Revista Rua

2021-02-19T10:05:18+00:00 Cultura, Música

Dada Garbeck: “O que eu faço é inseparável de mim. A minha música é, por si só, um objeto que existe independentemente do tempo”

Hoje é o lançamento de "The Ever Coming - Cosmophonia", o terceiro capítulo de uma tetralogia que começou com "The Ever Coming", um loop de 36 minutos ao som do orgão e da voz.
©D.R.
Nuno Sampaio
Nuno Sampaio19 Fevereiro, 2021
Dada Garbeck: “O que eu faço é inseparável de mim. A minha música é, por si só, um objeto que existe independentemente do tempo”
Hoje é o lançamento de "The Ever Coming - Cosmophonia", o terceiro capítulo de uma tetralogia que começou com "The Ever Coming", um loop de 36 minutos ao som do orgão e da voz.

Dada Garbeck, projeto de Rui Souza, “é uma mistura do profano, do sagrado, do popular, do jazz e do clássico”. Hoje é o lançamento de The Ever Coming – Cosmophonia, o terceiro capítulo de uma tetralogia, e é um disco que “vai mais a fundo na ideia de um organismo vivo uno e consciente”. Falamos com o Rui Souza sobre a música (a sua) no seu universo onde as vozes se mesclam com o som dos instrumentos, o último trabalho (apresentado hoje) e o que nos reserva este futuro tão incerto.

A proposta do Dadaísmo é que a arte ficasse solta das amarras racionalistas e fosse apenas o resultado do automatismo psíquico, selecionado e combinando elementos por acaso”. Esta entrada leva-nos ao teu nome e, consequentemente, à tua música. O teu nome espelha a tua música?

O nome Dada Garbeck espelha-se mais no eu enquanto sujeito e no eu enquanto pessoa que se relaciona com essa forma de olhar o mundo e a arte. Não faço, concretamente, música dadaísta. Mas é inevitável que, em conceito e no processo, o dadaísmo e o surrealismo estejam presentes em tudo o que faça.

Quando é que a música começou a fazer parte da tua vida?

Quando os meus pais ofereceram um piano ao meu irmão. Era eu muito pequeno e ficava às escondidas a ouvi-lo estudar. Quando ele saía, eu sentava-me ao piano e tentava replicar o que ele havia tocado sem que ninguém desse conta. Pela mesma altura, a minha mãe obrigava-me a ir à missa todos os domingos (íamos para o coro). Estes foram os primeiros dois preponderantes contactos com a música. Mais tarde comecei a estudar de uma forma mais séria e desde então que a música se tornou a minha forma de expressão e até, se quisermos, modo de vida.

Há uma espécie de narrativa, de continuidade, um filme musical que começou com The Ever Coming depois com The Ever Coming- Vox Humana. Fala-nos desta história.

Toda a tetralogia se baseia na ideia do eterno devir, da circularidade e da concepção de que não existem dois círculos iguais. Estas são as duas primeiras partes do todo. Elas são também, de alguma forma, autobiográficas, na medida em que retratam a minha ligação passada com a música erudita e com a música sacra. Do ponto de vista narrativo o primeiro disco é, em essência, o retrato de um homem na terra de cabeça reta, no Vox Humana é só o mesmo homem, mas a transcender a terra, olhando para cima.

Em The Ever Coming-Vox Humana existe uma maior predominância da voz, mas em The Ever Coming a persistência do órgão remete-nos para uma comunicação quase humana, como se de uma outra voz se tratasse. O órgão é a tua voz?

Tanto o orgão como a voz humana são, por excelência, os meios de comunicação mais transcendentes. Não é por acaso que, de uma forma transversal a praticamente todas as culturas, a voz é o caminho mais ancestral para chegar a um estado de transe e de contemplação. Mais tarde chega uma outra voz, essa voz é também um aparelho vivo, e daí o seu nome – órgão (organismo vivo). O órgão era sempre colocado numa posição celestial e altiva, o seu som remete-nos imediatamente para uma transcendência física, transformando-nos em matéria de uma consciência global. Alías, os órgãos são constituídos sobretudo por réplicas de sopros e de vozes. Têm, curiosamente, um registo (som) chamado Vox Humana. O órgão é sim, uma outra voz que tenho dentro de mim e que sempre levarei comigo. Se não como é que falo?

The Ever ComingCosmophonia será o terceiro capítulo desta tetralogia. Podes revelar-nos algo deste novo trabalho?

Se na primeira parte temos um homem de cabeça reta, na segunda a olhar para cima, nesta terceira, este homem já está lá em cima. Transcendeu. Este disco vai mais a fundo na ideia de um organismo vivo uno e consciente e, ao invés da voz humana, atribuo o maior relevo aos sopros. Os sopros têm esta capacidade de nos darem chapadas celestiais. Com este disco pretendo criar uma viagem cosmofónica, que nos permita parar, ouvir, em simultâneo criar, e ganhar uma nova consciência do tempo e do espaço. Este tema, sendo mais cosmológico, levou-me aquando das composições, a desenvolver uma linguagem mais jazzística.

O teatro e o cinema também fazem parte do teu trajeto e, atualmente, assumes a direção musical do Teatro da Didascália. Este cruzamento é essencial no teu processo criativo?

É absolutamente essencial. O trabalho que desenvolvo, por exemplo, no Teatro da Didascália, permite-me desenvolver mecanismos e ferramentas que, de outra forma, não teria. A ideia de trabalhar a música de uma forma mais visual, trabalhar a música para cena, mas também uma maior consciência do que é estar em palco, do que pode ou não ser uma performance – na ideia de elevar um concerto com atributos estéticos e mecanismos técnicos. Tudo isto, são contributos que obviamente se cruzam e ajudam a completar aquilo que é Dada Garbeck.

Podemos afirmar que a tua música é um sentimento em português que representa o mundo?

Não sei se consigo dizer que a minha música é isso tudo. Tenho um particular interesse pela tradição oral e cultura popular de alguns países do mundo. Sei que essa investigação, de alguma forma, também está presente no meu trabalho. Pese embora o meu especial entusiasmo pela tradição oral portuguesa. Dada Garbeck é uma mistura do profano, do sagrado, do popular, do jazz e do clássico. Interessa-me também isso, perceber que muitas das vezes, os limites, somos nós que os construímos. Talvez a minha música seja só um sentimento, uma lágrima ou um riso. Não sei se representa o mundo, mas representa a forma como eu e tantas outras pessoas o sentem.

A tua poesia musical está pronta para um futuro pós-pandemia, onde um dia voltaremos a estar mais perto uns dos outros?

O que eu faço é inseparável de mim. A minha música é por si só um objeto que existe independentemente do tempo. Ela nunca terá tempo. Se não, falhei. Mas tudo fará mas sentido quando o abraço voltar e quando devolvemos a voz à rua. Eu espero que possamos estar, não só mais perto das pessoas, mas estar de tal modo que nos possamos transformar em ventosas humanas.

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