Revista Rua

2019-02-06T17:16:26+00:00 Opinião

Descida do IVA na cultura. Para quem?

Música
José Manuel Gomes
José Manuel Gomes
6 Fevereiro, 2019
Descida do IVA na cultura. Para quem?

Sabe-se já desde os finais de 2018 que iria haver uma mudança substancial na cultura em Portugal, nomeadamente, com a descida do regime do IVA em vigor: de 23% para 13% e, em alguns casos, para 6%, apenas.

Esta autêntica dupla descida deve-se, como se sabe, pela medida do Governo de descer o valor deste imposto para eventos ao ar livre e festivais de música (os tais casos onde o IVA passa para 6%). Porém, como também se sabe, deve-se sobretudo pela pressão de alguns lobbies que em nada estão interessados em facilitar o acesso da população à cultura, mas sim em manter uma tradição violenta e sem nexo, em pleno século XXI, viva e, claro está, com maior lucro para quem a promove. Vamos lá a ter calma, este artigo não é sobre touradas, nem quero entrar nessa discussão de “chover no molhado”; não é isso. Importa aqui pensar e refletir se esta descida do IVA é, por exemplo, acompanhada pela descida real dos preços dos bilhetes de alguns festivais de verão.

A partir do momento em que há o anúncio da descida do valor do IVA, é normal as pessoas pensarem e esperarem que isso tornará a bilheteira dos supracitados festivais de verão e eventos ao ar livre mais acessíveis; mas pode não ser muito bem assim. Em alguns casos, inclusivamente, os preços aumentam face a 2018. Fazendo um apanhado de alguns festivais de verão a título de exemplo, vemos que há uma real descida no valor da bilheteira em festivais como o Vodafone Paredes de Coura, onde o valor do passe geral passa de 100 euros para 84 euros em 2019. No que diz respeito ao passe diário ainda não existem informações até à data. No NOS ALIVE há uma descida, em 2019, para o valor de 60,98 euros pelo bilhete diário, face aos 65 euros de 2018 e, no passe geral, quem quiser ter acesso a este em 2019 tem de pagar 139,77 euros, face aos 149 euros de 2018: aqui a diferença é menor, mas ainda assim ela existe. Convém referir que neste caso do NOS ALIVE houve um aumento significativo do valor dos bilhetes de 2017 para dois 2018, já que em 2017 quem fosse ao Passeio Marítimo de Algés desembolsava 59 euros para um bilhete diário e 219 euros para ir todos os dias. Ou seja, em 2019, mesmo com a descida do regime do IVA, o NOS ALIVE consegue manter basicamente os mesmos preços que praticava em 2017.

A partir do momento em que há o anúncio da descida do valor do IVA, é normal as pessoas pensarem e esperarem que isso tornará a bilheteira dos supracitados festivais de verão e eventos ao ar livre mais acessíveis; mas pode não ser muito bem assim.

No NOS Primavera Sound o caso é de avaliação mais complexa pois este festival pratica vários preços dependendo da distância temporal a que compremos os passes. Mesmo assim, e avaliando os preços finais, ou seja, os de compra na hora, o passe geral em 2019 é de 141 euros face aos 145 euros de 2018. Apesar de haver uma ligeira descida para quem quiser ir todos os dias, o bilhete diário é mais caro neste ano: passa de 60 euros de 2018 para 70 euros neste ano. Por último, no Super Bock Super Rock, os passes são mais caros neste ano; tanto no geral como no diário: 110 euros neste ano para quem quiser ir todos os dias e 58 euros para quem optar ir apenas um dia, face aos 109 euros para quem foi todos os dias no ano passado ou 55 euros para quem foi apenas um dia.
Ou seja, vemos aqui, nesta breve triagem de quatro dos maiores festivais de verão do país, que a descida do IVA nem sempre corresponde a uma verdadeira e significativa descida do preço dos bilhetes. Não ficando o público a ganhar, resta perguntar: ganha quem?

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