Revista Rua

2021-05-03T09:53:20+01:00 Opinião

Da vida como ilusão temporária

Crónica
Francisco Santos Godinho
3 Maio, 2021
Da vida como ilusão temporária

Tantas vezes procurei por mim noutras pessoas para garantir que existia, embrulhado no pavor de não me reconhecer, nem com espelho concebia capaz de me achar eu. Somos tantas pessoas e conhecemos uma,

(mal)

um mindinho de gente que pergunta Como é que nós vivemos? e percebemos que quem nos poderia esclarecer essa parte do mistério de existir também não sonha como se vive, outras vezes pergunta Compreendes o mar que adormece connosco e desperta numa revoada de pássaros voando em turbilhão numa névoa difusa de olhos de cego? Que o passado murmure numa fúria insubmissa? Num grito calado? Numa deslumbrante planície de pálpebras tombadas dançando num silêncio endomingado? Compreendes que os sonhos, que a matéria dos sonhos seja feita de nós dois

(nós dois)

(nós dois)

vestidos com a roupagem dos astros? Compreendes porque é que entristeces lentamente como as árvores que se tingem de noite? Compreendes que pendemos todos da margem de uma lágrima que respira no escuro e da qual apenas sobra um eco rouco e manco que se parece connosco? Compreendes que, por vezes, a memória é a traição cruel do desgosto?

(não compreendo, não sei, não sonho sequer)

Compreende então que a noite, antes do primeiro sol, se ergue nas pernas firmes de dor e sombra, aí compreenderás tudo.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor
Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Autor do livro Sentido dos dias e da página Francisco Santos Godinho. Escritor. Luto contra o tempo de caneta na mão.

Partilhar Artigo: