Revista Rua

2020-05-28T12:46:45+00:00 Opinião

Da solidão da cultura à companhia do bicho que mexe

Cultura e Artes
José Manuel Gomes
José Manuel Gomes
16 Maio, 2020
Da solidão da cultura à companhia do bicho que mexe

Escrevo este artigo ainda com o coração na boca. Normalmente é muito fácil, para mim, encontrar um tema para escrever ou pensar sobre mas, confesso, não tem sido fácil pensar no que quer que seja com estes tempos, além de difíceis, estranhos.

Pensava eu até há uns dias que ia ser mais um a falar na falta de apoios que a cultura tem, na falta de pensamento, na falta de critério, na falta de consideração, até, enfim, na absoluta solidão em que hoje se encontra a cultura. Além da estranheza, sinto aquela tristeza q.b. da forma como quem elegemos para resolver e tomar conta de certos assuntos no país, não ter a capacidade para fazer o que quer que seja de relevante. A tristeza que sinto de algo tão importante como a cultura estar abandonada pelas ideias, pelo público que se encontra confinado, pela estratégia e pela falta de soluções, é algo que me assiste há dois meses. Não queria fazer mais um texto destes e acreditem que não será disso que aqui vou falar, por isso, vamos ao tema.

Quem me conhece sabe que sou um profundo admirador do trabalho do Bruno Nogueira. Há fases em que o acompanho mais, outras menos, umas a achar mais piada, outras a achar menos, mas sempre a colocá-lo num patamar, ao nível humorístico, que mais nenhum seu par conseguiu. Acima de tudo, por ser o mais disruptivo de todos eles ao longo do seu trajeto. Outra coisa que me faz ser admirador do Bruno é que não é apenas humorista. É ator, também é músico e tem uma forma de relacionar o seu trabalho com as mais variadas formas de arte e cultura.

Quem foi acompanhando os seus diretos no Instagram conseguiu ver conversas entre agentes de diversas áreas: cinema, teatro, música, entretenimento, desporto, escrita, enfim… todas estas pessoas que, de uma forma ou de outra, vivem da criatividade e do poder de transmitir algo aos outros, de tocar nas pessoas com a sua arte. Não é isto o mais profundo objetivo que a cultura tem, afinal?

Ora, comecei o texto por dizer que ainda escrevo isto com o coração na boca e a verdade é que assim o é devido ao último dos diretos do Bruno Nogueira. Durante quase dois meses fui acompanhando, tal como milhares de pessoas, os diretos dele e esta solução que ele encontrou, juntamente com os seus convidados diários, para tornar os dias menos estranhos e menos tristes. Eu iria mais longe, no meu caso, eram também um ponto de encontro com pessoas ligadas à arte e à criatividade, despidas do seu contexto mais habitual, e com isso ter ali alguma âncora com a normalidade que tínhamos até há dois meses. Mais do que fazer rir, isto tocava em cada um de nós.

Foram vários os momentos – e agora vou usar o chavão que se tornou padrão para classificar algo de muito bom – épicos que foram acontecendo: desde tornar uma rádio no Polo Norte, que contava pelos dedos duma mão os seguidores, conhecida entre milhares; a tornar rostos da representação mais (re)conhecidos entre o público que ia vendo os diretos; ao momento em que Vhils desenha Zeca Afonso ao som da Grândola, entre tantos, mas tantos outros. Quando um artista – sim, vou classificar assim o Bruno Nogueira – nos consegue tocar da forma como ele e eles o conseguiram temos algo de muito genuíno e belo que acontece. Quando somos confrontados com algo que traz à nossa superfície a emoção e a beleza voltamos a sentir que apesar de tudo, há, ali algures, uma pontinha que nos remete para a nossa normalidade e para o que sempre conhecemos como certo nas nossas vidas.

Perante uma audiência que chegou a ter 175 mil pessoas, assistimos à catarse de tudo isto. Centenas de pessoas, na rua, a acompanhar o carro onde Bruno e Markl estavam, centenas de janelas com luzes de Natal, conversas de “despedida” e de surpresa, emoção, felicidade e nostalgia, esse sentimento que nos prende, nestes dias, para que nos aproximemos daquilo que queremos que as nossas vidas voltem a ser.

Tudo terminou com música, no Coliseu dos Recreios, com toda aquela amálgama de amigos/convidados/artistas entre outros, e ali, tal como várias pessoas se manifestaram através do chat, “não somos nada sem a cultura!”. Foi mesmo isso que senti: um momento de celebração, de comunhão, de saudade, de esperança até, de expressão através da arte e o culminar de dois meses de devaneios nas conversas de todos aqueles intervenientes. O que ontem assistimos foi mais forte e mais importante do que qualquer milhão, de fundo de emergência, para apoio das artes. Tocou a todos, fez-nos reencontrar com a humanidade e quando assim é, estamos mais próximos de nos reencontrarmos com a verdadeira beleza, importância e objetivo final da cultura.

Sobre o Autor:
Signo escorpião, sei informática na ótica do utilizador, programador do espaço cultural Banhos Velhos e sou um eterno amante de música, do cinema e do Sozinho em casa.

Partilhar Artigo: