Revista Rua

2020-05-19T11:34:17+00:00 Opinião

Dar o não dito por dito

Crónica
Márcio Luís Lima
Márcio Luís Lima
19 Maio, 2020
Dar o não dito por dito

Rompe no silêncio os gritos de clamor, de desespero. Não há panfletos literários e nas ruas não se espalha senão publicidade barata. O último escritor permanece num silêncio de seu peito – não brame na frente de guerra nem se entrega à zona franca.

O silêncio bate e volta. Encontra um sólido muro que o faz recuar e propaga-se ruidosamente na divisão do pequeno apartamento. Vê-se confinado a si próprio. Silencia-se constantemente. Até onde vai e volta o silêncio? Os ecos da ausência corroem o artista e sugam-lhe a última prosa perfumada.

Quem leva a caneta e o manuscrito? A mala de mensageiro Hermes não passa pela porta do quarto e a caneta secou a tinta. Não tarda tudo se torna num bolo de asco, com um odor de melancolia mórbida. Os pedantes que o seguem querem a amabilidade rasca.

Quinhentas páginas de repetição melancólica, o regozijo do abandono. O amor na sua forma mais tosca. E os transeuntes banais embasbacam-se com palavras fáceis da gíria especializada nos “assuntos da vida”. Todos baratos. Todos demasiado baratos. “(…) compram autores muito parecidos com ele, e que a mais só têm um pequeno toque de cor… sevandija-mor, lacaio-mor, lambe-botas… inconfidências, água benta, baixezas, moscambilhas, facas afiadas, envelopes… o necessário para que o leitor se reencontre, se identifique, se sinta seu semelhante, um irmão muito compreensivo capaz de tudo…” a revolta de Céline.

De mim não se levanta tanta revolta. Não compactuo com a melancolia e não vendo a facilidade do sentimentalismo. Aliás, não vendo de todo. Os grãos de areia somam-se um por um e os cães continuam a defecar-lhes em cima. A areia envolve-se num croquete que se embeleza em resplandecência dourada.

A pobreza dos mendigos que escrevinham na solidão taciturna da sua própria companhia é dolorosa de se observar. Todos viram o rosto para o chão e pisoteiam as pequenas musas de aguarela na fauna rupestre da urbe.

Levo daqui para ali o resto das ossadas do meu corpo. Os músculos cessam as funções e a memória produz os fetos mais abstratos findados em nados-mortos. O aborto da influência e o parricídio da inspiração. Não posso escrever. Não posso nada dizer, não de bom grado ou de queixo erguido. Quanto mais tenho os cornos rebentados no canto do ringue à espera de clemência. Tudo o que se possa verbalizar, no ardor do instante, é uma diarreia insana que espera filtração do tempo.

O resto continua a escrever num frenesim anarquista sem avaliação qualitativa. O que importa é a quantidade – uma carta para ti, outra para mim – duas páginas de diário e três frases de encaixe mnemónico rápido. Ejaculam precocemente sobre a literatura e brotam um ficção demasiado límpida, polida, formalizada… demasiado presunçosa para três palmos de testa sem veio de sangue, traumatismo craniano ou hemorragia interna experienciada.

É um diz que disse – dar o não dito por dito – e o escrito por vivido.

Sobre o autor

Licenciado em Filosofia (atual mestrando). Escritor, no sentido lato da palavra. Um apaixonado por boa literatura. Presente através do ig (@marcioluislima) e de becodapedrazul.wordpress.com. Toda a escrita tem por base o detalhe certo, daí sucede-se a vida.

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