Revista Rua

2019-06-19T13:46:21+01:00 Bússola, Viagens

Andreia Coutinho, da margem sul para o mundo

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Maldivas/ ©Andreia Coutinho
Nuno Sampaio19 Junho, 2019
Andreia Coutinho, da margem sul para o mundo
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Andreia Coutinho é da Margem Sul e vê Lisboa como segunda casa, mas sobretudo é cidadã do mundo. Já visitou 76 países, cerca de 8% do mundo, mas  o objetivo é visitar 241 países.  (awle) é o nome que Andreia utiliza para, através da sua página do Instagram, nos mostrar a sua visão sobre os locais por onde passa.

Estar constantemente em viagem é um sonho que todos partilhamos. Contudo, estar sempre longe de tudo, das pessoas, dos nossos sítios, das nossas coisas pode ser bastante difícil. Como é que encaras esse sentimento tão português, a saudade?

Por incrível que pareça, o mais difícil para mim é estar longe do meu gato. Adoro a minha família e a distância é sempre chata, mas hoje em dia é tão fácil manter o contacto de forma digital que acabamos por não nos sentir “tão longe” como na verdade estamos. O mesmo não se passa com os nossos animais. Infelizmente ainda não é possível fazer chamadas telefónicas ou trocar mensagens com um gato, por isso fica sempre aquele aperto no coração –  “Será que pensa que o abandonei? Que me esqueci dele?”. Também me custa por saber que eles têm uma esperança média de vida tão curta e ao estar meses e anos fora, acabo por perder muito da vida dele. Quanto às coisas e aos sítios, sou bastante “desprendida” nesse aspeto. A única vez que senti realmente falta do meu cantinho foi na maior viagem que fiz à Ásia há dois anos. Estive tanto tempo daquele lado que já sentia falta da Europa. Da nossa higiene, da organização, de não ter de estar constantemente a regatear o preço das coisas… etc. Mas nada de extraordinário. No final do dia, sem dúvida que são as pessoas de quem eu tenho mais saudades.  Nomeadamente família, amigos e amigos de quatro patas. De resto, sinto-me “uma pessoa do mundo”. Mas estou bem em qualquer lado, desde que lá se esteja bem!

Qual a sensação de já ter conhecido 8% do mundo e de saber que ainda falta tanto para completar essa viagem?

Até ao dia de hoje estive em 76 países e estou agora com viagem marcada para os 80.  Contando assim, e visto que quero ir a todos os países e dependências do mundo e não apenas às 196 nações soberanas, são 76/241. Cerca de 31.5% do mundo. Mas claro, se for a contar cidade a cidade e lugar a lugar onde meti o pezinho, se calhar nem chega aos 8%. Mas tenho de ter um objetivo mais sintético, para sentir que é possível lá chegar um dia. Já me sinto muito feliz e sortuda pelas oportunidades que tenho tido até agora. Definitivamente ainda falta muito, mas também sou muito nova. Estou esperançosa. Enquanto tiver saúde e estabilidade financeira ao longo da vida, não duvido que lá consiga chegar.

Depois de tantas viagens achas que o mundo é mais pequeno do que parece?

Sim e não. Quando começamos a ver os países a serem riscados da bucket list um a um, parece que afinal não há assim tanta coisa. Mas por outro lado é enorme e nunca mais acaba! Há tantos países, tantas ilhas, tantas cidades, tantas aldeias, nunca vamos conseguir ver tudo. Algo muito giro que me tenho vindo a aperceber, que me dá a sensação de que o mundo não é assim tão grande, é o degradé de cultura que se vê quando se atravessa o mundo de uma ponta à outra. Parecemos tão diferentes uns dos outros quando nos comparamos a um país distante, mas se formos ver, passo a passo no mapa, a mudança é incrivelmente ligeira. É impressionante como as coisas (arquitetura, arte, pessoas, tradições) vão mudando tão suavemente ao longo do mapa. Dá para fazer um puzzle. A expressão “choque cultural” deixa de fazer sentido.

Durante todas estas viagens qual foi o país que mais te marcou (pela positiva ou negativa)? Tens alguma história que queiras partilhar connosco?

O país que mais me marcou pela positiva foi sem sombra de dúvida o Japão. Desde pequenina que tinha um fascínio enorme pela cultura deles e sempre foi o meu destino de sonho. Tinha as expectativas mais altas do mundo e não me desiludiu. Pelo contrário. De tal forma que chorei de emoção quando de lá saí a primeira vez. Tenho tantas histórias engraçadas e curiosas que honestamente nem sei qual seria merecedora de destaque. Felizmente não tenho nenhuma história negativa ou assustadora para contar, como sei que muitos viajantes têm (tipo serem presos, chantageados, enganados…etc). Tenho tido sorte até agora.

Quando regressas a casa tens logo vontade de voltar a sair? Viajas muito por cá também? Qual o sítio que gostas sempre de voltar em Portugal?

Sim, logo! Eu ainda não voltei da viagem anterior e já só descanso quando tenho a próxima marcada. Aliás, acho que há três ou quatro anos que não sei o que é, não saber, onde vou a seguir. Nunca estou cá muito mais do que um mês seguido. O bichinho das viagens é tramado! No entanto, quando cá estou, não costumo viajar muito por cá. Só se for para me deslocar a festivais ou eventos. O que é um erro, porque o nosso país é lindíssimo. Mas já passo tanto tempo fora que aproveito essas alturas para estar em casa com a minha família, rever amigos e viver aninhada com o meu gato. O sítio que mais adoro aqui e para onde gosto de voltar é o meu ninho. Sou da margem sul e como costumamos dizer podemos sair da margem sul, mas a margem sul não sai de nós! Sem dúvida que é onde tenho o maior sentimento de pertença. E claro, Lisboa. A nossa linda capital e minha segunda casa! Para passear e ir à praia não dispenso a Serra da Arrábida e as praias de Sintra, perto das Azenhas do Mar. Passo lá muito tempo.

Algum país/local que gostasses de visitar e por algum motivo achas que não vais conseguir?

Todos os países onde quero ou queria muito ir são de fácil acesso, felizmente. Acho que o mais perto que tenho dessa ideia inalcançável é a Arábia Saudita. Pelo facto de ser quase impossível conseguir vistos turísticos. Até há pouco tempo nem existiam, mas felizmente está a mudar nesse sentido e já começa a ser possível, pelo que acho que hei de conseguir, mais tarde ou mais cedo, mas é mais pela minha vontade de querer ir a todos os países do mundo. Se pensar no caso particular de cada um desses países muito fechados como Guiné Equatorial ou Coreia do Norte,  a verdade é que pouco ou nada me dizem. A Arábia Saudita ainda é o que me dá mais curiosidade, mas apenas pelo facto da minha família ter vivido muitos anos no Bahrain, que é uma pequena ilha cuja única ligação terrestre que tem é com a Arábia Saudita. E já estive na fronteira tantas vezes que se torna ridículo ainda não ter conseguido lá ir por questões burocráticas. Mas normalmente esses países muito fechados também costumam ser, quase todos eles, péssimos no sentido da liberdade que conferem ao povo e nas condições de direitos humanos. Isso é algo que me irrita bastante e me faz ter pouca vontade de ir lá. Seja como for, quero ir na mesma e descobrir o que de bom têm para dar! Felizmente, acho que nenhum país é completamente impossível de visitar. Há sempre uma ou outra forma de contornar a burocracia. Com paciência, dinheiro, tempo e dedicação.

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