Revista Rua

2025-04-26T12:25:19+01:00 Cultura, Em Destaque, Literatura

Da maternidade – para um dia da mãe que deveria ser todos os dias

Livros que se destacam pelo tema “maternidade” refletem bem mais do que apenas o “ser-se Mãe”, mas principalmente abordam o “ser” que se torna em “uma mãe”.
Cláudia Paiva Silva26 Abril, 2025

Da maternidade – para um dia da mãe que deveria ser todos os dias

Livros que se destacam pelo tema “maternidade” refletem bem mais do que apenas o “ser-se Mãe”, mas principalmente abordam o “ser” que se torna em “uma mãe”.

Como amar uma filha, de Hila Blum (Quetzal) e Não fossem as sílabas de sábado, de Mariana Salomão Carrara (Companhia das Letras) são dois dos exemplos mais recentes de como a literatura cresce em diferentes vertentes. Não sendo um tema novo, ainda chega pouco perto do público nacional pelo real preconceito do que uma mãe deveria estar e ser perante a sociedade (que se diz moderna, mas ainda assim apresenta-se arcaica). Em O quarto do Bebé, de Anabela Mota Ribeiro (Quetzal), mais do que a doença da narradora, fala-se da criança que não nasce, do desejo de gerar vida e do vazio que existe por preencher, por exemplo.

Contudo, em Como amar uma filha, é o excesso de amor que se debate. A forma despudorada em como uma mãe quer proteger a sua filha, a forma atribulada como verifica que ao longos dos anos esse amor pode ser demasiado, impedindo, na ideia da mãe, de abrir as asas à sua cria. Um sentimento que leva a um afastamento que não se supera por não se conseguir, na verdade, identificar uma linha vermelha, o limite entre pai/mãe e filho/filha. Mesmo que mais ténue.

Escrito de forma parcimoniosa, os capítulos curtos e bem urdidos, com referências pontuais a outras paragens literárias, prendem o leitor – prendem aqueles que sentem de forma mais direta o realismo, ou que, na verdade, experienciaram o que se revela. Lendo sem mágoa, apenas com a certeza que às vezes pode-se amar demais, ganha-se consciência que ao nascer e crescer num matriarcado pode, por vezes e nem sempre, marcar uma Mulher tanto como coexistir num patriarcado.

Penso muitas vezes que, se tivesse dado à Leah um irmão, estaríamos salvas. Mas éramos uma dinastia de filhas únicas, a minha mãe era a filha única da minha avó, eu a única da minha mãe; em nossas casas, éramos as únicas testemunhas das nossas vidas, a nossa história nunca foi dividida por vários porta-vozes, ou refutada, era gerida somente pelas nossas memórias, estávamos nela sozinhas e, como parecíamos normais, não levantávamos suspeitas.”

Já em Não fossem as sílabas de sábado, Mariana Salomão Carrara, junta dois pontos. O começo e o fim. A morte de um pai ainda antes da filha nascer. Esventra a fase de luto de duas mulheres, se calhar, três mulheres, afinal. Uma que se torna mãe e viúva quase em simultâneo, outra que chora por um marido suicida, perturbado e que, na sua morte, provocou a morte do marido da primeira, mãe e viúva.

Uma mãe e duas viúvas, ou uma mãe que é viúva e outra viúva, que a partir do zero, recomeçam as suas vidas, mesmo sem vontade, ou sem se saber como. Aliás, como que se mesclam uma na outra, cuidando de uma criança que cresce com as duas presenças femininas, num matriarcado que não era suposto ter sido.

E sempre o peso da dúvida e uma culpa que ficará, enquanto sendo a outra metade do casal, que se calhar poderia ter decidido as coisas, de outra forma, num outro sábado, pela manhã.

Duas apostas literárias, muito distintas entre si, revelando o poder da maternidade, de como esta transforma a vida de cada pessoa, de como cada mulher gere as suas emoções. Porque não se é mais ou menos Mulher ao ser-se ou não Mãe. No final, resulta apenas em amor.

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