Revista Rua

2019-02-28T15:26:02+00:00 Opinião

Da intimidade e outros demónios.

Sociedade
Marta Moreira
Marta Moreira
28 Fevereiro, 2019
Da intimidade e outros demónios.

Diz-se por aí que uma relação onde não exista intimidade, não resulta. Proclamam-se com autoridade motivos para o lento (mas porventura inexorável?) desgaste desse quê que parece ser facilmente almejável e conquistável no início de qualquer relação. Descrevem-se comportamentos que possam talvez reverter esse cenário tão comum. Toda uma geração de casais pós-milénio vive aterrorizada com um fracasso inescapável das suas relações amorosas. Dei-me conta que este é um tema do qual não falo muito, apesar de gostar particularmente de escrutinar estas minúcias no meu tempo livre. Estarei muito longe de ser considerada uma autoridade na matéria, mas a verdade é que me apraz tentar descrever o que será isto de tentar partilhar uma verdadeira intimidade.

Para mim, intimidade é saber exactamente o que o outro gosta ao pequeno-almoço: se pão com manteiga ou se torradas, leite com cereais ou papas de aveia, se a coisa mais ao despachada, se um brunch prolongado. Mesmo que cada um faça o seu, e em tempos distintos. É saber só através de um relance que o café não lhe está a cair bem e que virá dali uma valente dor de estômago, ou saber sem margem para dúvidas como se gosta do arroz, se mais cozido se mais al dente, e partilhar sorrisos envergonhados quando não se consegue que saia como o esperado. É conseguir intuir sem quaisquer erros de cálculo que aquela má-disposição toda se deve única e exclusivamente a uma fome latejante que se relega para segundo plano no meio da azáfama do quotidiano, e oferecer tréguas não com ramos de oliveira, mas com quadradinhos de chocolate. Intimidade é sair sempre mais cedo da cama para ir buscar pão quentinho, e saber se o outro vai preferir os mais tostados ou aqueles que ainda vêm mal cozidos. É sorrir sub-repticiamente (sim, porque não convém que se dê conta) quando o outro está distraído a falar ao almoço e não dá conta que está a fazer bolinhas com o miolo do pão. E depois é comer as côdeas que sobram, porque se sabe que o outro não gosta. Ou então conseguir adivinhar com exactidão o que o outro vai querer jantar depois de um daqueles dias verdadeiramente extenuantes, seja algo tão banal como uma canja ou algo menos comum como quesadillas com guacamole. Intimidade é saber que o outro é desajeitado a mexer em facas, e pairar discretamente sempre que decide cortar uma cebola ou abrir um pacote de molho de tomate, não vá o diabo tecê-las.

Diz-se por aí que intimidade é saber partilhar e saber comunicar. Pois eu digo que intimidade é saber os segredos mais inconfessáveis um do outro sem palavras: nos olhares mais inconsolados, nos  suspiros mais resignados ou no conforto dos muitos silêncios partilhados.

Mas intimidade não se conquista só através do estômago (embora possa assegurar que é componente bem relevante)! É também olhar bem pelos olhos dentro e saber que estão vermelhos de choro, ou então conseguir perceber num lábio trémulo que há dores que não se conseguem conter durante muito mais tempo. E aí, saber que o abandono de um abraço apertado pode voltar a compassar um coração descompassado, nem que para isso seja necessário uma centena de tentativas. É saber ler expressões faciais como se falassem: uma sobrancelha levantada é nítida descrença, dois olhos a dardejar e os lábios entreabertos são pura lascívia, dentes a ranger é fúria (mal) contida, olhar sobranceiro e nariz empinado são arrogância irreflectida, língua a espreitar entredentes é malícia e beicinho é cândida mimalhice. E principalmente, é saber como se apazigua qualquer uma delas; se com um afago no rosto, se com um beijo atrevido, talvez um entrelaçar firme das mãos, ou um sorriso daqueles que contagiam. Diz-se por aí que intimidade é saber partilhar e saber comunicar. Pois eu digo que intimidade é saber os segredos mais inconfessáveis um do outro sem palavras: nos olhares mais inconsolados, nos  suspiros mais resignados ou no conforto dos muitos silêncios partilhados. É saber exactamente como semear sorrisos ou provocar genuínas gargalhadas, mesmo (talvez principalmente) nas coisas mais corriqueiras e banais.

Intimidade é deixar que o próprio braço se invada de formigueiros, para poder sustentar uma conchinha até que a respiração do outro se afunde num sono profundo, dure isso o tempo que durar.

Intimidade é ir colocar uma botija bem quente debaixo dos lençóis, porque se sabe que o outro gosta duma cama quentinha, mas que tem demasiada preguiça a altas horas da noite para ir aquecer a água, ou então deixar o pijama a aquecer em cima do aquecedor, para que não tenha que adormecer a tiritar de frio. Em época de calor e festa, é passar por casa a correr para abrir as janelas e arejar tudo, para que o regressar a casa seja abandono confortável da consciência. É saber que o outro só consegue adormecer em posição fetal, e que se por acaso estiver noutra posição qualquer é porque está com dores (ou calores): nada que uns afagos não resolvam! Intimidade é deixar que o próprio braço se invada de formigueiros, para poder sustentar uma conchinha até que a respiração do outro se afunde num sono profundo, dure isso o tempo que durar. É apreciar a beleza dos lentos despertares e poder andar de pijama com cabelos ainda com o cheiro do sono lá preso todo o dia. Intimidade é não gostar de gatos e mesmo assim aturar noites de cio interminável, viagens-relâmpago ao supermercado atrás da ração que só-há-naquele, partilhas tórridas de espaço condicionado e invasões declaradas do domínio privado. É saber quando a falta de mar se torna intolerável ou quando planear uma fuga se torna indispensável, ou saber exactamente como arrancar o outro daquele torpor que insiste e resiste.

Não há receitas, nisso todos os (supostos) especialistas são consensuais. Mas o que sei é que construir uma verdadeira intimidade com alguém é empreitada megalómana, uma coisa indistinta que se constrói na rotina de todos os dias naqueles pequenos nadas que parecem ser insignificantes. Dá trabalho para caraças, e o resto é treta. Intimidade é oferecer o que se é sem pudores, sem máscaras ou adornos, sem o mais ínfimo dos enleios. E só assim dois são um.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre a autora:
Professora do Ensino Artístico Especializado e sindicalista de feitio. É digamos que uma espécie de artista, que toca, canta e escreve (mas que ainda não dança). Autora do blog Pimenta na Língua, é uma esganiçada de pavio curto, activista de causas perdidas. Pessimista por defeito e inconformada por vocação.

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