Revista Rua

2021-11-16T10:49:46+00:00 Cultura, Literatura

Democracia e Poder em debate no Festival de Poesia de Oeiras

Sob o tema “Democracia e Poder”, realiza-se a 1ª Edição da Bienal Internacional Poesia Oeiras, entre os dias 16 a 21 novembro no Parque dos Poetas.
Cláudia Paiva Silva16 Novembro, 2021
Democracia e Poder em debate no Festival de Poesia de Oeiras
Sob o tema “Democracia e Poder”, realiza-se a 1ª Edição da Bienal Internacional Poesia Oeiras, entre os dias 16 a 21 novembro no Parque dos Poetas.

Com um painel ilustre de 100 convidados, dos quais se destacam dois prémios Nobel, Mario Vargas Llosa e José Ramos Horta, além de Nando Reis, músico da mítica banda brasileira Titãs e Simone de Oliveira, incontornável e icónica figura, sinónimo de Liberdade e Igualdade em Portugal, esta edição da primeira Bienal Internacional Poesia Oeiras, irá apresentar ao público, durante uma semana, uma nova forma de pensar e estabelecer contacto com o mundo das letras poéticas, que nem sempre se mostra fácil ou acessível ao leitor. A Revista RUA participou na apresentação oficial do evento, durante o qual foi explicado o objetivo de trazer a arte poética ao público em geral, dando-lhe ferramentas para que a sua voz seja uma arma de Poder, numa época em que os elementos digitais reduzem cada vez mais a troca de palavras entre pessoas, principalmente entre os mais jovens.

Para Tito Couto, Diretor da Book Company, entidade que organiza e produz o Festival, sendo (a poesia) algo que faz parte integrante nas nossas vidas ao longo dos séculos, tenta-se assim criar uma nova linguagem que chegasse a toda a gente, partindo-se da construção de pontes entre a poesia e a música, a poesia e as artes digitais, sempre com a base do tema escolhido. “O Poder da palavra revela-nos enquanto cidadãos e enquanto identidade individual e comum, podendo também ser dado a conhecer na arte poética”. Jorge Barreto Xavier, Diretor Municipal da Educação, Desenvolvimento Social e Cultural, adiciona “a Palavra é crítica no exercício da Democracia Popular”. Isaltino Morais, Presidente da Câmara de Oeiras, diz não restarem dúvidas: “a Poesia é uma arte e uma ferramenta política, e os políticos conseguem, sem dúvida, serem poetas no que toca ao sonho, ao que ambicionam fazer ou ver feito”, acrescentando: “é essencial o poder da palavra para impedir tiranos fascistas, que também se julgam poetas, mas veem a realidade de forma muito diferente dos restantes”.

Outro tema a ser abordado é a presença da Inteligência Artificial na Poesia. Será uma máquina algum dia capaz de escrever notas poéticas? Se a poesia passa pela transmissão de uma visão humana do mundo, de forma tão particular e íntima, como poderá um robot escrever? Jorge Xavier Barreto afirma que a “vida não é transmissível por palavras exatas, mas sim por aquilo que se diz não dizendo”.

Localizados com vista privilegiada para a foz do Rio Tejo, o Parque e Templo dos Poetas, onde irá decorrer a Bienal, foram concebidos como local de inspiração. Isaltino Morais descreve: “Do Tejo partiram as naus e caravelas, trazendo-nos depois a troca de culturas e de experiências, e não podemos negar que das Descobertas resultaram tantos poetas representativos da diáspora da Língua Portuguesa no Mundo. Assim também as artes devem ser trazidas para a rua, não podendo ficar confinadas a espaços fechados”.

Em entrevista à RUA, Jorge Xavier Brito revela que já foram criadas duas âncoras para o trabalho em torno da Poesia, como estratégia para os elementos culturais a estabelecer nos próximos anos. Uma delas, a Bienal, vocacionada para uma projeção internacional das dinâmicas em torno da reflexão sobre a Poesia, sendo a Mostra de Arte da Palavra “mais vocacionada para o empoderamento da população e nomeadamente da população escolar e dos mais novos, resultando de um trabalho sistémico ao longo do ano escolar em torno da poesia”. Nesta Mostra, desenvolve-se não só a leitura, como também a oralidade, “através de concursos de eloquência para os jovens, com o apoio da Associação A Palavra”, tentando assim que haja outro espaço de abordagem a que as camadas mais jovens da população possam aproximar-se da poesia, diminuindo assim a iliteracia resultante da utilização das redes digitais. “Dessa mesma forma, pode-se chegar às famílias e amigos, ou seja, existe uma relação muito direta com a população”.

Em relação aos níveis atuais de iliteracia em Portugal, que continuam a ser bastante baixos mesmo 50 anos após a Revolução de 1974, a qual trouxe (ou deveria ter trazido) uma total revolução da e na palavra oral e escrita, Jorge Xavier Brito afirma “Portugal continua a ser um país de imensa desigualdade. A democracia portuguesa infelizmente não resolveu, durante os seus 47 anos, essa mesma desigualdade, embora não possamos ser totalmente negativos. Muita coisa boa aconteceu, como a criação do Sistema Nacional de Saúde, o Sistema Nacional de Educação, o facto da Cultura ser do acesso de todos, não falando da liberdade de expressão, portanto, é um Portugal muito diferente do que era, para melhor. Dito isso, infelizmente, os esforços para combater as desigualdades não foram resolvidos e isso reflete-se em muitos aspetos, nomeadamente nas literacias. Eu não tenho uma solução, mas tenho lutado ao longo dos anos e décadas por um projeto de presença artística nas escolas, porque acho que é um elemento extremamente crítico para melhorar as competências de literacia, embora se saiba que os sistemas educativos não consigam, por vários motivos, implementar essa componente e tarefas de forma geral”. “Em Portugal, a sensibilidade dos decisores políticos de topo, embora digam que percebem imenso de Cultura, é habitualmente muito pequena para decisões críticas deste género. Mas uma das melhores formas de melhorar as Democracias e de aproximar pessoas com estatutos económicos diferentes é através da Cultura, porque se permitirmos acesso a toda a população, estamos a dar a todos as mesmas condições para que possam pensar, criar, e isso é um trabalho crítico também da Democracia”.

Exposições, espaço de livraria, conversas-concerto, masterclasses, workshops, debates e conferências, perfazem um programa intenso de palavras que certamente irá agradar a todos.

Mais informações e programação completa pode ser vista em Bienal Poesia Oeiras.

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