Revista Rua

2020-05-01T14:56:10+00:00 Opinião

Degraus de gigante em passinhos de bebé

Crónica
Francisco Santos Godinho
Francisco Santos Godinho
1 Maio, 2020
Degraus de gigante em passinhos de bebé

Há quem toque a eternidade tão suavemente e, especialmente nestes dias, alimentam-nos a alma e mostram-nos claridade, por exemplo, Charlie Parker a desenhar os astros nota a nota na sua versão de All The Things You Are, os arrepios pela coluna fora,

(é impossível não os sentir)
causados pela Paixão Segundo São Mateus, de Bach, António Botto, que a vida tratou tão mal, explicando

– Dizer a verdade é conversarmos com deus
a voz nocturna de Chet Baker em Dancing On The Ceiling, um piano distantíssimo alongando-lhe as palavras, a forma como Tolstoi conseguiu costurar a vida e a morte numas poucas de páginas a que chamou A Morte de Ivan Ilitch,

– A história passada da vida de Ivan Ilitch fora a mais simples e vulgar e por isso a mais horrível

por isso existe um sítio nosso tão interno, fechado, raramente tocado que, sem mais nem porquê se manifesta, quando tudo está quieto e entendemos melhor o que andamos aqui a fazer como quando, por exemplo, fechamos os olhos numa igreja vazia, não é preciso acreditar em nada nem pensar em nada de concreto, basta fechar os olhos por instantes para percebermos que há muito mais para além do que vemos, há uma imensidão de vozes passadas e presentes, rostos, músicas que nos explicam o que sentimos sem que precisemos de o dizer e, para terminar, Rilke, sobre o mês de Abril, numa tradução minha onde tento fazer justiça às suas palavras originais,

Tudo está quieto. As pedras são embaladas para dormir

Pelo suave som da chuva que lentamente morre.
e digam-me lá se não nos sentimos mais preenchidos perante as obras de quem subiu degraus de gigante em passinhos de bebé?

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor
Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Autor do livro Sentido dos dias e da página Francisco Santos Godinho. Escritor. Luto contra o tempo de caneta na mão.

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