Revista Rua

2020-07-03T15:06:49+00:00 Opinião

Da bondade e outras virtudes

Crónica
Francisco Santos Godinho
Francisco Santos Godinho
3 Julho, 2020
Da bondade e outras virtudes

No pior dia da minha vida (não vou falar sobre isto) percebi que é possível sofrer inexplicavelmente e flutuar entre tudo e todos como se não estivéssemos presentes em parte alguma, tudo se esvai, as vozes são balbucios inaudíveis, alguns rostos apenas borrões de tinta e a frieza dos sítios penetra-se no tecido de que é feita a memória e fica, vem e volta conforme decide. Fugi ao ponto. No pior dia da minha vida conheci uma Irmã no Hospital de São João (queria tanto lembrar-me do seu nome) que baptizou o meu avô naquela noite, sendo eu o padrinho de baptismo. Gostava de me lembrar das palavras dela, recordo-me do seu rosto e dos seus gestos repletos de um carinho e bondade enormes. E o seu sorriso para mim e eu a abraçá-la sem a abraçar e que vontade de a abraçar e que me dissesse que tudo terminaria bem mesmo que não terminasse. Aquilo a que chamamos de paz interior e que, no geral, penso ser um percurso e não um fim em si, é uma espécie de consenso entre o que vamos fazendo e entre a ideia de vida como projecto e a escrever isto lembrei-me de Camus

– O segredo do meu universo: imaginar deus sem a imortalidade humana
e isto é uma ideia que, a pouco e pouco se vai entranhando em nós – não somos imortais e a ideia de imortalidade, ainda que através da nossa obra ou do ínfimo rasto que deixamos nos outros, não pode ser uma pretensão, mais tarde ou mais cedo dissolvemo-nos na matéria de todas as coisas e, com mais ou menos sorte, poderá ficar um pouco daquilo a que chamamos alma. E tudo isto entronca no que foi dito, uma pessoa apercebe-se que a imortalidade não pode ser sequer pretensão e pode existir deus (de todas as formas possíveis que consigamos conceber) em gestos comuns que, não raras vezes e infelizmente, ignoramos: um sorriso, um abraço ou tentativa de abraço e a (infelizmente também) pequeníssima compaixão transversal que nos une uns aos outros pelo umbigo da alma, são marcas maiores de algo que, de uma forma ou de outra, persiste em nós e indica uma tentativa de caminho a seguir. Isto aqui já vai longo, mas essencialmente é assim: há bondade escondida numa infinidade de gestos, nós é que temos medo de a aceitar, no eterno receio da nossa fragilidade.

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