Revista Rua

2019-02-06T19:05:04+00:00 Opinião

Da ética no ensino à ética nos negócios

Economia
Sílvia Sousa
Sílvia Sousa
6 Fevereiro, 2019
Da ética no ensino à ética nos negócios

A gravidade das consequências económicas e sociais da mais recente crise financeira colocou as questões da ética nos negócios no centro da atenção de um número significativo de organizações económicas, pressionando as instituições de ensino e formação a acomodar nos seus curricula esta preocupação. Os processos de avaliação e de acreditação, nacionais e internacionais, dos cursos nas áreas da Economia e da Gestão, seja ao nível das licenciaturas, seja ao nível dos mestrados, fazem eco desta preocupação, promovendo, através da sua valorização, a inclusão de abordagens formais de tópicos como ética, responsabilidade social e responsabilidade ambiental.

A forma como estes tópicos têm sido acomodados pelas instituições de ensino superior tem variado, denotando diferentes níveis de preocupação, de reação à pressão ou de capacidade para produzir ajustamentos nos seus conteúdos e métodos de ensino.

Ao nível da investigação académica, é possível encontrar uma miríade de perspetivas, dependendo da área científica. No caso da Economia e da Gestão, a investigação tende a ser mais profícua no contexto do estudo das decisões das empresas, associando a ética à responsabilidade social e trabalhando as suas motivações e consequências, inclusivamente ao nível dos resultados económicos das empresas.

Obviamente, o papel dos professores universitários, que talvez por lidarem com indivíduos adultos poderão ter uma maior tendência para se demitirem de intervir nestas circunstâncias, deve ser alvo de reflexão. Reflexão essa que será claramente útil que seja transversal a todos os níveis de ensino.

Adicionalmente, ainda no âmbito da Economia e da Gestão, o ensino da ética, formal ou informal, tem assumido uma importância crescente, ao nível da análise do seu impacto nas perceções dos alunos, futuros economistas e gestores, relativamente a um conjunto de comportamentos e atitudes no contexto académico e no contexto empresarial ou profissional. Ainda que sujeitos a alguma controvérsia, os resultados relativamente aos fatores que contribuem para a formação destas perceções apontam para a importância de características como o sexo, o ano académico e a área de estudo, assim como das práticas de ensino em contexto de sala de aula, do interesse e compromisso dos docentes relativamente à responsabilidade social das empresas e do ensino formal da ética. Neste domínio, é particularmente interessante estudar a relação entre as perceções sobre fraude académica e as perceções sobre ética empresarial, sendo possível estabelecer uma correlação positiva entre ambas. Por exemplo, as atitudes relativamente a copiar nas avaliações durante a universidade permitem prever atitudes relativamente a futuros comportamentos menos éticos, em contexto empresarial, e nesta relação observam-se diferenças entre mulheres e homens, apresentando, as primeiras, em média, atitudes menos tolerantes à fraude e a comportamentos menos éticos. Outro resultado a salientar, no contexto académico, está associado ao beneficiário da fraude – se esta for cometida em benefício de outrem (por exemplo, assinar a folha de presenças por um colega), é considerada menos grave ou até aceitável.

Obviamente, o papel dos professores universitários, que talvez por lidarem com indivíduos adultos poderão ter uma maior tendência para se demitirem de intervir nestas circunstâncias, deve ser alvo de reflexão. Reflexão essa que será claramente útil que seja transversal a todos os níveis de ensino. Ou correremos o risco do eticamente inaceitável se tornar prática corrente, inclusive ao nível dos nossos mais altos representantes políticos.

Sobre o autor
Economista, Universidade do Minho.

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