
Da Madeira, com Tradição – os novos rostos da Moda insular
André Pereira, Call me Valentina, Mariana Sousa e tantos outros. São estes alguns dos novos nomes que retratam o melhor da Moda nacional, com origem na Madeira.
Novamente presentes na nova edição da Bolsa de Turismo de Lisboa, BTL, é impossível passar ao lado dos desfiles diários, também este ano, ou apenas das “fardas” usadas pelos assistentes no stand. Fardas, que, na verdade, não o parecem ser, e que gostaríamos de adquirir e usar no dia a dia.
Contudo, foi numa conversa com André Pereira, em 2025, que se levantou, apenas um “pedacinho”, do véu que esconde um tesouro inegável – a capacidade de criação deste que é mais do que “apenas” um estilista.
André Pereira é o “dom” em pessoa, com uma visão única para transformar cenários, junta a Arte, com a Música e Moda. Ao longo de 2025 teve a “ousadia” de abrir as portas da sua casa para uma apresentação intimista, ao mesmo tempo que arrancou com a transformação do Bordado Madeirense. Peças de casa, enxovais de famílias, de onde se geram novas tendências marcantes.
Já no final do ano, transformou a Placa Central (espaço mítico no centro da baixa funchalense, na Avenida Arriaga, a qual se transforma numa montra cultural em ocasiões especiais), numa passerelle, onde o tema Esquinas ganhou vida – porque nunca sabemos o que a próxima pode apresentar ou trazer. Esquinas resulta também da localização geográfica do popular café madeirense Golden Gate, que faz, exatamente, uma esquina, no coração da capital madeirense.
Qual o principal impacto da Moda madeirense na BTL?
A ideia é trazer um pouco da ilha – gastronomia, animações e moda. Na parte da moda, queremos trazer críticos, também, apresentando vários outros colegas – acima de tudo apresentar propostas modernas, baseadas no Bordado. A ilha inspira, é igualmente uma musa, um enorme território, cheio de amor. Por outro lado, é preciso sair da ilha, para olhar para a ilha: só damos valor ao que é nosso quando estamos a alguma distância. É preciso sentir saudade para podermos voltar a abraçar, a amar. É algo muito nosso, muito português.
Qual é a visão dos jovens perante a nova forma de olhar o bordado? Tens algum receio que já não haja quem faça o trabalho no futuro?
O bordado tem de ter um comprador, claro (e não me refiro apenas ao que é vestível, mas aquele que alimenta muitas casas madeirenses). A minha preocupação maior é a camada mais jovem precisar de ser educada a conhecer e estudar o bordado – interessar-se sobre todo o processo, que requer análise e cuidado (e ainda bem que o IVBAM – Instituto Vinho, Bordado e Artesanato da Madeira apoia cursos de incentivo nesse sentido, mas estamos longe de conseguir os objetivos de manutenção de nova mão-de-obra). É que atualmente as principais casas têm bordadeiras e costureiras, mas já não são tão jovens assim. E é preciso haver mais incentivos, para a criação de raiz, porque não falamos apenas em bordar, falamos no desenho, no picote, e na costura, também. Falo por mim. Sou criativo, mas sem as três costureiras que comigo trabalham não conseguia “fazer”, realizar. Contudo, tento atualizar o bordado, tornando-o apetecível, jovem, para que não se pense em algo antigo, arcaico. Conseguimos brincar com o conceito madeirense.
Então existe procura pelos jovens para transformarem as suas peças de família?
Sim, sem dúvida. Já tive uma cliente que me pediu para transformar peças das avós, atoalhados, e eu misturei vários tecidos nobres, criando um novo casaco – que ela mencionou ser para emoldurar, uma vez que representava toda a história da sua família. Da mesma forma, quem tem simples lenços bordados, pode aplicá-los como bolsos a camisas ou camisetas, tornando este vestuário, aparentemente simples, em algo completamente diferente. Basta haver criatividade, querermos mudar.
Além de peças diferentes, tornam-se em peças de luxo, não apenas pelo valor económico, que sabemos que o Bordado Madeira tem, mas porque ganham outra importância nas famílias madeirenses, com estas novas gerações, pelo seu valor sentimental, também.
O que pretendo é mostrar que tudo pode ser usado, tornando a peça intemporal, uma peça de luxo, sim, que passa de geração em geração. E por falar em luxo, em 2014 a Chanel trabalhou com a Casa Bordal – algo muito especial para nós, ilhéus, porque a Bordal é uma casa icónica do Funchal, com um trabalho incrível da Susana Vacas, pela promoção que desenvolve e, que teve a capacidade de perceber que o bordado é mutável, que consegue ser adaptado. Estas parcerias, tal como ocorre com a Vista Alegre, são brilhantes, deixando-nos muito orgulhosos enquanto criativos da Ilha.




