Revista Rua

2021-07-13T18:11:20+01:00 Cinema, Cultura

Curtas Vila do Conde com uma programação forte para todos os públicos

De 16 a 25 de julho, o festival volta a propor um olhar transversal sobre o cinema mundial.
Singing in The Rain, Gene Kelly ©D.R.
Maria Inês Neto13 Julho, 2021
Curtas Vila do Conde com uma programação forte para todos os públicos
De 16 a 25 de julho, o festival volta a propor um olhar transversal sobre o cinema mundial.

São quase três décadas de Curtas Vila do Conde. O prestigiado festival de cinema celebra a 29ª. edição com um programa recheado de propostas culturais para todos públicos, numa forte aposta nos espaços que cruzam a sétima arte com a música. De 16 a 25 de julho, o festival volta a propor um olhar transversal sobre o cinema mundial, assumindo (novamente) um formato híbrido com sessões em sala (Teatro, Auditório Nacional e Galeria Solar) e algumas projeções online.

A poucos dias do arranque da vasta programação, falamos com o diretor do Curtas, Nuno Rodrigues, que nos antecipa os highlights da edição deste ano e do papel do festival em tempos controversos para o setor da cultura.

A edição do ano passado ficou marcada por várias adaptações da programação à realidade do momento, com uma alternância entre sessões virtuais e online. Para a edição deste ano, manter-se-á o mesmo formato?

No ano passado tudo era novo. Procuramos levar a competição nacional a outros públicos e a outras cidades, o que vamos fazer também este ano. Em termos de adaptações, este festival resulta das aprendizagens do ano passado. A pandemia continua e a situação de risco e dúvida permanece e, por isso, é necessário trabalhar em modos semelhantes. Desta forma, vamos ter a Competição Nacional em Vila do Conde e depois a decorrer também no Porto e em Lisboa com apresentações dos realizadores e conversas nos três locais. Vamos dar um palco especial à competição que sempre foi uma secção de eleição no Curtas – que é, no fundo, um encontro de cineastas e realizadores portugueses, os quais procuramos, através desta solução, privilegiar. Por outro lado, continuaremos a ter uma versão online, com os filmes a estrearem diariamente e até alguns dias para além do festival. Para aqueles que não podem deslocar-se a Vila do Conde ou que se encontram em locais do país onde o cinema não chega com tanta facilidade podem, assim, assistir a grande parte do festival. Obviamente, queremos privilegiar aquilo que é para nós essencial: o cinema em sala, nos espaços que o festival tem para oferecer.

O evento volta a propor um olhar transversal sobre o cinema mundial. De que forma?

Recebemos milhares de filmes provenientes de toda as regiões do mundo, o que acaba por ser um olhar transversal perante aquilo que está a ser feito e há sempre essa preocupação em mostrar novos valores do cinema mundial. O Curtas sempre foi um espaço de descoberta. Se olharmos para antigos vencedores do festival ou que por cá passaram, muitos deles são autores de grande relevância a nível internacional. Com as secções competitivas, o festival está sempre a apostar no futuro. Nas secções In Focus teremos a cineasta escocesa Lynne Ramsay, que é um dos grandes nomes do cinema europeu da atualidade e que virá apresentar a totalidade da sua obra, em longa e curta-metragem. Através da nova secção, New Voices, apresentamos autores com um percurso consistente e teremos o realizar português Jorge Jácamo, os iranianos Ali Asari e Farnoosh Samadi e a realizadora grega Jacqueline Lentzou. O Curtas cumpre também outros papéis e com a criação do Cinema Revisitado desenvolve um olhar sobre a história do cinema e a forma como foi marcante em determinados momentos, aproveitando para trabalhar algumas ideias na programação deste ano. Por exemplo, a propósito dos 60 anos da Semana da Crítica (do Festival de Cannes), desenvolvemos um programa de filmes que foram lá exibidos – alguns dos quais também já tinham passado pelo Curtas. Vamos ter também um filme marcante na história do cinema e que é, para muitos, o grande filme do século XXI: o Mulholland Drive, de David Lynch. Aproveitando essa comemoração, ao apresentar uma nova cópia deste filme que faz 20 anos, decidimos desenvolver um projeto a que apelidamos de Hollywood Daydreams and Nightmares, com filmes que lidam com esta ideia de sonhos e pesadelos do universo de Hollywood. Os filmes são: Réalite, de Quentin Dupieux, The Bad and The Beautiful, de Vincente Minnelli, Sunset Boulevard, de Billy Wilder, e Singing in The Rain, de Gene Kelly.

O Curtas sempre foi um espaço de descoberta. Se olharmos para antigos vencedores do festival ou que por cá passaram, muitos deles são autores de grande relevância a nível internacional.

Contaram-se mais de 4 mil filmes inscritos de 106 países diferentes, sendo que o programa integra 236 filmes. Um número surpreendente num ano particularmente desafiante para o setor da cultura. Surpreendeu-lhe esta adesão?

O Curtas foi conseguindo desenvolver um trabalho internacional que o torna num festival de prestígio e relevante no contexto dos festivais de programação de curtas e, por isso, existem vários realizadores atentos e com interesse em estarem presentes em Vila do Conde. Por outro lado, é um dos festivais na Europa selecionados para a eleição do European Film Award e, este ano, surgiu uma outra novidade: passamos a integrar a lista de festivais que garantem a possibilidade de, através de dois prémios, o filme aceder aos Óscares, na secção de ficção e animação. Isso é uma grande vitória na edição deste ano.

A programação acontece paralelamente em diferentes locais, mas também chega a vários palcos fora de Vila do Conde. A pandemia e o consequente recurso ao digital permitiram a conquista de novos públicos além-fronteiras. Esta é uma das intenções do Curtas para o futuro?

Fazer um festival nestes tempos é uma aprendizagem. Procuramos adaptarmo-nos às mudanças do tempo. Obviamente, esta ideia de levar o festival a outras cidades é resultado da situação atual, mas defendemos que um festival de cinema deve ocorrer em sala. O online surgiu como uma alternativa do momento, mas temos dúvidas se a iremos implementar no futuro. Ainda assim, aprendemos sempre com estas situações, que acabam até por dar origem a ideias novas no futuro.

A programação integra também várias propostas para famílias. Pode apresentá-las?

Dada a situação pandémica, colocamos de lado um conjunto de atividades paralelas que tínhamos, como os workshops, porque entendíamos que seria mais difícil e menos importante trabalhar essas ideias nesta fase. No entanto, conseguimos ter uma programação para toda a família, através da secção competitiva Curtinhas e para os mais jovens temos a My Generation. Pais e filhos podem vir juntos ao Curtas, de uma forma segura, assistir a filmes pensados para esse público mais jovem e para que toda a família possa acompanhar. Teremos também um momento de celebração na cerimónia de entrega dos prémios do Curtinhas que será o visionamento de um filme de Charlie Chaplin que celebra agora 100 anos.

São quase 30 anos de Curtas. O Festival traduz-se no apoio e promoção do cinema nacional e internacional, estimulando tanto a produção como o consumo. Ainda a ultrapassar uma fase de contínuas adaptações e com bastantes fragilidades no setor, pergunto-lhe, enquanto diretor do festival, que expectativas tem perante o futuro da cultura em Portugal? Que medidas são necessárias ou que apoios são precisos?

Tal como outros setores, nomeadamente o turismo, a cultura foi uma das atividades mais lesadas. De certa forma, os setores da cultura e do turismo estão interligados, porque um festival de cinema promove o turismo e a imagem de uma cidade/país perante outros locais ou outros públicos. Obviamente, o meu desejo é comum a qualquer cidadão e espero que a situação estabilize, para que todas as atividades possam ser recuperadas. Espero que retiremos aprendizagens e que possamos fortalecer o setor. Queremos recuperar toda a sinergia, que é fundamental para um festival existir e ganhar expressão, tanto em Portugal como no mundo. Tratando-se de um setor que foi bastante lesado, como aconteceu com cineastas, produtores e técnicos que trabalham nesta área com bastantes dificuldades, os festivais contribuem para que a sua atividade ganhe força. Esperamos que o setor possa vir a ter novos incentivos e apoios num futuro e que não saia desta situação ainda mais fragilizado.

Fazer um festival nestes tempos é uma aprendizagem.

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