Revista Rua

2020-02-21T10:15:05+00:00 Opinião

Depois do Medo

Cultura
Ana Marques
Ana Marques
21 Fevereiro, 2020
Depois do Medo
©D.R.

Daquilo a que a minha memória costuma reter, o celebrado dia de namorados costuma ser visto como um dia como os outros: envelheço, apercebo-me que cada vez menos tenho paciência e descubro que resignar-me a partilhar a minha futura casa com gatos, afinal, continua a não ser uma ideia assim tão descabida.

Todavia, lá pelo meio disto a que designamos de vida, existem datas e acontecimentos que mudam a nossa história e todas as nossas perspetivas. O meu 14 de fevereiro deste ano e o de mais de 13 mil pessoas, com certeza que elas concordarão comigo, foi inesquecível (e não, não me refiro ao refrigério dessa noite empolgante).

No espetáculo do Bruno Nogueira, intitulado Depois do Medo, realizado na passada sexta-feira, Ricardo Araújo Pereira eleva-me a fasquia para uma possível declaração de amor ao Bruno aqui nesta crónica. Aquelas palavras foram – e, aliás, como sempre são – de uma qualidade inqualificável, que eu jamais as poderei ultrapassar (nem quero).

Eu estava sentada ali do lado direito, no balcão 1, a choramingar que nem uma Madalena e a rir que nem uma louca. Agora, imaginem estas duas sensações e outras tantas mescladas numa pessoa claramente insana. E digo mais: imaginem essas sensações todas, em 13 mil pessoas.

O medo foi ultrapassado, Bruno. Conseguiste-o diante de mais de 13 mil pessoas, esgotando a Altice Arena, após estes dez anos que pareceram uma eternidade. Dizes que é mais fácil encarar um público com menos pessoas do que aquele que ali viste, e vimos perfeitamente isso naquele palco, porque considero que não vi uma única pessoa que não se risse de uma piada que tivesses debitado, mesmo quando o humor roçava em questões mais débeis.

Num dia como aquele, a tua homenagem e declaração de amor foram ainda maiores que a minha de ter ido do distrito de Viseu até Lisboa: fizeste-o para os teus, para aqueles que serviram de material humorístico, mas que, mais que isso, são a matéria-prima da tua essência. Nós, meros espectadores e admiradores, sentimos que fizemos parte desse teu mundo. Desde a avó Maria, que claramente está mais que orgulhosa, desde os teus pais, a tua irmã, a tua mulher e, menos importante, nós, o público que sabe de cor o poema inesquecível do ganso. E isto tudo porque nos revelaste o teu medo, te deste de corpo e alma, mostraste as tuas controvérsias pessoais, as tuas agonias e incómodos, ainda que ali visivelmente disfarçados de humor.

Confesso que chorei e, as lágrimas, que se somavam mais do lado esquerdo, acompanhavam o riso aclamado que dava. O privilégio de assistir ao teu medo deu-me ainda mais certezas de que tu nasceste para isto, que nós precisávamos do teu regresso, e que a comédia em Portugal evidentemente que terá o teu lugar reservado para a posteridade, estejas como estiveres na lápide.

Sobre o autor:

Estudo Ciências da Comunicação. Sou uma espécie de Camilo Castelo Branco: escrevo coisas aborrecidas e poucos reconhecem o meu talento. Há quem diga que tenho algum humor, eu digo que emano comédia.

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