Revista Rua

2020-02-24T10:55:37+00:00 Cultura, Fotografia

“Deeper Shades” de Andreas H. Bitesnich e os 40 tons de Lisboa

Ao todo são 143 fotografias de Andreas H. Bitesnich expostas até 21 de junho no Museu Berardo.
©Andreas Bitesnich
Cláudia Paiva Silva
Cláudia Paiva Silva24 Fevereiro, 2020
“Deeper Shades” de Andreas H. Bitesnich e os 40 tons de Lisboa
Ao todo são 143 fotografias de Andreas H. Bitesnich expostas até 21 de junho no Museu Berardo.

As fotografias de cidade feitas por Andreas Bitesnich são como um puzzle, fragmentos daqui e dali, retalhos do dia a dia, ou como diz o próprio, “sais de casa e a própria vida, a própria cidade te oferecem imagens que não estavas à espera”. Para Andreas (Viena, 1964), mais do que procurar a imagem perfeita, que é possível, mas que implica muitas vezes madrugar bem cedo, é ir olhando em volta e deixar que o instinto o encaminhe na direção certa. A fotografar cidades desde os anos 90, começando a série Deeper Shades com uma homenagem a Nova Iorque que atravessa quase praticamente duas décadas, o segredo é a forma como usa os filmes que vai elaborando de cada vez que se propõe a um trabalho destes. Vai correndo o filme e, no meio de 200 imagens, algumas ganham maior sentido e importância. Explica também que existem aproximadamente 250 tons intermédios entre o preto e o branco, e que tenta usar 40 desses cinzentos para as suas formas. Diz que ao longo deste tempo nunca sentiu diferença ou pressão por fotografar seja o que for onde for – e em que país for. Questões de segurança nunca se colocaram, até porque existe a exigência de um respeito ao meio a ser fotografado, onde pessoas facilmente “se tornam” em sombras ou silhuetas – exceção feita em Tokyo, onde se destacam os grupos de rockabillies nipónicos, fotografados propositadamente. O convite para Lisboa foi feito pelo curador da exposição agora patente no Museu Berardo no Centro Cultural de Belém em Lisboa.

©Andreas Bitesnich

O curador da exposição, João Miguel Barros, é taxativo em afirmar que, desde 1959, ano em que foi editado o livro Lisboa, Cidade Triste e Alegre de Victor Palla, nenhum outro fotógrafo tinha olhado para a cidade desta maneira tão detalhada, em que a luz e sombra funcionam como uma batalha entre o bem e o mal. Já Andreas, que deseja vir passar uma temporada à capital no próximo inverno, continuando o seu trabalho e pesquisa, (e revelando à RUA que simplesmente sente que é o correto, porque se sente bem acolhido, porque se sente em “casa”, existindo uma conjugação de fatores muito forte), refere que é também a existência de uma estética específica entre a arquitetura dos anos 30/40 e ao que hoje vai sendo (re)construído que lhe chama a atenção: “talvez seja uma linha (de arquitetura) masculina, e talvez seja por isso que me agrada, e possivelmente é um legado arquitetural que me diz algo”. Por outro lado, afirma que ficou bastante feliz quando percebeu que nesta exposição as pessoas querem saber mais, têm o interesse em perguntar como foram feitas, como foram fotografadas, detalhes técnicos e do tipo de ambiente, em vez de apenas chegarem e passarem sem terem o cuidado de realmente “ver”. Trabalhando em vários projetos ao mesmo tempo, afirma também que é isso que torna a profissão de artista tão maravilhosa, a capacidade de poder fazer várias coisas ao mesmo tempo, em atos de criatividade e estímulo constantes.

©Andreas Bitesnich

Numa última questão, perguntando-lhe que palavra usaria para descrever Lisboa, a resposta foi imediata: “sunny” seguindo-se uma gargalhada. Cidade soalheira porque esperando ter o mau tempo que tanto aprecia para fotografar, no que seria um inverno típico, acabou por ter sol na maioria dos dias, tomando o facto como um desafio tanto irónico como engraçado e bem superado.

Ao todo são 143 fotografias expostas até 21 de junho, enquadradas por ordem cronológica de acordo com os álbuns já editados da coleção Deeper Shades, desde Nova Iorque, passando por Tokyo, Paris, Viena e Berlim, culminando com uma sala amarela, como a cor dos elétricos, para Lisboa. Uma viagem em imagens para todos os amantes de fotografia e para quem consiga ver que para além do que uma simples imagem parada há sempre uma história por contar.

Mais informações sobre esta exposição aqui.

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