Revista Rua

2020-07-21T12:02:26+00:00 Opinião

De quem é que se espremeu um texto assim tão doce?

Crónica
Francisco Santos Godinho
Francisco Santos Godinho
21 Julho, 2020
De quem é que se espremeu um texto assim tão doce?

Tomamos por certo que o sol estende os dias nos meses de verão, o jantar ainda alumiado na mesa, uma janela entreaberta, um quintal iluminado nas horas que se seguem ao jantar, os cactos que se banham de luz por mais horas, o silêncio do fim do dia ainda na claridade de uma manhã que se prolonga e podemos perguntar-nos se algum contrapeso pende dos ponteiros do relógio e os faz girar mais lentamente dizendo que vinte e uma mas ainda dezassete, o que se me afigura dezassete, uma maré vaza e morna até aos tornozelos, a tua mão na minha e o primeiro dia de férias, sete de julho, dezoito de agosto ou qualquer outra data inventada ou por inventar com mais claridade, paz interior ou o significado pessoal de felicidade, um banco de madeira coberto com a névoa que a lua traz, uma árvore pendendo sob o céu, cortando-o em forma de meia-lua irregular, o desenho das folhas em azul escuro, clareado na parte que a lua bordeja, um candeeiro de rua de vidro fosco, uma luz quente que cria uma orla em torno do banco, ambos sentados e a noção de tempo tão afastada, a noção de tempo tão fluída, tão miudinha, lá no fundo de tudo, quem a molda somos nós e sei que os ponteiros parados, o que importam os ponteiros quando estamos ambos sentados lado a lado, a minha mão na tua e tenho a certeza que, por cima de ti, está um sol que é só teu e eu feliz, esperando ansiosamente que o sol não fuja, da mesma forma que o cego do livro do Dinis Machado aguarda nervoso os olhos que encomendou pelo correio e todos os outros lugares-comuns insuportáveis que sabem tão bem – para terminar, o mais terrível: és terra de fim de tarde quando abres as portas da alma ao verão dos dias. De quem é que se espremeu um texto assim tão doce?

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor
Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Autor do livro Sentido dos dias e da página Francisco Santos Godinho. Escritor. Luto contra o tempo de caneta na mão.

Partilhar Artigo: