Revista Rua

2020-11-16T10:30:17+00:00 Opinião

De uma Casa Natural

Crónica
Márcio Luís Lima
Márcio Luís Lima
16 Novembro, 2020
De uma Casa Natural

Há uma ideia presente na literatura portuguesa que tenho vindo a acompanhar em diversos autores que é a “casa”; mais recentemente no romance Casas Pardas de uma das minhas autoras prediletas e que em tanto me influenciou e inspira – Maria Velho da Costa.

A “casa” tem muitas maneiras de ser abordada, interpretada, descrita, etc., mas decidi escolher a singela observação conimbricense de um simples estudante, isto é, a minha perspetiva desligada de qualquer “para-além” metafísico de interpretação. Quando desço do primeiro andar até à porta de entrada do meu prédio para fumar um cigarro, dou de caras com muitas casas, prédios, pessoas que se deslocam para o seu quotidiano e carros nos constantes afazeres. Ora pela manhã a casa tem uma cor diferente da tarde e da noite. Há uma aura que a envolve que depende da meteorologia, por exemplo.

Quando perfilei o meu olhar para as diversas arquiteturas percebi que poderia ver em cada estrutura de casa uma raiz. Fazendo uma alegoria a uma árvore – mas no sentido inverso. Vejamos que a estrutura é o que se mantém e perdura no tempo. Sempre no mesmo sítio, pesado, quase irrelevante ainda que sendo a parte mais importante. Por conseguinte, a árvore cresce para dentro, isto é, o conceito de “casa” desenvolve-se dentro da raiz, aliás, para dentro da raiz.

©D.R.

A decoração é o que muda com mais frequência, assim comparo-a às folhas que se mudam ao longo das estações. Há uma beleza estética na mudança das folhas. Na folhagem enquanto cresce, na flor antes do fruto… há o belo na árvore, o belo individual antes do todo paisagístico, para mim isso parte da folha/flor que na casa se representa como a decoração. Assim que recebemos convidados, a primeira coisa com que dão caras ao entrar pela porta adentro é numa certa graduação de cores, nos quadros artísticos ou nas velhas fotos de família, etc., é a estética que salta à vista desarmada.

Por fim o fruto. O fruto acaba por ser o grand finale do espetáculo natural de uma árvore, e o artificial de uma casa – quem lá vive. O que acontece dentro da casa, o que se espoleta entre os seus viventes, as histórias, os desaires e tudo isso são parte do processo da formação do fruto, ou até mesmo o fruto em si.

Em Coimbra, dada à maioria estudantil, as casas vão cambiando frequentemente de inquilinos e todos os anos há “fruta” nova proveniente da mesma “árvore” – a tal história supracitada: histórias, desaires, ideias, projetos, relações, amores, etc.; para quem como eu se deixa engajar pela elegância da observação ao fumar um cigarro à entrada do prédio e se atenta a tudo isto, entrega-se a um poema urbano – aqui já entre o “para além” metafísico que inicialmente tentei evitar.

É quase surrealista reparar numa casa, na sua estrutura, no seu interior e no seu todo. É uma casa, passa-se por ela e nem se dá conta do seu peso para além do peso banal que um prédio tem: o cimento, os tijolos, as telas… talvez seja necessária uma certa esquizofrenia (ou abismal aborrecimento) para se olhar uma casa, mas numa casa vejo uma árvore artificial, cujo seus acontecimentos se desenrolam com a maior naturalidade humana. A naturalidade artificial do humano acontece na espontaneidade do homem e volta a si na memória do que um dia foi.

Sobre o autor

Licenciado em Filosofia (atual mestrando). Escritor, no sentido lato da palavra. Um apaixonado por boa literatura. Presente através do ig (@marcioluislima) e de becodapedrazul.wordpress.com. Toda a escrita tem por base o detalhe certo, daí sucede-se a vida.

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