

Este foi um dos desafios mais complexos deste processo. Apostamos num formato seguro para as famílias, no contexto do teatro e do auditório. No auditório, por exemplo, teremos algumas sessões para escolas e teremos também outras opções – e aqui refiro-me apenas às zonas do grande Porto, Póvoa e Vila do Conde – nas quais vamos levar algumas sessões mesmo ao interior dessas escolas.

A programação do festival está apresentada. Que destaques faz desta 28ª. edição do Curtas Vila do Conde?

Este ano, como abertura, teremos um filme brasileiro do João Paulo Miranda e que é um filme que já teve três nomeações para três grandes festivais de relevância mundial. Estreou em Cannes (virtual) e estará também em Toronto e San Sebastian. Este filme está em competição em todos estes festivais e aqui será a sua estreia nacional. Depois teremos um regresso, também muito forte, de um dos filmes mais importantes de Berlim deste ano: First Cow, de Kelly Reichardt. Também uma estreia nacional.

Num ano particularmente difícil para o setor cultural, na perspetiva do Nuno, qual será o futuro da cultura em Portugal? Que medidas são necessárias tomar neste momento para que seja possível continuar a criar, a produzir e a consumir cultura?

Penso que isto é transversal a outras áreas e, obviamente, acho que o mais problemático é o que ainda vem aí. Existem algumas áreas na cultura em que este problema é ainda maior, como por exemplo no teatro. Obviamente, temos de pensar no futuro, principalmente no próximo ano. Há muitos filmes que pararam de rodar ou ficaram na gaveta para a sua distribuição. Neste momento é necessário que surjam medidas por parte do governo e de identidades que normalmente estão por trás deste tipo de apoios, pelo que é importante que percebam que não podemos deixar fragilizar este setor. Vale a pena, sim, apostar na cultura e vale ainda mais a pena apostar no cinema português.

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